
(Imagem criada por IA)
Estamos na Semana Santa, e novamente, cristãos de várias denominações, outras não, preparam-se para celebrar a Páscoa, ou seja, a passagem de Jesus Cristo da morte para a vida eterna na ressurreição. Mas, afinal de contas, como é comemorar a Páscoa nos dias de hoje? Comemorar a Páscoa no século XXI é, antes de tudo, compreender a profundidade histórica e simbólica dessa celebração que atravessa milênios e culturas. Sua origem remonta à tradição judaica, na festa do Pessach (em hebraico: פַּסחָא), que celebra a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito — uma passagem da opressão e escravidão para a liberdade e a libertação. O próprio termo “Páscoa” deriva dessa ideia de passagem, de travessia e de transformação.
Entretanto, muito antes de assumir seu significado religioso consolidado, a Páscoa também se conectava a ciclos naturais. Povos antigos celebravam, nesse período, a chegada da primavera no hemisfério norte, marcada pela primeira Lua Cheia após o equinócio. Era o tempo do renascimento da natureza, da fertilidade da terra, da vitória da luz sobre as trevas. Não por acaso, símbolos como o ovo e o coelho, ainda presentes nas tradições contemporâneas, remetem à vida que surge, à renovação e à abundância.
Com o cristianismo, a Páscoa ganha seu significado central e definitivo: a Ressurreição de Jesus Cristo. Para os cristãos, este não é apenas um evento histórico ou simbólico, mas o fundamento da fé. A ressurreição representa a vitória da vida sobre a morte, do amor sobre o ódio, da esperança sobre o desespero. É a afirmação de que a morte não tem a última palavra em nenhum sentido.
Assim, a Páscoa cristã não se limita a recordar um acontecimento do passado, mas proclama uma verdade existencial para o presente e para o futuro: a possibilidade contínua de renascimento. A vida eterna, nesse contexto, não é apenas uma promessa futura, mas uma realidade que começa no presente, na medida em que o ser humano se reconcilia, se transforma e se abre ao outro através da generosidade, do amor, da fraternidade, da solidariedade, da compaixão e da caridade.
No entanto, celebrar a Páscoa no século XXI exige mais do que repetir rituais ou consumir tradições esvaziadas de sentido. Vivemos em um mundo marcado por crises simultâneas (ambientais, econômicas, sociais e políticas) que desafiam diretamente o espírito pascal. Falar em ressurreição hoje é falar em reconstrução de vidas devastadas, em superação de desigualdades e em restauração da dignidade humana, principalmente, em relação às guerras dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, de Israel contra os terroristas na Palestina, da Rússia contra Ucrânia, das guerras civis na Etiópia, Sudão, Mianmar, Síria e Iêmen, fora outras guerras nos países de paramilitares, milícias, organizações criminosas e traficantes.
Nesse cenário, conceitos como internacionalismo, utopia e solidariedade tornam-se profundamente pascais. O internacionalismo, entendido como cooperação entre povos, revela que a salvação não é individual, mas coletiva. A pandemia recente mostrou que a humanidade compartilha vulnerabilidades e destinos, ninguém se salva sozinho. A Páscoa, portanto, amplia-se, que é a passagem de uma humanidade fragmentada para uma humanidade solidária.
A utopia, por sua vez, expressa a esperança ativa que a Páscoa inspira. Não se trata de ingenuidade, mas de horizonte. Celebrar a ressurreição é acreditar que outras formas de vida social são possíveis, mesmo quando o presente parece marcado pelo cinismo e pela desesperança. Como recordou o escritor Eduardo Galeano, a utopia nos faz caminhar, e a Páscoa é, essencialmente, movimento e transformação.
Já a solidariedade constitui o coração dessa experiência. Não como caridade ocasional, mas como compromisso contínuo com o outro. Em um tempo de individualismo e indiferença, viver a Páscoa é partilhar, acolher e cuidar. É reconhecer que a vida que vence a morte só se realiza plenamente quando alcança a todos.
Entretanto, essa vivência enfrenta desafios concretos. O crescimento do negacionismo, das fakenews e de discursos excludentes enfraquece os laços sociais e obscurece a verdade. Por isso, a Páscoa também precisa ser um compromisso com o discernimento, o diálogo e a construção de uma humanidade comum.
Dessa forma, comemorar a Páscoa no século XXI é resgatar suas múltiplas dimensões: sua raiz histórica como libertação, seu vínculo com os ciclos da vida, e, sobretudo, seu núcleo cristão como anúncio da ressurreição. Mais do que uma data, ela se apresenta como um chamado.
No fim, a Páscoa permanece como um convite radical: atravessar as próprias sombras, renovar a esperança e assumir, no cotidiano, a tarefa de fazer a vida vencer sempre a morte.
Lúcio Rangel Ortiz, doutor livre em Teologia pela FAINTE, Teólogo afiliado pelo Conselho Federal dos Teólogos e Pastores do Brasil (CFTPB), bacharel em Teologia pela Faculdade Olavo Bilac, secretário geral em exercício do Conselho Diocesano de Leigos de Franca, membro da Comissão Justiça e Paz da Diocese de Franca e Catequista com Adultos da Paróquia São João Batista – Capela da Comunidade Santa Dorotéia. É escritor, advogado, professor, pesquisador, gestor público pedagógico e colunista do Portal FNT – Intelecto Saber.


