
O Brasil não vive apenas mais uma de suas recorrentes crises na área educacional. Assiste-se, na verdade, à construção silenciosa de um colapso geracional. O fenômeno, que já pode ser chamado de o apagão dos professores, manifesta-se no esvaziamento das salas de aula e na recusa das novas gerações em adotar a docência como projeto de vida. Os números oficiais e os rankings internacionais desenham um cenário alarmante e sem espaço para relativizações.
Segundo o Global Teacher Status Index, da Varkey Foundation, o país ocupa o último lugar no ranking mundial de valorização docente, situando-se atrás inclusive de vizinhos latino-americanos como Panamá, Chile, Peru, Colômbia e Argentina. O reflexo desse desprestígio institucional é imediato: dados da UNESCO revelam que apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos manifestam o desejo de se tornarem professores. O desinteresse precoce sinaliza que a sociedade e o próprio sistema de ensino ensinam os jovens a desistirem da carreira antes mesmo de ingressarem.
A rejeição à profissão justifica-se pela transformação da docência em uma atividade de pura resistência. Exige-se que o professor contemporâneo atue simultaneamente como educador, psicólogo, mediador de conflitos, gestor emocional, assistente social e produtor de resultados. Toda essa carga multifuncional é imposta sob condições severas de trabalho, que incluem salários incompatíveis com a responsabilidade do cargo, esgotamento psicológico, excesso de burocracia e ambientes escolares cada vez mais adoecedores. O resultado prático é o envelhecimento acelerado do corpo docente atual. Entre os anos de 2009 e 2021, o contingente de professores com mais de 50 anos cresceu de forma acentuada, enquanto o número de profissionais jovens despencou. O impacto direto na qualidade da aprendizagem já se faz notar nas estatísticas nacionais, como o dado de que 41% dos professores de matemática das escolas rurais brasileiras não possuem formação específica na disciplina que lecionam, submetendo milhões de estudantes a uma estrutura que opera no limite da subsistência técnica.
Projeções indicam que o Brasil pode enfrentar um déficit de até 235 mil professores da educação básica até o ano de 2040. Essa escassez futura se alimenta diretamente da crise crônica que afeta a formação inicial nas Instituições de Ensino Superior. Embora o Censo da Educação Superior aponte que o país ultrapassou a marca de 10 milhões de matrículas na graduação com o protagonismo da Educação a Distância (EAD), os índices de permanência estudantil são críticos. Conforme o Mapa do Ensino Superior do SEMESP, a evasão acumulada nos cursos de licenciatura em formato EAD na rede privada chega a 54,2%, revelando que mais da metade dos futuros docentes desiste antes de concluir a graduação. Esse cenário ganha contornos ainda mais complexos diante do novo ambiente regulatório inaugurado pelo Decreto federal nº 12.456/2025 e pelas consultas públicas do Ministério da Educação e do Conselho Nacional de Educação.
O aumento da presencialidade obrigatória e das exigências práticas amplia o custo operacional da oferta de cursos, criando um dilema delicado para o setor: a tentativa de elevar a qualidade regulatória pode, por vias transversas, reduzir drasticamente a escala e a capacidade real do país de formar professores em volume suficiente para suprir a demanda básica das escolas.
Paralelamente ao desafio estrutural e de permanência docente, há um descompasso pedagógico profundo no modelo de formação que ainda persiste. O sistema educacional continua a preparar profissionais para um perfil de aluno que já não existe. O estudante atual é hiperconectado, aprende por meio de múltiplas telas em velocidade acelerada e demanda interatividade e aplicabilidade imediata do conhecimento. No entanto, muitas salas de aula ainda operam sob a lógica do século passado, baseada na exposição longa, no conteúdo passivo e na centralidade do professor.
A tecnologia sozinha não resolve essa equação. Investimentos massivos em inteligência artificial e plataformas digitais tornam-se inócuos se não houver o fortalecimento da competência digital e a transformação do papel do docente, que precisa migrar de um mero transmissor de informações para um mentor e curador de experiências.
