Há pouco mais de dez anos, a saúde pública de Franca estampava manchetes nacionais por um dos episódios mais marcantes de sua história administrativa: a atuação de médicos sem formação nos prontos-socorros municipais através de contratos terceirizados firmados pela prefeitura. Hoje, a mesma cidade presencia a inauguração do Hospital Regional Três Colinas – Dom Diógenes da Silva Matthes, uma das maiores estruturas hospitalares públicas do interior paulista.
A comparação entre esses dois momentos não é apenas simbólica. Ela revela a distância entre uma política pública marcada por improvisos e anseio de solução, fragilidades de fiscalização e sucessivas crises administrativas, e outra construída por articulação institucional, planejamento regional e investimentos estruturantes, configurando um amadurecimento da gestão.
Em 2015, Franca vivia um cenário que beirava o inacreditável. Investigações apontaram que pessoas comuns utilizaram as credenciais de médicos de outras cidades para atuar nos prontos-socorros municipais, devido à falta de fiscalização da empresa terceirizada contratada para fornecimento dos profissionais de saúde, para atendimento nas unidades de urgência e emergência.
A situação gerou repercussão estadual e nacional. O Ministério Público ingressou com ações judiciais para bloqueio de recursos e ressarcimento aos cofres públicos. A Justiça determinou o bloqueio de bens do instituto e a suspensão de pagamentos, diante dos indícios de prejuízo ao erário. Essa crise tornou-se um retrato da fragilidade estrutural da saúde pública daquele período. Um município polo regional, responsável por atender dezenas de cidades, tentava suprir demandas crescentes por meio de soluções emergenciais, contratos precários e estruturas já insuficientes para a realidade populacional da época.
Dez anos depois, Franca presencia um marco histórico aguardado por gerações.
A inauguração do Hospital Regional Três Colinas representa uma conquista construída ao longo de décadas por lideranças políticas, entidades civis, profissionais da saúde e representantes regionais que insistiram na necessidade de um hospital estadual para atender a macrorregião.

É importante reconhecer que essa não é uma obra de autoria individual, embora se discuta a paternidade da obra. O fato é que, administrativamente, os donos das canetas foram Tarcísio de Freitas e Alexandre Ferreira, que poderiam ter aniquilado o projeto como já aconteceu em outras gestões.
Diversos candidatos prometeram esse hospital em campanhas eleitorais ao longo dos anos. Muitos utilizaram a pauta como bandeira política. Poucos conseguiram efetivamente transformá-la em realidade.
A concretização do projeto só ocorreu através de uma construção tripartite que merece registro histórico. O Governo do Estado de São Paulo assumiu a execução da obra e os investimentos estruturais, sob a gestão do governador Tarcísio de Freitas. O empreendimento recebeu investimentos superiores a R$ 186 milhões. O Governo Federal garantiu o custeio operacional da unidade por meio de pactuações que contaram com articulação política do deputado federal Baleia Rossi, a quem muito critiquei pela promessa do hospital, com receio que fosse mais um político forasteiro em busca de votos no interior, mas hoje dedico meu respeito e gratidão.
O município, na pessoa do prefeito Alexandre Ferreira, realizou a cessão da área para construção, além de atuar na interlocução institucional necessária para que Estado e União caminhassem na mesma direção. Talvez essa seja a maior lição da inauguração do Hospital Regional: obras estruturantes não nascem da polarização. Nascem da cooperação.
O novo hospital inicia suas atividades com 115 leitos em funcionamento, com previsão de expansão para cerca de 225 leitos ainda neste ano. A unidade contará com leitos clínicos, cirúrgicos, psiquiátricos, UTIs adulta, pediátrica e neonatal, além de especialidades como cardiologia, ortopedia, oftalmologia, urologia, pediatria e clínica médica. O atendimento beneficiará diretamente pacientes de 22 municípios da região.
Não se trata apenas de um prédio novo. Trata-se de desafogar a Santa Casa, reduzir filas de regulação, ampliar a oferta de média e alta complexidade e oferecer respostas mais rápidas para uma região que há anos convive com a escassez de vagas hospitalares.
E talvez exista uma reflexão ainda mais profunda. Uma cidade que há dez anos era notícia por falsos médicos hoje é notícia pela inauguração de um hospital regional de referência. Isso não significa que os problemas da saúde pública tenham acabado. As filas continuam existindo. A judicialização cresce. A demanda supera a oferta em diversas áreas. Os desafios permanecem gigantescos.
Mas a diferença é que, desta vez, Franca não está discutindo apenas como apagar incêndios. Está discutindo como construir futuro.
E, para uma cidade que já perdeu a confiança na saúde pública, receber tamanho presente de nossos gestores, talvez seja a maior conquista de todas.
Sociedade Organizada
Jornalista Marcela Barros
Fundadora da Sociedade Organizada
Advogada especializada em Direito Público
Membro da Comissão de Direito Eleitoral da OAB/SP
Membro da Comissão de Direito Administrativo da OAB/SP
Membro da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente da OAB/SP
Membro da Comissão de Direito Eleitoral da OAB/SP
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