
(Fonte da Imagem: https://www.colegioimperatriz.net.br/noticia/319/altas-habilidades-no-espaco-escolar)
Nos últimos meses, a internet brasileira passou a discutir com intensidade um tema que durante décadas permaneceu praticamente invisível nas salas de aula: as Altas Habilidades e Superdotação (AH/SD). O diagnóstico público de figuras mediáticas e a circulação de conteúdos sobre inteligência elevada nas redes sociais trouxeram para o debate algo que a escola brasileira ainda enfrenta com grande dificuldade: compreender que a inteligência muito acima da média não é apenas um talento confortável, mas uma forma de neurodivergência que exige acompanhamento pedagógico e, muitas vezes, clínico especializado.
O imaginário popular costuma associar superdotação a boletins perfeitos, medalhas em olimpíadas escolares ou alunos que “sabem tudo”, fora os casos das crianças gênios que aparecem nos programas de TV, demonstrando uma capacidade fora do comum. Contudo, a realidade descrita pela neuropsicologia é bem mais complexa. O cérebro com altas habilidades não funciona apenas de forma mais rápida, ele opera em uma espécie de hiperconectividade cognitiva, ou seja, o que combina raciocínio analítico intenso com uma sensibilidade emocional igualmente profunda. É uma combinação paradoxal: potência intelectual acompanhada de elevada vulnerabilidade psicológica.
Nesse cenário, o maior problema não é a falta de capacidade desses estudantes, mas sua invisibilidade pedagógica. Embora a legislação brasileira reconheça os alunos com altas habilidades como público da Educação Especial, a prática escolar ainda reproduz uma lógica muito simplista: “ele aprende sozinho”. A consequência desse abandono intelectual é conhecida por professores atentos em relação a esses alunos: desmotivação, indisciplina, isolamento social e, em muitos casos, até fracasso escolar. O potencial existe, mas sem desafio e sem estímulo ele se transforma em frustração. Talvez, muitas pessoas têm essa condição e não sabem, precisam de atendimento psicológico e neurológico, talvez de psicoterapeutas e se quiserem, fazerem exames e testes em entidades especializadas como o MENSA (termo latino que significa “Bancada”, referências a reunião de grandes mentes) e outros como Intertel, Prometheus Society, ISI-S Society.
A teoria dos três anéis de Joseph Renzulli, referência internacional no estudo da superdotação, ajuda a entender esse fenômeno. Para o pesquisador, a superdotação surge da interação entre três fatores: habilidade acima da média, criatividade e comprometimento com a tarefa. Quando o ambiente escolar não oferece enriquecimento curricular, esses elementos não se articulam. O talento permanece latente, incapaz de se transformar em produção intelectual ou artística significativa.
A situação torna-se ainda mais delicada quando surge a chamada dupla excepcionalidade, condição em que a alta habilidade convive com transtornos como TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) ou Transtorno do Espectro Autista (TEA). Nesses casos, a inteligência pode mascarar dificuldades, enquanto as dificuldades ocultam o talento. Assim, o estudante acaba preso em um limbo diagnóstico: não recebe apoio para sua condição clínica nem estímulos adequados para seu potencial intelectual.
É importante compreender que reconhecer a superdotação não significa criar uma elite escolar. Pelo contrário: trata-se de garantir o direito à diferença, princípio fundamental da educação inclusiva. Especialistas lembram que estudantes com altas habilidades costumam apresentar grande intensidade emocional e intelectual. O aluno que questiona constantemente o professor, que busca explicações mais profundas ou que demonstra inquietação diante de conteúdos superficiais não está necessariamente sendo arrogante. Muitas vezes ele apenas responde a uma necessidade genuína de compreender a complexidade do mundo.
A recente discussão pública também foi impulsionada por reportagens que mencionam figuras conhecidas associadas a altas capacidades cognitivas. O humorista Whindersson Nunes, por exemplo, já comentou em entrevistas ter obtido resultado de QI elevado em testes cognitivos quando procurava saber sobre seu problema neurológico, psicológico e psiquiátrico, em plena vida adulta, o que reacendeu debates sobre inteligência e saúde mental, especialmente após o próprio artista falar abertamente sobre depressão e ansiedade.
Outro caso frequentemente citado é o do humorista e escritor (já falecido) Jô Soares, reconhecido por sua impressionante erudição e versatilidade intelectual. Jô transitou entre teatro, literatura, televisão e jornalismo cultural com rara facilidade, tornando-se um dos maiores entrevistadores da história da televisão brasileira, além de ser poliglota em seis idiomas.
No campo musical, o cantor Roger Moreira, vocalista da banda Ultraje a Rigor, é citado como membro da Mensa International, sociedade internacional que reúne pessoas com desempenho cognitivo no percentil mais alto da população. Embora a Mensa não divulgue publicamente os QIs específicos de seus membros, a própria filiação já indica desempenho intelectual significativamente elevado.
Entre os nomes mais frequentemente mencionados em rankings de alto QI, no Brasil, com pontuação 188, está o pesquisador brasileiro Pós-Doutor em Neurociências Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, associado a diversas sociedades internacionais de alto QI e a pesquisas na área de neurociência e inteligência. Sua presença em instituições científicas e grupos especializados contribuiu para popularizar discussões sobre inteligência excepcional no Brasil. Fabiano tem graduações em Filosofia, História e Biologia e mestrado em Psicologia, e tem repercutido a questão dos testes de inteligência, com atenção e critério sobre validade e credibilidade, por ser algo ainda polêmico e inconclusivo pela comunidade científica.
