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    Sociedade Organizada

    Entre a crise na saúde e o Hospital Regional: uma década que transformou Franca

    Marcela Barros Repórter no FatoBy Marcela Barros Repórter no Fato30 de maio de 2026Updated:30 de maio de 2026

    Há pouco mais de dez anos, a saúde pública de Franca estampava manchetes nacionais por um dos episódios mais marcantes de sua história administrativa: a atuação de médicos sem formação nos prontos-socorros municipais através de contratos terceirizados firmados pela prefeitura. Hoje, a mesma cidade presencia a inauguração do Hospital Regional Três Colinas – Dom Diógenes da Silva Matthes, uma das maiores estruturas hospitalares públicas do interior paulista.

    A comparação entre esses dois momentos não é apenas simbólica. Ela revela a distância entre uma política pública marcada por improvisos e anseio de solução, fragilidades de fiscalização e sucessivas crises administrativas, e outra construída por articulação institucional, planejamento regional e investimentos estruturantes, configurando um amadurecimento da gestão. 

    Em 2015, Franca vivia um cenário que beirava o inacreditável. Investigações apontaram que pessoas comuns utilizaram as credenciais de médicos de outras cidades para atuar nos prontos-socorros municipais, devido à falta de fiscalização da empresa terceirizada contratada para fornecimento dos profissionais de saúde, para atendimento nas unidades de urgência e emergência.

    A situação gerou repercussão estadual e nacional. O Ministério Público ingressou com ações judiciais para bloqueio de recursos e ressarcimento aos cofres públicos. A Justiça determinou o bloqueio de bens do instituto e a suspensão de pagamentos, diante dos indícios de prejuízo ao erário. Essa crise tornou-se um retrato da fragilidade estrutural da saúde pública daquele período. Um município polo regional, responsável por atender dezenas de cidades, tentava suprir demandas crescentes por meio de soluções emergenciais, contratos precários e estruturas já insuficientes para a realidade populacional da época. 

    Dez anos depois, Franca presencia um marco histórico aguardado por gerações.

    A inauguração do Hospital Regional Três Colinas representa uma conquista construída ao longo de décadas por lideranças políticas, entidades civis, profissionais da saúde e representantes regionais que insistiram na necessidade de um hospital estadual para atender a macrorregião. 

    É importante reconhecer que essa não é uma obra de autoria individual, embora se discuta a paternidade da obra. O fato é que, administrativamente, os donos das canetas foram Tarcísio de Freitas e Alexandre Ferreira, que poderiam ter aniquilado o projeto como já aconteceu em outras gestões. 

    Diversos candidatos prometeram esse hospital em campanhas eleitorais ao longo dos anos. Muitos utilizaram a pauta como bandeira política. Poucos conseguiram efetivamente transformá-la em realidade.

    A concretização do projeto só ocorreu através de uma construção tripartite que merece registro histórico. O Governo do Estado de São Paulo assumiu a execução da obra e os investimentos estruturais, sob a gestão do governador Tarcísio de Freitas. O empreendimento recebeu investimentos superiores a R$ 186 milhões. O Governo Federal garantiu o custeio operacional da unidade por meio de pactuações que contaram com articulação política do deputado federal Baleia Rossi, a quem muito critiquei pela promessa do hospital, com receio que fosse mais um político forasteiro em busca de votos no interior, mas hoje dedico meu respeito e gratidão.

    O município, na pessoa do prefeito Alexandre Ferreira, realizou a cessão da área para construção, além de atuar na interlocução institucional necessária para que Estado e União caminhassem na mesma direção. Talvez essa seja a maior lição da inauguração do Hospital Regional: obras estruturantes não nascem da polarização. Nascem da cooperação. 

    O novo hospital inicia suas atividades com 115 leitos em funcionamento, com previsão de expansão para cerca de 225 leitos ainda neste ano. A unidade contará com leitos clínicos, cirúrgicos, psiquiátricos, UTIs adulta, pediátrica e neonatal, além de especialidades como cardiologia, ortopedia, oftalmologia, urologia, pediatria e clínica médica. O atendimento beneficiará diretamente pacientes de 22 municípios da região. 

    Não se trata apenas de um prédio novo. Trata-se de desafogar a Santa Casa, reduzir filas de regulação, ampliar a oferta de média e alta complexidade e oferecer respostas mais rápidas para uma região que há anos convive com a escassez de vagas hospitalares.

    E talvez exista uma reflexão ainda mais profunda. Uma cidade que há dez anos era notícia por falsos médicos hoje é notícia pela inauguração de um hospital regional de referência. Isso não significa que os problemas da saúde pública tenham acabado. As filas continuam existindo. A judicialização cresce. A demanda supera a oferta em diversas áreas. Os desafios permanecem gigantescos, mas como disse o atual prefeito Alexandre Ferreira no evento de inauguração do Hospital: ele cumpriu seu propósito.

    Mas a diferença é que, desta vez, Franca não está discutindo apenas como apagar incêndios. Está discutindo como construir futuro.

    E, para uma cidade que já perdeu a confiança na saúde pública, receber tamanho presente de nossos gestores, talvez seja a maior conquista de todas.

    Sociedade Organizada 

    Jornalista Marcela Barros 

    Fundadora da Sociedade Organizada

    Advogada especializada em Direito Público

    Membro da Comissão de Direito Eleitoral da OAB/SP

    Membro da Comissão de Direito Administrativo da OAB/SP

    Membro da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente da OAB/SP

    Membro da Comissão de Direito Eleitoral da OAB/SP

    * esta é uma coluna de opinião cujo conteúdo não reflete necessariamente o pensamento, posicionamento ou linha editorial deste meio de comunicação.

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