
O dia 22 de abril de 2026 nos convida a uma dupla reflexão histórica e civilizatória. De um lado, celebra-se o Dia da Terra, em sua 56ª edição, com o tema “Nosso Poder, Nosso Planeta”, enfatizando a mobilização coletiva em prol da transição energética, da ampliação das energias renováveis até 2030 e da justiça climática. De outro, marca-se simbolicamente os 526 anos da chegada de Pedro Álvares Cabral à costa baiana, em 1500, data tradicionalmente associada ao chamado “descobrimento” do Brasil, hoje amplamente revisitada pela historiografia crítica. O que se pode dizer que o Brasil foi inventado e nasceu no entrelaçamento das culturas europeia, originária indígena e africana.
O Dia do Planeta Terra, instituído em 1970, surgiu como expressão de uma crescente consciência ambiental que ganhava força em meio às contradições do desenvolvimento industrial. Naquele contexto, a poluição era frequentemente naturalizada como sinal de progresso, enquanto seus efeitos sobre a saúde humana e os ecossistemas permaneciam subestimados. A publicação da obra Silent Spring, de Rachel Carson, em 1962, representou um marco decisivo ao evidenciar os impactos dos pesticidas e ao conectar, de forma contundente, meio ambiente e saúde pública. O primeiro Dia da Terra deu voz a essa inquietação emergente, transformando-a em mobilização social.
Passadas mais de cinco décadas, a data se consolida como um chamado global à ação. Em 2026, o foco recai sobre o poder das pessoas e das comunidades na construção de soluções sustentáveis. A mensagem central desloca a responsabilidade exclusiva dos grandes centros de decisão para o cotidiano das práticas sociais. Escolas, cidades, movimentos sociais e iniciativas comunitárias demonstram que a transformação ambiental é possível quando articulada com educação, inovação e participação cidadã. A educação ambiental, nesse cenário, assume papel estratégico, não apenas como transmissão de conhecimento, mas como formação de consciência crítica e de compromisso ético com o planeta.
A crise climática, a perda de biodiversidade e a intensificação das desigualdades socioambientais tornam evidente que a sustentabilidade não pode ser reduzida a discursos simbólicos. Trata-se de uma exigência concreta, que demanda mudanças estruturais e, simultaneamente, atitudes cotidianas. Cada escolha de consumo, cada prática de cuidado com os recursos naturais e cada ação educativa compõem uma rede de responsabilidades compartilhadas. O futuro do planeta depende, em grande medida, da capacidade de transformar consciência em ação.

E nesse mesmo dia de 22 de abril que se insere uma reflexão igualmente necessária sobre a história do Brasil. Ao completar 526 anos da chegada portuguesa, o debate historiográfico contemporâneo questiona o uso do termo “descobrimento”, considerado anacrônico e eurocêntrico. Essa expressão desconsidera a presença milenar de milhões de indígenas que já habitavam o território, com suas próprias culturas, línguas e formas de organização social. Assim, o que se convencionou chamar de “descoberta” passa a ser compreendido como um “encontro de culturas”, ainda que profundamente assimétrico, ou mesmo como um processo de invasão, marcado por conflitos, violência e dominação, mas que se pode considerar como começou e nasceu nosso país.
A crítica historiográfica também aponta que o Brasil, enquanto nação, não nasce em 1500. Trata-se de uma construção histórica posterior, consolidada ao longo dos séculos, especialmente no século XIX, quando se buscou elaborar uma narrativa nacional que conferisse identidade e coesão ao país. Nesse processo, a chegada dos portugueses foi frequentemente romantizada, obscurecendo as experiências e os sofrimentos dos povos originários e das populações africanas trazidas à força. A revisão dessas narrativas não implica negar a história, mas ampliá-la, incorporando múltiplas perspectivas e reconhecendo a complexidade de sua formação.
Antes da chegada dos portugueses em 1500, o território que hoje conhecemos como Brasil era um espaço densamente povoado, culturalmente diverso e profundamente organizado. Longe da ideia equivocada de uma terra “vazia”, existia aqui uma complexa rede de sociedades indígenas, com modos próprios de viver, produzir, se relacionar com a natureza e compreender o mundo. Para muitos desses povos, especialmente os de matriz Tupi-Guarani, essa terra era chamada de Pindorama, expressão que pode ser traduzida como “Terra das Palmeiras” ou “Lugar das Palmeiras”, revelando não apenas uma identificação geográfica, mas também simbólica com o ambiente natural.

