Por Albino Bonomi – médico gineco-obstetra pela USP e escritor
O Dia das Mães é, tradicionalmente, uma data de celebração, reconhecimento e afeto. Mais do que homenagens, porém, é também uma oportunidade para refletirmos sobre o papel insubstituível da maternidade e sua influência na formação emocional dos filhos.
Ao longo da minha trajetória como pai — experiência que compartilho no livro Como criei filhos fortes e felizes — vivi situações que me fizeram compreender, de maneira ainda mais profunda, o valor e os limites desse papel. Após a separação da mãe dos meus dois filhos, eles passaram a conviver intensamente comigo, permanecendo sob minha responsabilidade nos fins de semana, férias e também em datas simbólicas — inclusive o próprio Dia das Mães.
Foi em uma dessas ocasiões que vivi um dos momentos mais marcantes da minha vida. Às vésperas da data, minha filha chegou em casa com uma rosa que havia recebido na escola para presentear sua mãe. Ao me entregar a flor, disse: “Para você, que tem sido nosso pai e nossa mãe”.
Aquela cena, carregada de amor e reconhecimento, me emocionou profundamente. Precisei fazer um grande esforço para conter as lágrimas. No entanto, ao mesmo tempo em que me senti tocado pelo gesto, tive plena consciência de que aquele reconhecimento não alterava uma verdade fundamental: eu jamais poderia ocupar o lugar de uma mãe.
É possível, sim, ser um pai presente, dedicado e até excepcional. É possível oferecer cuidado, proteção, orientação e amor em abundância. Mas a função materna possui características próprias, construídas não apenas pelo vínculo biológico, mas também pela dimensão emocional, simbólica e afetiva que representa na vida de um filho.
Quando essa presença se ausenta, ainda que haja esforço de outras figuras em suprir as necessidades da criança, existe uma lacuna que não deve ser ignorada. Não se trata de desmerecer quem assume responsabilidades adicionais, mas de reconhecer que cada papel dentro da estrutura familiar tem sua importância singular.
Neste Dia das Mães, minha reflexão vai além das homenagens. É um convite para que valorizemos não apenas o amor, mas também a presença e o compromisso. A maternidade não é apenas um título — é uma construção diária, feita de dedicação, renúncia e vínculo.
Que possamos, portanto, reconhecer e respeitar a importância dessa presença na vida de cada filho, compreendendo que, embora o amor possa assumir diferentes formas, há papéis que permanecem únicos em sua essência.



