
A psicanálise está novamente em evidência, e esse retorno, longe de ser um fenômeno superficial, revela transformações profundas na forma como a sociedade contemporânea busca compreender a si mesma. Ao observar o crescimento de perfis dedicados à teoria freudiana nas redes sociais, a popularidade de produções audiovisuais como Couples Therapy, conduzida pela psicanalista Orna Guralnik, e a recorrência de análises em veículos como The New York Times e The Guardian, torna-se difícil sustentar a ideia de que a psicanálise pertence ao passado. Ao contrário, ela retorna como uma linguagem interpretativa privilegiada para pensar os impasses do presente.
Esse movimento pode parecer surpreendente se considerarmos que, ao longo das últimas décadas, a obra de Sigmund Freud foi frequentemente relegada a segundo plano em determinados círculos científicos, especialmente no mundo anglófono, onde o avanço da psicologia comportamental e o fortalecimento da indústria farmacêutica favoreceram abordagens mais rápidas, mensuráveis e orientadas à supressão de sintomas. Nesse contexto, a escuta prolongada e a investigação do inconsciente, que são marcas fundamentais da psicanálise, foram vistas como pouco eficientes diante das demandas de uma sociedade cada vez mais imediatista.
No entanto, essa narrativa de declínio nunca foi universal. Em diversas regiões do mundo, a psicanálise não apenas resistiu, como se consolidou cultural e clinicamente. Cidades como Paris, Buenos Aires, São Paulo e Tel Aviv mantiveram viva uma tradição que atravessou o século XX e chegou ao XXI com notável vigor. Na América do Sul, em especial, a psicanálise adquiriu um estatuto singular, integrando-se não apenas à prática clínica, mas também ao imaginário social e à produção intelectual. Esse enraizamento não pode ser compreendido sem considerar processos históricos como a diáspora judaica, que contribuiu para a difusão global das ideias freudianas, e os contextos de instabilidade política e autoritarismo, nos quais a reflexão sobre o sujeito, o sofrimento e a liberdade se torna ainda mais necessária.
O que torna esse retorno particularmente relevante, contudo, é sua articulação com uma questão filosófica e científica central: a consciência. Desde suas origens, a psicanálise tensiona a ideia de que o ser humano é plenamente transparente a si mesmo. Para Freud, a consciência é apenas uma superfície, uma instância limitada diante da vastidão do inconsciente, onde se estruturam desejos, conflitos e repetições que escapam ao controle racional. Essa concepção, que durante muito tempo foi vista com desconfiança, encontra hoje novos interlocutores na neurociência contemporânea. Pesquisadores como Mark Solms têm demonstrado que a experiência consciente não pode ser reduzida a processos puramente cognitivos, mas está profundamente vinculada a dimensões afetivas e subjetivas, o que aproxima, de maneira surpreendente, os avanços científicos atuais das intuições freudianas.
Ao mesmo tempo, a cultura digital oferece um campo fértil para a atualização desses conceitos. A busca incessante por reconhecimento nas redes sociais, a necessidade de validação constante e a construção de identidades mediadas por curtidas e comentários podem ser interpretadas à luz do conceito freudiano de narcisismo. Nesse cenário, o sujeito contemporâneo parece engajado em uma tentativa contínua, ainda que inconsciente, de reparar faltas originárias, e reproduz padrões de comportamento que se repetem de forma quase automática. A psicanálise, nesse contexto, não apenas explica tais fenômenos, mas os implica, ao evidenciar que aquilo que se apresenta como escolha muitas vezes é determinado por estruturas psíquicas profundas.

Diferentemente do uso vulgar da expressão “Freud explica”, que reduz a complexidade da teoria a fórmulas simplificadoras, o momento atual sugere uma relação mais crítica e reflexiva com a psicanálise. Freud não oferece respostas prontas, mas oferece instrumentos para interrogar a própria experiência. Conceitos como Id, Ego e Superego continuam operando como chaves interpretativas potentes, enquanto o rigor da formação psicanalítica, sustentado pelo tripé análise pessoal, supervisão e estudo teórico, reafirma o compromisso com uma prática que exige tempo, escuta e aprofundamento.
Nesse sentido, o chamado “renascimento” da psicanálise não deve ser entendido como um retorno nostálgico ao passado, mas como a reativação de uma tradição capaz de dialogar com os desafios do presente. Em uma época marcada pela aceleração, pela ansiedade e pela superficialidade das interações, cresce a demanda por abordagens que levem em conta a complexidade da subjetividade humana. O sujeito contemporâneo, apesar de imerso em tecnologias avançadas, continua atravessado por conflitos, desejos e contradições que não podem ser plenamente capturados por modelos exclusivamente biológicos ou comportamentais.
É nesse ponto que a psicanálise reafirma sua atualidade. Mais do que uma técnica terapêutica, ela se apresenta como uma forma de pensamento, uma hermenêutica (interpretação estudada) do sujeito que insiste em lembrar que nem tudo é visível, nem tudo é consciente e, sobretudo, nem tudo é controlável. O retorno de Freud, portanto, não é apenas um fenômeno cultural, é um sintoma de nosso tempo, um tempo que, diante de suas próprias incertezas, volta a perguntar, com renovada intensidade, quem somos e por que fazemos o que fazemos.
Lúcio Rangel Ortiz, advogado, professor, escritor, graduado em Filosofia (UFSJ), em Pedagogia (UNIUBE) e pós-graduando em Psicanálise (ANHANGUERA). É pesquisador e colunista do Portal FNT – Intelecto Saber.