Diante desse panorama, o debate público precisa urgentemente superar a análise exclusiva de indicadores de desempenho dos alunos e focar nas condições de permanência e saúde do professor. Países de referência como Finlândia, Singapura e Canadá tratam a docência como ativo estratégico de Estado, oferecendo planos de carreira atraentes, mentoria para iniciantes e efetiva autonomia pedagógica.
No Brasil, reverter o apagão exige uma liderança escolar mais humanizada, redução drástica do fardo burocrático, apoio emocional preventivo contra o burnout e tempo de planejamento qualificado. O resgate da atratividade da carreira para os novos talentos só ocorrerá quando o investimento na profissão deixar de ser tratado como custo e passar a ser encarado como estratégia nacional e investimento.
Por acréscimo, o cenário do apagão docente ganha contornos ainda mais dramáticos no Estado de São Paulo sob a gestão do governador Tarcísio de Freitas e de seu secretário estadual da educação, Renato Féder. A atual política educacional paulista tem sido alvo de duras críticas por acelerar o processo de desestruturação da carreira e por contribuir diretamente para que professores experientes peçam exoneração em massa. O modelo de gestão implementado pela secretaria instituiu uma política de metas exacerbadas e cobranças severas, que, na visão de sindicatos e especialistas, cria um verdadeiro clima de assédio moral institucionalizado dentro das unidades escolares, onde o foco na vigilância e na punição sobrepõe-se ao apoio pedagógico.
O motor dessa pressão cotidiana é a chamada plataformização do ensino, que transformou a dinâmica das salas de aula em um ambiente hiperburocrático e mediado por aplicativos de controle de frequência, tarefas e avaliações digitais padronizadas. Em vez de promover a inclusão ou a modernização real, a dependência excessiva dessas ferramentas digitais tem gerado um profundo descontentamento entre os estudantes, que se queixam de um sistema educacional engessado, impessoal e desprovido de significado humano. Longe de atrair os jovens, essa robotização do ensino afasta os alunos e esvazia o papel crítico e criativo da escola.
Como consequência inevitável dessa engrenagem de cobranças desmedidas e desumanização do trabalho, assiste-se ao adoecimento generalizado dos profissionais da rede pública paulista. O número de professores que se veem obrigados a pedir licenças médicas para tratamento de saúde disparou, evidenciando uma crise sanitária e de saúde mental na categoria. Diagnósticos de síndrome de burnout, depressão profunda, crises de ansiedade generalizada e esgotamento mental completo passaram a fazer parte da rotina dos docentes. Ao priorizar métricas quantitativas em detrimento do bem-estar de quem ensina, a gestão estadual sufoca a saúde de seus servidores e transforma a rede de ensino de São Paulo em um polo de expulsão de talentos, onde a exoneração ou o afastamento médico tornam-se as únicas alternativas de sobrevivência para o trabalhador.
Em relação a educação especial, Tarcísio de Freitas em 2025 tomou medidas de demitir professores que atendem alunos com necessidades especiais, quando houve movimento popular estadual que se posicionou contra o governo estadual contratar agentes com cursos profissionalizantes para atender uma demanda que se exige tanto para inclusão nas escolas. Depois, voltou atrás. Neste ano de 2026, o governo paulista decidiu que professor que não fosse especializado em educação especial ser professor de apoio para os estudantes especiais, até que reviu tal medida. E, novamente, em nome de diminuição de custos financeiros, quer demitir os professores de educação especiais e contratar agentes de organização escolar com curso rápido livre de educação especial possam atender os referidos estudantes. Dessa maneira, o governo doo Estado de São Paulo pretende valorizar a educação?
Afinal, diante desta realidade que se vive a educação brasileira e paulista, uma sociedade que perde a admiração por seus professores compromete sua própria capacidade de construir o futuro, visto que sem a base docente estruturada e valorizada, qualquer discurso sobre inovação, desenvolvimento econômico e avanço tecnológico não passa de mera retórica de curto prazo.
Lúcio Rangel Ortiz é professor da rede pública paulista, coordenador pedagógico substituto municipal, advogado, pesquisador, mestre em planejamento e análise de políticas públicas (UNESP), MBA em gestão de projetos (USP), escritor e colunista do Portal FNT – Intelecto Saber.


