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    Política

    Lula vence pela quarta vez e mobilização popular entra para a história da democracia brasileira

    Lucio RangelBy Lucio Rangel26 de outubro de 2026Updated:26 de outubro de 2026

    (Foto: Richard Silveira)

    O Brasil viveu, neste domingo, 25 de outubro de 2026, um dos capítulos mais marcantes de sua história política recente. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito para um quarto mandato presidencial, de 2027 a 2030, após vencer o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições. O resultado representa uma virada eleitoral histórica: depois de terminar a primeira etapa da disputa atrás do adversário, Lula conseguiu ampliar sua votação e consolidar uma maioria nas urnas, em uma campanha marcada pela polarização política, pela mobilização popular e pela intensa disputa nas redes sociais.

    Na totalização divulgada após o encerramento da votação, Lula obteve aproximadamente 64,3 milhões de votos, correspondentes a 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro recebeu cerca de 59,8 milhões, ou 48,21%. A diferença foi de aproximadamente 4,43 milhões de votos e 3,58 pontos percentuais. A vitória foi proclamada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, consolidando a eleição inédita de Lula para um quarto mandato presidencial pelo voto direto.

    O resultado não pode ser compreendido apenas pela disputa entre dois candidatos. A eleição revelou a capacidade de mobilização de diferentes setores da sociedade brasileira, a força da comunicação política digital e a importância das alianças construídas em torno de projetos distintos para o futuro do país. A campanha petista conseguiu transformar a disputa do segundo turno em uma convocação à participação política, buscando votos entre trabalhadores, estudantes, jovens, intelectuais, artistas, movimentos sociais e eleitores que defendem a manutenção e a ampliação das políticas públicas.

    (Imagem gerada por IA)

    O Exército de Lula e a força da comunicação digital

    Um dos destaques da campanha foi a atuação do deputado federal André Janones (REDE), associado à organização do chamado Exército de Lula, uma rede de mobilização digital que ganhou dimensão nacional durante o segundo turno. Por meio de grupos de WhatsApp, conteúdos compartilháveis, vídeos curtos, mensagens políticas e articulações nas redes sociais, a iniciativa buscou ampliar o alcance da campanha e estimular apoiadores a participar diretamente da disputa eleitoral.

    A experiência demonstrou a importância da comunicação descentralizada nas eleições contemporâneas. Em vez de depender exclusivamente dos pronunciamentos oficiais, dos programas eleitorais e dos grandes veículos de comunicação, a campanha passou a contar com milhares de pessoas atuando na circulação de mensagens e na defesa de suas posições políticas em grupos familiares, comunidades, ambientes de trabalho e plataformas digitais.

    Segundo informações divulgadas pela Agência Brasil durante a apuração, o grupo organizado em torno do Exército de Lula reuniu mais de 10 milhões de pessoas. A atuação de Janones ganhou relevância por ajudar a amplificar a presença digital da candidatura e a estimular a participação de apoiadores em uma disputa marcada pela rapidez da circulação das informações.

    A mobilização digital, contudo, não substituiu o trabalho político presencial. Sua força esteve justamente na combinação entre comunicação on-line, militância organizada, manifestações públicas e diálogo direto com eleitores. Em uma eleição acirrada, a capacidade de transformar simpatia política em participação efetiva tornou-se um componente importante da estratégia eleitoral.

    (Imagem gerada por IA)

    Artistas, intelectuais e personalidades ampliam o engajamento

    Outro elemento importante foi a participação de artistas, escritores, professores, pesquisadores, jornalistas e outras personalidades públicas no debate eleitoral. O engajamento digital, incluindo manifestações públicas de apoio a Lula e declarações de voto, ajudou a levar a discussão política a públicos que nem sempre acompanham diretamente a rotina dos partidos e das instituições.

    Entre artistas, intelectuais e influenciadores, destacam-se: Anitta, Ivete Sangalo, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Chico Buarque, Gilberto Gil, Jão, Serginho Groissman, Ana Paula Renault, Mel Maia, Marina Sena, Daniela Mercury, Zeca Pagodinho, Seu Jorge, Mano Brown, Xamã, Chico César, Jota Pê, Zélia Duncan, Luíza Sonza, Duda Beat, Glória Pires, Malu Mader, Sophie Charlotte, Wagner Moura, Caio Blat, Marieta Severo, Débora Falabella, Claudia Abreu, Betty Gofman, Leandra Leal, Camila Pitanga, Paulo Betti, Gregorio Duvivier, Bruno Gagliasso, Ludmila, Pablo Vitar, Fernando Morais, Mário Prata, Felipe Neto, entre tantos outros nomes e personalidades públicas conhecidas no Brasil.

    As manifestações de apoio de figuras conhecidas contribuíram para ampliar a visibilidade da campanha, estimular conversas sobre democracia, direitos sociais, educação, cultura e desenvolvimento econômico e incentivar a participação eleitoral. Ao lado das personalidades públicas, milhares de cidadãos comuns também utilizaram suas próprias redes para apresentar argumentos, compartilhar propostas e defender suas escolhas. A principal mensagem foi a defesa da democracia e da Constituição Federal.

    Esse movimento reafirmou o papel da cultura e da produção intelectual na vida democrática. Artistas e intelectuais não constituem um bloco homogêneo, e o campo cultural também abriga diferentes posições políticas. Ainda assim, a presença de apoiadores de Lula no ambiente digital foi um dos componentes da mobilização que marcou o segundo turno.

