Há dez anos, falar em creche em Franca era quase uma conversa terapêutica. Mães aflitas, listas de espera intermináveis, obras paralisadas e uma sensação amarga de que a primeira infância sempre ficaria para depois.
Em 2016, o município vivia uma de suas maiores crises educacionais. Cerca de seis obras de creches permaneciam paradas, consequência da interrupção de repasses federais e problemas envolvendo empresas responsáveis pelas construções. Enquanto o concreto secava sob o sol e os tapumes envelheciam, quase quatro mil crianças aguardavam por uma vaga. Quatro mil famílias precisavam escolher entre o trabalho e os filhos. Quatro mil histórias de ansiedade, improviso e renúncia.
Naquela época, apenas 55% das crianças de 0 a 3 anos eram atendidas. O acesso às chamadas creches (berçário e maternal) estava longe de atender a demanda real do município.
Passados dez anos, a fotografia é outra. E é preciso reconhecer quando a política pública consegue fazer aquilo que muitos prometem e poucos entregam, que é transformar realidades.
Hoje, Franca atingiu 100% do atendimento às crianças de 4 e 5 anos, faixa etária de matrícula obrigatória. Quanto às crianças de 0 a 3 anos, a expansão da rede, aliada às parcerias com creches comunitárias e à ampliação das unidades municipais, praticamente zerou a demanda reprimida.
A fila de espera, que gira em torno de 500 crianças, não decorre mais da falta de vagas, mas, em grande parte, da preferência das famílias por determinadas unidades ou regiões da cidade. Uma diferença gigantesca quando comparada ao cenário de 2016. Não é exagero afirmar que Franca realizou uma verdadeira reconfiguração de sua política de educação infantil.

Se antes o município dependia fortemente de convênios e repasses a entidades assistenciais, hoje a rede se profissionalizou, expandiu sua capacidade e consolidou uma estrutura robusta. Atualmente, são cerca de 84 creches municipais e parceiras, atendendo mais de 11 mil crianças.
E aqui vale uma observação curiosa, durante muito tempo dizia-se que mulher não trabalhava porque queria ficar em casa com os filhos. Mas a realidade mostrava o contrário, muitas mães simplesmente não tinham com quem deixar suas crianças.
Não existe uma pesquisa estatística definitiva correlacionando o aumento da participação feminina no mercado de trabalho francano com a ampliação das vagas em creches na cidade. Mas há algo que o cotidiano revela sem necessidade de gráficos: quando a creche chega, a mãe pode voltar a sonhar profissionalmente. E isso também é política pública.
Talvez um dos capítulos mais emblemáticos dessa transformação seja justamente o fato de que o mesmo gestor que, em 2016, enfrentou um cenário de obras paralisadas e milhares de crianças na fila, hoje entrega uma rede praticamente universalizada. O prefeito Alexandre Ferreira viu as duas faces da mesma moeda: a escassez e a abundância de oportunidades.
A mais recente demonstração desse salto é a inauguração da Creche Escola “Paulo Roberto Verzola”, no Jardim Zanetti. Mas chamá-la apenas de creche talvez seja pouco.
A unidade foi concebida sob um conceito pedagógico contemporâneo, inspirado em experiências de excelência, incluindo referências a modelos internacionais, como o modelo pedagógico da Finlândia. Salas de aula menos tradicionais, ambientes que estimulam a autonomia, espaços de exploração, inclusão e aprendizagem heterogênea.
Há quem ainda imagine a educação infantil como uma sala cheia de mesinhas coloridas e desenhos nas paredes. A nova arquitetura pedagógica vai muito além.

Banheiros adaptados, refeitórios adequados ao tamanho das crianças, salas multiuso, acessibilidade integral, ergonomia pensada para a primeira infância e espaços que estimulam o desenvolvimento motor, cognitivo e socioemocional. As novas unidades seguem o padrão Tipo 1 do FNDE, considerado referência em infraestrutura para a educação infantil no Brasil.
Mais do que prédios bonitos, são ambientes planejados para ensinar. E os resultados começam a aparecer.
Franca vem se consolidando como um polo de excelência educacional no interior paulista. A Secretaria Municipal de Educação coleciona reconhecimentos importantes, entre eles o Prêmio Excelência Educacional, concedido pelo Governo do Estado de São Paulo em razão do desempenho das escolas nas metas de alfabetização aferidas pelo SARESP.
Treze EMEBs foram premiadas pelo Programa Alfabetiza Juntos-SP, reconhecimento que leva em consideração não apenas resultados acadêmicos, mas também a evolução pedagógica, o grau de complexidade das unidades e o impacto positivo em regiões socialmente vulneráveis.
Há ainda iniciativas genuinamente francanas que merecem atenção. O Projeto Escalada, por exemplo, acompanha de perto a curva de aprendizado das crianças, promovendo intervenções pedagógicas rápidas para consolidar competências essenciais de linguagem e raciocínio lógico antes do encerramento da primeira infância.
É a pedagogia da prevenção, corrigir pequenas dificuldades antes que se transformem em grandes obstáculos. Num país acostumado a remediar, prevenir já é quase revolucionário.
É claro que desafios permanecem. Educação é uma obra sem inauguração definitiva. Sempre haverá o que aprimorar: formação continuada, ampliação de equipes, inovação tecnológica e fortalecimento da inclusão. Mas a honestidade intelectual exige reconhecer aquilo que os números revelam.
Franca saiu de uma crise histórica, marcada por obras abandonadas e filas angustiantes, para uma rede que se aproxima da universalização do atendimento e investe em modelos pedagógicos que dialogam com as melhores práticas mundiais.
Se em 2016 as mães olhavam para as creches e enxergavam incerteza, em 2026 elas podem enxergar esperança. E talvez esta seja a maior lição da educação: ela não transforma apenas crianças. Ela transforma cidades inteiras.
E Franca, ao que tudo indica, decidiu aprender essa lição.
Sociedade Organizada
Jornalista Marcela Barros
Fundadora da Sociedade Organizada
Presidente da UDECIF
Advogada especializada em Direito Público
Membro da Comissão de Direito Administrativo da OAB/SP
Membro da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente da OAB/SP
Membro da Comissão de Direito Eleitoral da OAB/SP
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