O debate sobre a expansão urbana e o zoneamento da Macrozona do Rio Canoas ganhou os holofotes esta semana em Franca, mas a pergunta que não quer calar é:
quem realmente está escrevendo o futuro da nossa cidade?
Enquanto o Projeto de Lei Complementar nº 11/2026 tramita na Câmara Municipal, o que se vê nos bastidores é um esforço silencioso e preocupante para fatiar normas ambientais, flexibilizar multas e presentear o setor imobiliário com benefícios fiscais à custa do erário público e da segurança climática dos cidadãos francanos.
A audiência pública realizada esta semana para discutir o tema foi um verdadeiro “raio X” das prioridades políticas locais. Dos 15 vereadores que compõem a Casa, apenas 5 deram o ar da graça, e somente 3 resistiram até o fim do debate.
Parabéns à Vereadora Marília Martins (PSOL) pela iniciativa firme de aprofundar a discussão e conduzir a audiência, ao Vereador Gilson Pelizaro (PT) pelo incentivo e apoio constante ao debate público, e ao vereador Marcelo Tidy (MDB) por ouvir todas as colocações, respeitando a democracia. A atuação deles contrasta duramente com a apatia generalizada do restante do plenário.
Enquanto cidadãos, trabalhadores e representantes da sociedade civil, como a UDECIF e a Juventude pelo Clima permaneciam firmes após um dia inteiro de trabalho, debatendo o futuro ecológico da bacia do Rio Canoas com base em estudos técnicos da UFSCAR, a negligência de representantes do legislativo era esfregada na cara da população. O vereador Leandro Patriota (PL), por exemplo, achou prudente sequer ouvir os munícipes na tribuna, retirando-se para os bastidores para um lanche, como se o cansaço e a fome fossem privilégios exclusivos de quem foge da responsabilidade legislativa.
A audiência também teve momentos de curiosa audácia corporativa. O representante dos construtores solicitou espaço para exibir um suposto filme educativo na tribuna, mas utilizou o tempo precioso para fazer uma propaganda institucional de empresa privada, o que é juridicamente vedado dentro da Casa de Leis.

Enquanto a administração municipal silencia o projeto original sofre pressões escancaradas de construtores e empreiteiros. Querem retirar a exigência da RAP (Relatório Ambiental Preliminar) sob a desculpa de “custo”, ignorando que a ausência de estudos técnicos transfere o prejuízo de futuros alagamentos para o bolso da população. Querem calcular multas apenas na área impactada (o famoso “fatiamento do dano”), flexibilizar taxas de fiscalização e reduzir áreas permeáveis, transformando a preservação ambiental em um mero obstáculo incômodo ao lucro rápido. A maioria dos vereadores francanos já demonstra clara tendência a votar a favor dessas empreiteiras, a exemplo de figuras públicas como Zezinho Cabeleireiro e Carlinhos Petrópolis.
O episódio serve de aviso prévio e doloroso. Se os candidatos desta eleição ignoram solenemente o bem-estar coletivo e o patrimônio ambiental de Franca, aqui na própria “terrinha” das Três Colinas, como agirão em São Paulo e Brasília, quando eleitos?
A facilidade com que o empresariado financia campanhas e dita votos na Câmara Municipal de Franca revela uma engrenagem perigosa. Se hoje o lobby imobiliário consegue esvaziar leis de proteção à bacia do Rio Canoas e esvaziar o plenário em troca de um “apetitoso hambúrguer” nos bastidores, amanhã teremos o reflexo exato dessa subserviência pelos políticos francanos nos altos poderes. Não se trata de votar no forasteiro, aquele que representa outras regiões, mas mudar estruturalmente a máquina engessada da política francana. Precisamos eliminar as ervas daninhas.
A UDECIF segue vigilante, exigindo transparência, a vinculação dos dados da UFSCAR e a estrita observância da lei. Afinal, o desenvolvimento inteligente valoriza o “ativo verde”, e não a especulação predatória. Fica a pergunta ao leitor: até quando o futuro de Franca continuará sendo decidido nos bastidores e à mesa de quem só enxerga lucro onde deveria haver cidadania?
Sociedade Organizada
Jornalista Marcela Barros
Fundadora da Sociedade Organizada
Advogada especializada em Direito Público
Membro da Comissão de Direito Administrativo da OAB/SP
Membro da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente da OAB/SP
Membro da Comissão de Direito Eleitoral da OAB/SP
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