
(Imagem gerada por IA)
Os resultados mais recentes do PISA voltaram a expor uma realidade que o país insiste em tratar como surpresa eventual, quando na verdade é problema estrutural: o Brasil patina em matemática, leitura e ciências. Em matemática, a maioria esmagadora dos estudantes conclui a educação básica sem alcançar o nível mínimo de proficiência. Em leitura, quase metade não consegue interpretar textos de média complexidade, identificar ideias centrais ou estabelecer relações lógicas. Não se trata apenas de desempenho escolar insuficiente, trata-se de uma limitação formativa que acompanha o jovem para além dos muros da escola e para a vida.
A matemática não é apenas um componente curricular, ela estrutura o raciocínio lógico, a capacidade de resolver problemas, a leitura de dados e a tomada de decisões fundamentadas. Em um mundo movido por algoritmos, estatísticas, inteligência artificial e inovação tecnológica, não dominar conceitos matemáticos básicos significa estar à margem do desenvolvimento. Quando oito em cada dez estudantes concluem o ensino médio sem domínio satisfatório da disciplina, o problema deixa de ser individual e passa a ser social.
Esse quadro se conecta diretamente ao fenômeno do analfabetismo funcional, que ainda atinge parcela significativa da população adulta. São cidadãos que decodificam palavras, mas não compreendem textos, gráficos, instruções ou operações simples. A limitação é silenciosa, mas profunda: compromete a cidadania, reduz a autonomia intelectual e enfraquece a capacidade de participação crítica na vida pública. Sem leitura consistente e sem raciocínio quantitativo, decisões cotidianas do orçamento doméstico à avaliação de políticas públicas tornam-se vulneráveis à desinformação e à manipulação.
As consequências aparecem com nitidez no ensino superior e no mercado de trabalho. O país forma poucos profissionais nas áreas estratégicas de ciências exatas, de tecnologia, de engenharia e de pesquisa científica. Cursos dessas áreas registram evasão elevada e dificuldades acumuladas que têm origem muito antes da universidade. Não se trata de ausência de talento ou vocação nacional, mas de uma trajetória escolar marcada por lacunas persistentes em leitura e matemática. O déficit se acumula ano após ano até se transformar em barreira quase intransponível.
Há ainda um componente cultural que agrava o cenário: o baixo hábito de leitura. Sem contato frequente com textos longos, argumentativos e científicos, não se desenvolve plenamente a capacidade de abstração, a interpretação crítica e o domínio da linguagem. E sem linguagem estruturada, não há pensamento estruturado. A matemática, por sua vez, deixa de ser compreendida como linguagem universal da ciência e passa a ser vista como obstáculo intransponível. Forma-se, assim, um ciclo vicioso de desestímulo, baixa aprendizagem e evasão escolar. E o pior, os ideológicos anticiência ganham terreno para impor narrativas e propagar desinformações, o que é um prejuízo para a sociedade.
O resultado é um paradoxo inquietante. Enquanto vários países do mundo (China, Coreia do Sul, Coreia do Norte, Singapura, Japão, Alemanha, Estados Unidos, Suíça, Finlândia, Israel, Índia, Canadá, Suécia, Holanda, Reino Unido, entre outros) avança em ciência de dados, biotecnologia, automação e inteligência artificial, o Brasil permanece dependente de tecnologia importada e encontra dificuldades para preencher vagas qualificadas em setores estratégicos. A fragilidade educacional converte-se em dependência econômica e tecnológica. Não é apenas uma questão pedagógica, é uma questão de soberania e desenvolvimento.
Superar esse atraso exige mais do que discursos genéricos sobre a importância da educação. Exige políticas públicas estruturantes, consistentes e de longo prazo. É indispensável investir seriamente na formação e valorização de professores, sobretudo nas áreas de matemática, ciências e linguagens, garantindo sólida base teórica e atualização contínua. É necessário assegurar financiamento estável que proporcione infraestrutura adequada, bibliotecas ativas, laboratórios equipados e acesso a tecnologias educacionais. É urgente estimular a leitura e a cultura científica desde a infância, integrando escola, universidade e pesquisa em projetos que despertem curiosidade e protagonismo intelectual.
E é fundamental articular a educação básica ao ensino superior e à formação profissional, a fim de alinhar currículos às demandas da sociedade do conhecimento sem reduzir a educação a mero treinamento técnico.
Os dados do PISA não devem ser lidos como sentença contra estudantes ou professores isoladamente. Eles são diagnóstico coletivo de escolhas históricas e prioridades políticas. O atraso em matemática e leitura não é falha moral do aluno, é consequência de um sistema que ainda não conseguiu garantir aprendizagem efetiva para todos.

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Se o Brasil deseja ocupar lugar relevante na economia do conhecimento, precisa compreender que investir em educação de qualidade não é despesa, mas estratégia de desenvolvimento e é investimento. Aprender matemática, ler com profundidade e pensar criticamente são condições para inovar, produzir riqueza e fortalecer a democracia. Em última análise, trata-se de aprender a interpretar o mundo com rigor e de calcular, com responsabilidade, o próprio futuro.
Lúcio Rangel Ortiz, mestre em planejamento e análise de políticas públicas e pesquisador (UNESP), MBA em gestão de projetos (USP), professor licenciado em matemática (UNAR), sociologia (Uni-FAVENI), pedagogia (UNIUBE) e filosofia (UFSJ). É, também, graduado em tecnologia em processamento de dados (FATEC) e administração pública (UFSJ), escritor, palestrante e colunista do Portal FNT – Intelecto Saber.


