
A Copa do Mundo de Futebol Masculino 2026 deveria ser apenas a celebração máxima do futebol. Entretanto, o torneio realizado majoritariamente nos Estados Unidos expôs uma antiga contradição da política internacional estadunidense: a capacidade de apresentar-se ao mundo como defensor da democracia, da liberdade e da integração entre os povos, enquanto mantém relações marcadas por sanções, bloqueios econômicos, intervenções e pressões diplomáticas contra países que desafiam seus interesses geopolíticos.
O futebol sempre foi vendido pela FIFA como instrumento de paz e aproximação entre nações. Contudo, a realização da Copa em território norte-americano ocorre em um momento de forte tensão que envolve Washington, especialmente com Irã, Cuba e Venezuela. A situação torna-se ainda mais emblemática quando se observa que atletas e delegações de países considerados adversários dos Estados Unidos enfrentam dificuldades diplomáticas e restrições que não afetam outras seleções. O caso iraniano é particularmente ilustrativo: a seleção disputa um Mundial sediado por um país com o qual vive um grave conflito político e militar, enfrentando inclusive dificuldades relacionadas a vistos e logística. E a FIFA que eliminou a Rússia por causa da guerra contra a Ucrânia, não teve a mesma atitude com Estados Unidos em relação ao Irã.
A incoerência torna-se evidente quando se compara a retórica internacional estadunidense com suas práticas. Ao longo das últimas décadas, Washington justificou sanções contra Cuba, Irã e Venezuela em nome da defesa dos direitos humanos e da democracia. Entretanto, organismos internacionais e especialistas das Nações Unidas já apontaram que sanções econômicas amplas frequentemente atingem principalmente a população civil, o que agrava crises humanitárias e sociais.
No caso cubano, a contradição é ainda mais visível. Enquanto Miami recebe partidas da Copa e milhares de turistas celebram a integração global promovida pelo esporte, Cuba enfrenta novas sanções e um endurecimento da pressão econômica por parte dos Estados Unidos. Analistas apontam que o evento esportivo ocorre simultaneamente a um período de forte tensão entre Washington e Havana, pois Cuba sofre crise humanitária por causa do embargo econômico imposto pelos estadunidenses, ou seja, o Governo Trump viola os direitos humanos com o endurecimento das sanções. Contudo, países como China, Rússia, México, Espanha, Canadá ainda mantêm relações comerciais com a ilha.
A Venezuela, por sua vez, também ocupa lugar central nessa discussão. Historicamente, a política externa dos Estados Unidos para a América Latina alternou momentos de cooperação e períodos de intervenção direta ou indireta. Desde o século XX, diversos governos latino-americanos acusam Washington de aplicar critérios seletivos quando o assunto é democracia, quando apoia governos alinhados aos seus interesses estratégicos e condenando com maior rigor aqueles que se afastam de sua esfera de influência.
A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos em janeiro de 2026 desencadeou uma forte controvérsia jurídica internacional, como constatado por diversos especialistas em Direito Internacional, além de autoridades da ONU e de vários governos, que sustentam que a operação violou princípios fundamentais da Carta das Nações Unidas, especialmente os princípios da soberania estatal, da não intervenção e da proibição do uso da força sem autorização do Conselho de Segurança da ONU ou legítima defesa comprovada.
Para muitos críticos, a ação do Governo Trump criou um precedente preocupante: como um país poderoso (por ser a maior economia do mundo) realizou uma operação militar em território estrangeiro, capturou um chefe de Estado em exercício e promoveu sua transferência para julgamento em seu próprio país, sem consentimento do governo venezuelano nem autorização internacional? Essa situação levou diversos juristas a afirmarem que os Estados Unidos violaram o Direito Internacional justamente ao adotar uma conduta que costumam condenar quando praticada por outras potências, o que expõe uma grande contradição entre seu discurso de defesa da ordem internacional baseada em regras e sua atuação no caso venezuelano.

