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    Início » A Inteligência Artificial se rende a Filosofia
    Cultura

    A Inteligência Artificial se rende a Filosofia

    Lucio RangelBy Lucio Rangel25 de junho de 2025Updated:26 de junho de 2025

    Como a IA está sendo engolida pela Filosofia?

    (Fonte: https://unsplash.com/pt-br/images/stock/non-copyrighted)

    Em 2011, o investidor e programador Marc Andreessen causou espanto ao declarar que “o software engoliria o mundo”. Estava certo: nos anos seguintes, testemunhamos a digitalização de praticamente todas as esferas da vida humana. Não demorou muito e Jensen Huang, CEO da Nvidia, refinou a tese: “A inteligência artificial está engolindo o software.” De fato, a IA passou a ser a força motriz da nova era tecnológica, porque reformula mercados, profissões e até a própria noção de produtividade. Tal matéria foi assunto em MIT Sloan Management Review, The Wall Street Journal, Linkedin Artigos e Jornal da USP.

    Contudo, silenciosamente, um novo paradigma emerge — e poucos estão atentos a respeito. Vários especialistas de TI, programadores, analistas de sistemas, CEOs, desenvolvedores, mundo corporativo e até juristas e demais cientistas, seja na área de exatas ou de humanas perguntam: quem fará e quem terá a competência de nortear as máquinas sobre questões éticas e determinar o que é o certo e o errado? Diante de tais reflexões e dilemas, perceberam os pesquisadores da área um conhecimento que pode, deve e vai nortear a IA para não só conduzi-la na questão ética, como também na questão ontológica, teleológica e até epistemológica: a FILOSOFIA. O que ninguém ousava dizer ou pensar é que a mãe de todas as ciências, a Filosofia, é o conhecimento humano mais importante que vai e está prestes a engolir e devorar a Inteligência Artificial, conhecimento esse, de modo intrínseco do pensamento humano. Eureca!

    Sim, a Filosofia, que não é o conhecimento somente da área de disciplina escolar ou abstração teórica acadêmica, mas como a base imprescindível para que a IA evolua de mera ferramenta técnica e tecnológica para agente verdadeiramente inteligente, contudo conduzida por seres humanos que se dedicam ao conhecimento de aprimorar a sabedoria. Ora, uma inteligência artificial sem filosofia é apenas cálculo sofisticado e, portanto, que age e agirá sem direção, decide e vai decidir sem sentido, pois responde sem compreender as respostas encontradas.

    Mais do que nunca e diante do desenvolvimento da IA, lideranças empresariais e desenvolvedores precisam de um novo tipo de competência estratégica: o pensamento crítico com fundamentos filosóficos. Nomes como Peter Thiel, Alex Karp, Fei-Fei Li e Stephen Wolfram reconhecem abertamente a importância do rigor filosófico na criação de tecnologias verdadeiramente transformadoras. Afinal, até Alan Turing e Claude Shannon, pioneiros da computação, foram profundamente influenciados por questões filosóficas.

    Hoje, grandes marcas como Starbucks e Amazon já incorporam essas reflexões ao design de seus sistemas de IA, e promovem valores como conexão humana e confiança como elementos centrais da experiência com a marca — indo muito além das métricas frias de performance.

    A próxima fronteira da IA não é apenas computacional ou algorítmica. É ontológica (o que é a realidade? O que é o ser?), epistemológica (como conhecemos?), teleológica (para que existimos?) e metafísica (o que há além dos dados?). Em outras palavras, a inteligência artificial chegou a um ponto em que a sua evolução depende menos de engenheiros e mais de filósofos no atual momento da sua história. Portanto, abre-se uma porta no mundo corporativo para os bacharéis e licenciados em Filosofia trazerem seus conhecimentos, pesquisas e experiência nas áreas da Ética (estudo da moral e das questões sobre o certo e o errado, do justo e do injusto), da Epistemologia (estudo do conhecimento científico e empírico), da Metafísica (estudo aprofundado do conhecimento abstrato humano), da Ontologia (estudo do ser e da realidade) e da Crítica (estudo dos critérios da busca da verdade e do sentido da finalidade do conhecimento).

    Sam Altman, CEO da OpenAI, quando fala em AGI (Inteligência Artificial Generativa), já percebe que não é só o desempenho computacional que precisa evoluir, mas analisar, perguntar e refletir a grandes questões: o que é a Consciência? O que é a Liberdade? Qual o propósito de uma máquina se pensar?

    Eis o ponto de inflexão: a IA relevante do futuro não será a mais veloz no processamento e análise de dados, mas a “mais sábia”, ou seja, que tomará decisões importantes para a civilização humana se assim for necessário. E sabedoria não é apenas saber o que fazer — é saber o porquê das coisas, das informações, dos dados e do conhecimento. E para isso, será preciso mais do que códigos binários: será necessária a visão de mundo.

    Toda IA carrega uma filosofia — mesmo que de forma inconsciente, caráter intrinsecamente humano, logo embutida nas escolhas de seus criadores humanos, nos vieses de seus dados, nas finalidades que lhe são atribuídas. Ignorar isso é negligenciar o aspecto mais profundo da tecnologia: o seu impacto sobre o ser humano e sobre o mundo que habitamos.

    E de certa forma, ressuscitamos as “ágoras gregas”, onde a razão era compartilhada em praça pública. Agora, o debate se dá em fóruns digitais, em equipes interdisciplinares, onde engenheiros conversam com sociólogos, cientistas de dados escutam filósofos e teólogos, e CEOs começam a perceber que o cargo mais estratégico não é o Chief Technology Officer (CTO – chefe oficial de tecnologia), mas o de Chief Philosophy Officer (CPO –  chefe oficial de filosofia) — o líder capaz de orientar decisões tecnológicas com base em sabedoria, valores e visão ética. Esta resposta faz remeter o “Phd” (Philosophical Doctor) dos estadunidenses e britânicos, que equivalem o Doutorado Acadêmico mundo afora, no quesito de aprofundar o conhecimento sistemático inédito como “Doutorado Filosófico”.

    Essa integração lúcida entre técnica e filosofia será o diferencial competitivo mais valioso das próximas décadas. Porque, no fim, a pergunta básica essencial não será apenas “o que a IA pode fazer?”, mas “o que ela deve fazer?”

    E para essa resposta, precisaremos — mais do que nunca — pensar, pois o mundo dos algoritmos também precisa de direção, propósito e discernimento.

    Imagem gerada por IA (Chatgpt)

    Lúcio Rangel Ortiz é professor licenciado de filosofia (UFSJ), graduado em processamento de dados (FATEC Ourinhos), advogado especialista em direito digital e LGPD (LEGALE São Paulo), consultor e assessor jurídico, escritor, palestrante, mestre em Planejamento e Análise de Políticas Públicas (UNESP) e MBA em Gestão de Projetos (USP). Na coluna Intelecto Saber, conecta tecnologia, filosofia e sociedade em reflexões sobre o presente e o futuro.

    Contemporaneidade Filosofia inteligência artificial

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