No mundo, destacam-se hoje: Young-Hoon Kim, sulcoreano naturalizado alemão, com QI de pontuação 276, que é fundador e CEO da empresa NeuroStory, especializada em saúde cerebral digital e presidente da United Sigma Intelligence Association (USIA), organização internacional que promove pesquisa e cooperação entre intelectuais; Terence Tao, australiano naturalizado estadunidense descendente de chines, com QI de pontuação 230, que é matemático e professor Doutor universitário da University of California (Los Angeles); e Marylin Vos Savant, estadunidense com QI de pontuação 228, que é Filósofa, escritora e colunista da revista Parade, na qual responde a perguntas de seus leitores sobre matemática e ciência avançada.
Na história da humanidade, foram considerados gênios (superdotados) por incríveis contribuições para a ciência e a arte: Albert Eistein, Leonardo da Vinci, Goethe, Stephen Hawking, Isaac Newton, Marie Curie, Willian Shakespeare e Willian James Sidis (este considerado o maior QI da história com pontuação 300, doutor em matemática, poliglota de 9 idiomas, professor universitário, escreveu livros sobre matemática, física, química, psicologia, cosmologia, história, política e economia e fundou uma visão filosófica política denominada Socialismo Libertário). Há de considerar, também, que bilionários famosos como Bill Gates e Elon Musk (o homem mais rico do mundo) são superdotados em áreas de negócios, economia, tecnologia e cálculos matemáticos.
Esses exemplos ajudam a ilustrar um ponto fundamental: altas habilidades não seguem um único padrão de manifestação. Elas podem aparecer na arte, na ciência, na comunicação, na liderança ou em combinações complexas dessas áreas. O talento humano é diverso e a escola precisa reconhecer essa diversidade.
O problema é que o sistema educacional brasileiro ainda está longe de oferecer respostas adequadas. O Atendimento Educacional Especializado (AEE), previsto nas políticas de inclusão, muitas vezes concentra-se apenas na remediação de dificuldades. Para estudantes com altas habilidades, contudo, o desafio é o oposto: oferecer expansão cognitiva, aprofundamento e oportunidades de investigação intelectual.
Ignorar essas mentes é desperdiçar potencial humano. Em uma sociedade baseada no conhecimento, isso representa também uma perda social e econômica significativa. Reconhecer, acolher e desafiar esses estudantes é mais do que uma questão pedagógica, é uma escolha civilizatória.
A escola do século XXI precisa compreender algo fundamental: inclusão não significa apenas garantir acesso, mas criar condições reais para que cada estudante desenvolva plenamente suas capacidades. Entre aqueles que enfrentam dificuldades de aprendizagem e aqueles que enxergam além da curva, existe um universo de singularidades que a educação ainda precisa aprender a enxergar.
E talvez o primeiro passo para isso seja justamente tornar visível aquilo que, durante muito tempo, permaneceu invisível dentro da própria sala de aula.

(Fonte da imagem: https://ppgecpan.ufms.br/jeanny-monteiro-urquiza-representacoes-sociais-sobre-altas-habilidades-superdotacao-o-que-pensam-os-professores-da-educacao-infantil/)
Conforme artigo 4º, inciso III da Lei Federal nº 9394/1996 prescreve o seguinte:
“III – atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, transversal a todos os níveis, etapas e modalidades, preferencialmente na rede regular de ensino;”
É o que se garante, por lei, que crianças, adolescentes, jovens e até adultos de altas habilidades e superdotação precisam de atendimento educacional especializado num estabelecimento de ensino oficial, ou seja, público na rede regular de ensino, em contraturno, com sala de recursos, enriquecimento curricular e aceleração de estudos. Contudo, falta professores especializados para lhe darem com este tipo específico de educação e há necessidade de uma lei federal para oferecer sistema educacional padrão para o referido atendimento. E o reconhecimento precoce é muito importante a fim de desenvolver essas crianças com suas multipotencialidades. Mas, jovens e adultos também podem ser diagnosticados e atendidos.
Na cidade de Franca, houve o Projeto de Lei nº 87/2025, de autoria do vereador Walker Bombeiro, que propõe o Programa Municipal de Atenção Integral às Pessoas com Superdotação com pontos de Programação Municipal de Diretrizes para identificação, apoio e atendimento educacional especializado, valorização e conscientização, apontado 10 de agosto como Dia do Superdotado (seguindo padrão internacional), educação inclusiva em ambiente escolar com suporte e acolhimento. Tal projeto é louvável e considerável para poder atender crianças com essa condição de Altas Habilidades e Superdotação.
Lúcio Rangel Ortiz – coordenador pedagógico, professor mestre em Planejamento e Análise de Políticas Públicas (UNESP), MBA em gestão de projetos (USP), pós-graduado em direito e processo civil (TOLEDO), gestão pública (UFSCar), ensino de sociologia (UFSJ), direito público, direito digital e LGPD (LEGALE), graduado em Filosofia e Administração Pública (UFSJ), processamento de dados (FATEC), direito (UNOESTE), pedagogia (UNIUBE), sociologia (Uni-FAVENI), matemática (UNAR) e teologia livre (FAINTE). É, também, escritor, pesquisador e colunista do Portal FNT – Intelecto Saber.