A narrativa oficial da FIFA é a da integração continental, da cooperação internacional e da união dos povos por meio do futebol. Contudo, por trás do espetáculo, emergem contradições políticas, econômicas e diplomáticas que desafiam essa retórica.
A primeira delas envolve a própria FIFA. Desde 2022, a entidade mantém a exclusão da Rússia das competições internacionais em razão da invasão da Ucrânia. A seleção russa foi impedida de disputar as Eliminatórias e ficou fora da Copa de 2026, em uma decisão respaldada por FIFA e UEFA.
A questão que divide analistas e observadores internacionais não é necessariamente a condenação da guerra, mas a aparente seletividade da FIFA. Críticos apontam que a entidade agiu com rapidez inédita contra a Rússia, enquanto demonstra critérios diferentes diante de outros conflitos armados e controvérsias geopolíticas envolvendo aliados estratégicos do Ocidente. Esse debate tem gerado questionamentos sobre a neutralidade política da organização e sobre a existência de padrões distintos para situações semelhantes.
Ao mesmo tempo, a Copa de 2026 evidencia outra assimetria: a relação entre os três países-sede. Embora o torneio seja oficialmente compartilhado entre Estados Unidos, Canadá e México, a distribuição efetiva do evento revela um claro protagonismo estadunidense. Dos 104 jogos da competição, 78 são realizados em território dos Estados Unidos. México e Canadá recebem apenas 13 partidas cada um. Além disso, as quartas de final, semifinais e a grande final acontecem em solo norte-americano.
Na prática, trata-se de uma Copa sediada pelos Estados Unidos com participação logística de Canadá e México. A estrutura econômica da competição também reflete essa desigualdade. Estimativas apontam que a maior parcela das receitas, investimentos, direitos de transmissão e ganhos indiretos concentra-se no mercado norte-americano.
No caso mexicano, a sensação de exclusão tem sido percebida inclusive entre torcedores locais. Muitos criticam o fato de um país profundamente identificado com a cultura do futebol receber uma fração reduzida do torneio. Há ainda reclamações sobre ingressos extremamente caros, restrições comerciais impostas pela FIFA e a percepção de que a Copa foi desenhada prioritariamente para atender interesses corporativos e televisivos dos Estados Unidos.
O Canadá enfrenta situação semelhante. Apesar de ser coanfitrião, sua participação permanece secundária em comparação ao peso político e econômico dos Estados Unidos. A própria cobertura internacional frequentemente apresenta a competição como uma Copa “americana”, relegando Canadá e México a papéis complementares.
Essa lógica reproduz, no campo esportivo, uma realidade já conhecida da geopolítica estadunidense. Os Estados Unidos exercem influência econômica, militar e diplomática muito superior a de seus vizinhos continentais. Assim, a Copa de 2026 reflete a mesma hierarquia observada em acordos comerciais, segurança continental e relações internacionais.

O futebol, que deveria funcionar como espaço de igualdade simbólica entre as nações, acaba ser disputado dentro de uma estrutura internacional profundamente desigual. A Rússia está ausente por razões políticas. O Irã participa em meio a tensões diplomáticas. México e Canadá aparecem como sócios menores de um projeto liderado pelos Estados Unidos. E a FIFA, que historicamente afirma não misturar esporte e política, vê-se cada vez mais envolvida em decisões que possuem inevitáveis implicações geopolíticas.
Assim, a Copa do Mundo de 2026, que talvez represente o paradoxo máximo do futebol contemporâneo, um torneio que celebra a universalidade do esporte, mas que na verdade expõe, a cada rodada, as desigualdades de poder que marcam o sistema internacional. A bola continua sendo a mesma para todos. O peso político dos países que a chutam, entretanto, está longe de ser igual.
O Brasil, embora mantenha relações diplomáticas e comerciais importantes com os Estados Unidos, também já experimentou momentos de tensão decorrentes dessa assimetria de poder. A relação bilateral costuma oscilar entre cooperação econômica e divergências sobre soberania, comércio internacional, meio ambiente e posicionamentos geopolíticos. Para muitos analistas latino-americanos, a política externa estadunidense continua tratando a região mais como área de influência estratégica do que como um conjunto de parceiros plenamente soberanos. Os Estados Unidos ameaçam o PIX do Brasil, o território brasileiro com pretensão de combater o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas e as eleições brasileiras deste ano de 2026, quando determinam aumentar tarifas aos produtos brasileiros por causa da visita de políticos oposicionistas em relação ao Governo Lula.
A Copa de 2026, portanto, vai além dos gramados. Ela oferece ao mundo uma vitrine das contradições contemporâneas. O mesmo país que organiza uma celebração global da diversidade e da convivência pacífica continua envolvido em disputas diplomáticas, sanções econômicas e confrontos geopolíticos com várias das nações que participam do torneio.
Talvez a maior lição desta Copa seja lembrar que o futebol possui uma força simbólica que a política frequentemente não consegue alcançar. Enquanto governos erguem barreiras, seleções entram em campo sob as mesmas regras. Enquanto diplomatas trocam acusações, torcedores de diferentes nacionalidades compartilham arquibancadas. A ironia é que o esporte, frequentemente tratado como entretenimento, ensina mais sobre convivência internacional do que muitas das potências que afirmam liderar a ordem mundial.
Em 2026, a bola continua a rolar. Mas, fora das quatro linhas, permanece a pergunta: até que ponto uma nação pode apresentar-se como anfitriã da integração global enquanto mantém políticas externas que aprofundam divisões e antagonismos internacionais? Essa é uma questão que a Copa não responde, mas certamente ajuda a evidenciar.

Enfim, a Copa do Mundo de 2026 talvez represente o paradoxo máximo do futebol contemporâneo: um torneio que celebra a universalidade do esporte, mas que expõe, a cada rodada, as desigualdades de poder que marcam o sistema internacional. A bola continua sendo a mesma para todos. O peso político dos países que a chutam, entretanto, está longe de ser igual.
Lúcio Rangel Ortiz, advogado, escritor, professor licenciado em Filosofia e Sociologia, pesquisador mestre em planejamento e análise de políticas (UNESP), MBA em gestão de projetos (USP) e colunista do Portal FNT – Intelecto Saber. Possui curso de extensão universitária em Negociações Internacionais pelo CAENI/USP e foi coordenador da comissão de Direito Aduaneiro e Negociações Internacionais pela OAB Franca (2019/2021).


