Olá a todos!
Escrevo esta carta para expressar minha indignação diante do que vem acontecendo, há alguns anos, com a minha profissão. Trata-se de uma realidade que poucas pessoas fora da área da educação percebem — e que, muitas vezes, mesmo sendo percebida, não é verbalizada por medo.
Apesar de ainda não ter idade avançada, sinto-me, de certo modo, um “professor antigo”. Essa sensação vem da comparação entre o passado e o presente. Quando escolhi essa profissão, ainda no século passado, via em meus professores dignidade e identidade. Não era necessário que dissessem que eram professores — isso era evidente em sua postura, em seu olhar. Foi essa admiração que me levou a seguir esse caminho: eu queria ser reconhecido, ouvido, respeitado.
Passados mais de 30 anos, o que observo nos olhos de muitos profissionais da educação é bem diferente. Em lugar da dignidade, percebo medo. A cada momento, surgem mudanças que colocam em risco o trabalho construído ao longo de anos, gerando insegurança. E o mais preocupante: muitas vezes não se pode falar sobre isso, sob o risco de ser rotulado, discriminado ou até mesmo perseguido.
Minha inquietação também tem raízes no passado, quando a formação escolar era estruturada em disciplinas bem definidas como História, Geografia, Filosofia, Sociologia, Português e Matemática. Cada professor era preparado especificamente para sua área de atuação, com formação acadêmica sólida e tempo adequado para desenvolver seu trabalho. Não havia o que hoje se chama de “metodologias ativas” ou “protagonismo do aluno” nos moldes atuais, mas havia clareza de papéis: professores e alunos conscientes de suas responsabilidades dentro do processo educativo.
A escola tinha significado. Havia uma compreensão clara do que era o ensino fundamental e o ensino médio. Quando um aluno enfrentava dificuldades, seus pais ao menos compreendiam o conteúdo envolvido. Hoje, muitos responsáveis sequer sabem o nome das disciplinas estudadas por seus filhos — não por desinteresse, mas pela constante e acelerada mudança que torna tudo confuso e, muitas vezes, sem sentido.
Atualmente, observa-se a redução da carga horária de disciplinas fundamentais como História, Geografia, Filosofia, Sociologia, Biologia, Matemática e Português — áreas consolidadas, com currículos bem definidos por documentos como a BNCC e a LDB. Em contrapartida, surgem novas disciplinas, como Projeto de Vida, Tecnologia, Programação e Oratória. Não sou contrário à inclusão dessas áreas; pelo contrário, reconheço sua importância. No entanto, questiono a forma como estão sendo implementadas: à custa da fragmentação e do enfraquecimento das disciplinas tradicionais.
Em outras áreas do conhecimento, como Direito, Medicina e Engenharia, novas demandas são incorporadas sem que se abandone o que é essencial. Por que na educação deve ser diferente? Acredito que o caminho mais adequado seria manter a estrutura curricular tradicional e agregar essas novas disciplinas como complementares, em horários alternativos ou atividades optativas, respeitando o interesse dos alunos.
Como professor de História, sei que o passado não representa atraso. A evolução não é linear, e nem toda mudança significa progresso. A educação atravessa uma crise profunda, marcada pela desvalorização do professor. Essa desvalorização começa quando se perde a identidade profissional. Hoje, fala-se em “professor de Ciências Humanas”, mas não conheço universidades que formem esse profissional de maneira específica. Conheço historiadores, geógrafos, sociólogos — cada qual com sua formação própria. Quando não se reconhece a especialização, abre-se espaço para a ideia de que “qualquer um serve”.
Façamos uma analogia: se você precisa de um cardiologista, pode até ser atendido por um clínico geral, mas terá o mesmo nível de diagnóstico e tratamento? Provavelmente ,não. Ainda assim, quando se trata da educação, essa lógica parece aceitável.
Essa situação é alarmante. Quando generalizamos, perdemos o foco no essencial. Quando tudo se torna “mais ou menos”, deixa de ter valor. Esse sentimento contribui diretamente para a evasão escolar, pois gera falta de pertencimento e de sentido — não apenas entre os alunos, mas em toda a comunidade escolar.
Quanto à remuneração, é de conhecimento público que os salários são baixos. No entanto, o que poucos sabem é o quanto a situação pode ser injusta. Após mais de 20 anos de carreira, recebo praticamente o mesmo que um professor recém-contratado. Normas como o Decreto nº 69.046, de 14 de novembro de 2024, não se traduziram, na prática, em evolução funcional para muitos profissionais, inclusive para mim.
Na chamada “nova carreira”, fui enquadrado como nível inicial (L1), desconsiderando décadas de trabalho, avaliações, progressões e direitos adquiridos. O que foi prometido como incorporação da trajetória profissional acabou, na prática, representando uma ruptura com o passado — como se eu estivesse recomeçando do zero.
Sempre fui um professor dedicado, buscando constante formação e atualização em minha área. No entanto, confesso que escrever esta carta me causa receio, diante do ambiente de vigilância e das possíveis represálias. Ainda assim, acredito que preciso me posicionar.
Sou, antes de tudo, um ser humano. Tenho limitações, mas também qualidades. Tenho uma filha pequena, que depende de mim, e me preocupa pensar em seu futuro em um mundo que parece não reconhecer o valor da educação e de seus profissionais.
Falo também na condição de representante de meus colegas, eleito como Conselheiro Regional da APEOESP, membro suplente da CIPA e criador de conteúdo no canal “Conta Que Eu Te Conto”. Sinto-me na obrigação de dar voz a essas inquietações.
Convido todos a refletirem sobre essas questões. E, se possível, a conhecerem meu trabalho, acompanhando o canal, comentando e contribuindo para ampliar esse debate.
Atenciosamente,

Professor Rogério Monteiro