As estimativas demográficas indicam que entre 3 e 5 milhões de indígenas habitavam esse território à época da chegada europeia, podendo esse número alcançar, segundo alguns estudos, até 6 ou 8 milhões de pessoas. Essa população não era homogênea: estava distribuída em mais de mil povos distintos, cada qual com sua organização social, suas crenças, suas tecnologias e suas formas de interação com o meio ambiente. Tratava-se, portanto, de um mosaico cultural extremamente rico, marcado por diversidade linguística, étnica e territorial.
Entre os principais grupos linguístico-culturais, destacavam-se os povos do tronco Tupi e Guarani. Os Tupi ocupavam grande parte da faixa litorânea, estendendo-se do atual Ceará até a região de Cananeia, em São Paulo. Já os Guarani predominavam em áreas do sul e do interior, especialmente nas regiões das bacias dos rios Paraná e Paraguai. Além desses, havia outros grupos expressivos, como os povos do tronco Jê, muitas vezes chamados de “tapuias” pelos tupis, termo que designava genericamente os não-tupis, além de grupos Caraíba e Aruaque, que ocupavam extensas áreas do interior do território.
A diversidade linguística era igualmente impressionante. Calcula-se que entre 1.000 e 1.300 línguas diferentes eram faladas no território, o que evidencia a pluralidade cultural existente. Entre elas, a língua Tupinambá, pertencente ao tronco Tupi, destacava-se ao longo do litoral atlântico e, posteriormente, deu origem à chamada Língua Geral ou Nheengatu, utilizada como meio de comunicação entre diferentes povos indígenas, missionários e colonizadores nos primeiros séculos da colonização.
Essas sociedades indígenas possuíam conhecimentos sofisticados sobre agricultura, manejo ambiental, medicina natural e organização comunitária. Cultivavam alimentos como mandioca, milho, batata-doce e diversas frutas nativas, além de desenvolverem técnicas de pesca, caça e coleta adaptadas aos diferentes biomas. Sua relação com a terra não era baseada na exploração predatória, mas no equilíbrio e na reciprocidade, o que permitia a manutenção dos ecossistemas ao longo de gerações, o que vai de encontro na campanha de proteger o planeta e a Mãe Terra.
É importante destacar que o nome “Brasil” só se consolidou posteriormente, já no contexto da colonização, especialmente a partir da exploração do pau-brasil no século XVI. Antes disso, o território não era uma unidade política ou nacional, mas um conjunto de territórios indígenas autônomos, cada qual com sua identidade própria.
Compreender o Brasil antes de 1500 é reconhecer que a história deste país não começa com a chegada europeia, mas se estende por milhares de anos de ocupação humana, marcada por diversidade, conhecimento e complexidade social. Essa perspectiva amplia o entendimento sobre a formação do Brasil e reforça a necessidade de valorizar os povos originários como protagonistas fundamentais da história e da identidade nacional.
Dessa forma, o 22 de abril deixa de ser apenas uma data comemorativa e se transforma em um momento de reflexão crítica. Assim como o Dia da Terra nos convida a repensar nossa relação com o meio ambiente, a memória dos 526 anos do Brasil nos convoca a reavaliar nossa relação com a história, com a diversidade cultural e com as desigualdades que ainda persistem. Ambas as dimensões se entrelaçam: não há sustentabilidade ambiental sem justiça social, assim como não há futuro coletivo sem reconhecimento das raízes históricas que moldaram o presente.
Cuidar da Terra, portanto, é também cuidar da memória, da identidade e das relações humanas. É compreender que o planeta não é apenas um espaço físico, mas um território de vida, de culturas e de histórias. Nesse sentido, o tema “Nosso Poder, Nosso Planeta” adquire uma dimensão ainda mais profunda: o poder de transformar o mundo está intrinsecamente ligado à capacidade de aprender com o passado, agir no presente e projetar um futuro mais justo, equilibrado e sustentável.
Assim, o dia 22 de abril de 2026, assim, não deve ser reduzido a um marco simbólico isolado. Ele representa um convite à consciência ampliada: ambiental, histórica e ética. Um chamado para que indivíduos e coletividades assumam, de forma concreta, o compromisso com a vida em todas as suas dimensões. Afinal, tanto a Terra quanto o Brasil dependem, em última instância, das escolhas que fazemos hoje.

Lúcio Rangel Ortiz – advogado, professor, escritor, mestre em planejamento e análise de políticas públicas e pesquisador (UNESP), MBA em gestão de projetos (USP), doutor livre em teologia (FAINTE), graduado em filosofia e administração pública (UFSJ), pedagogia (UNIUBE), sociologia (Uni-FAVENI), colaborador do Greenpeace Brasil, Animador Laudato Sí do Movimento Católico Global pelo Clima e membro do Fórum Franca Sustentável. É, também, colunista do Portal Fato no Ato – Intelecto Saber e aniversariante do dia 22 de abril.