    Juventude nas ruas e mobilização popular em todo o país

    A campanha também foi marcada pela participação de estudantes universitários, secundaristas, jovens trabalhadores, integrantes de coletivos culturais e ambientais e militantes de diferentes movimentos sociais. Nas capitais, nas grandes cidades e em municípios médios e pequenos, a disputa eleitoral mobilizou organizações partidárias, grupos comunitários, lideranças locais e cidadãos interessados nos rumos do país.

    Entre os setores historicamente associados à mobilização progressista estiveram militantes do Partido dos Trabalhadores (PT), do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), da Rede Sustentabilidade (REDE), do Partido Verde (PV), do Partido Socialista Brasileiro (PSB), do Partido Democrático Trabalhista (PDT), do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), além de organizações independentes e coletivos de juventude.

    No campo social e sindical, organizações como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT), União Nacional dos Estudantes (UNE), União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Centro de Movimentos Populares (CMP), Frente Brasil Popular (FBP), entre outras entidades, integram a tradição de mobilização em torno de pautas como reforma agrária, valorização do trabalho, direitos sociais, educação pública e redução das desigualdades. A participação e o grau de envolvimento de cada organização, entretanto, variaram conforme suas decisões e articulações políticas.

    A disputa também envolveu lideranças e eleitores de partidos de centro e centro-direita, como MDB, PSD, NOVO, MISSÃO e PSDB, que, em diferentes localidades e circunstâncias, mantiveram posicionamentos próprios, mas estabeleceram alianças ou apoiaram alternativas distintas. A existência de apoios individuais e regionais não significa que todas essas legendas tenham integrado formalmente uma mesma coalizão nacional em favor de Lula.

    A amplitude das articulações políticas demonstrou que a eleição ultrapassou os limites tradicionais da militância partidária. O diálogo com setores democráticos de diferentes origens, a atuação de lideranças locais e a participação de eleitores sem filiação partidária foram elementos relevantes para a construção de maiorias eleitorais.

    Mais do que uma disputa nas redes, a campanha evidenciou a importância da presença política nos territórios, do contato direto com a população e da capacidade de transformar reivindicações sociais em propostas e compromissos públicos.

    Problemas no transporte e a extensão do horário de votação

    O domingo eleitoral também foi marcado por controvérsias relacionadas ao transporte público e às condições de acesso às seções eleitorais. Salvador e São Paulo estiveram entre as cidades que concentraram questionamentos sobre a disponibilidade de transporte, em um contexto de reclamações e dificuldades relatadas em diferentes localidades.

    A situação provocou preocupação com o direito de participação dos eleitores que dependiam de ônibus e de outros serviços de transporte coletivo para chegar aos locais de votação. Em uma eleição decidida por uma diferença de alguns milhões de votos, assegurar condições adequadas de deslocamento e acesso às urnas tornou-se uma questão de relevância democrática.

    Diante dos problemas registrados, houve pedidos relacionados à ampliação do horário de votação. O ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a extensão do horário até as 19 horas, em medida excepcional destinada a permitir que eleitores ainda aguardando atendimento pudessem votar. A decisão foi discutida no contexto institucional do TSE, presidido pelo ministro Kassio Nunes Marques e foi validada.

    É importante esclarecer que a medida não significou a reabertura indiscriminada de todas as urnas já encerradas. A extensão aplicou-se às seções que ainda não haviam concluído formalmente os procedimentos de encerramento, conforme as orientações estabelecidas para a votação. A decisão ocorreu em meio às manifestações das campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro sobre as dificuldades enfrentadas por eleitores.

    O episódio provocou questionamentos sobre a organização dos serviços públicos em dias eleitorais, a responsabilidade das autoridades pela garantia do transporte e a necessidade de regras claras para situações excepcionais. Também reforçou a importância da transparência na comunicação entre a Justiça Eleitoral, as campanhas e a população.

    A extensão do horário, por si só, não comprova favorecimento eleitoral nem permite concluir que tenha determinado o resultado. Uma avaliação dessa natureza exige evidências verificáveis, análise dos procedimentos adotados e respeito às competências das instituições responsáveis pela fiscalização do pleito.

    A virada no segundo turno e o significado do resultado

    A vitória de Lula teve um aspecto particularmente significativo: o presidente conseguiu reverter a desvantagem registrada no primeiro turno. Flávio Bolsonaro havia encerrado a primeira etapa com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. No segundo turno, o petista ampliou seu apoio e terminou à frente, em uma das disputas mais competitivas da história recente do país.

    A virada demonstra que o comportamento do eleitorado não é estático. Entre as duas etapas, campanhas intensificam a comunicação, alianças podem ser ampliadas, eleitores reavaliam propostas e a participação de diferentes segmentos sociais pode modificar o equilíbrio da disputa.

    A votação expressou a escolha soberana da maioria dos eleitores que depositaram votos válidos. Ao mesmo tempo, a diferença relativamente estreita mostra que o país permanece politicamente dividido, impondo ao próximo governo a necessidade de diálogo, negociação institucional e atenção às demandas de setores que não votaram na candidatura vencedora.

    A eleição também foi marcada por contestação política. Após o resultado, Flávio Bolsonaro questionou a legitimidade do processo e anunciou a intenção de pedir a anulação da votação, mas já houve entendimento jurídico do STF e TSE a respeito da questão.

    Os desafios do quarto mandato

    A vitória abre uma nova etapa política para Lula, mas também eleva as expectativas da sociedade. O mandato de 2027 a 2030 será marcado pela necessidade de responder a questões estruturais do país, entre elas a redução das desigualdades, a geração de empregos, a valorização dos salários, o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), a qualidade da educação pública, a segurança alimentar, a proteção ambiental e o aperfeiçoamento dos serviços públicos.

    Outro desafio será construir uma relação estável com o Congresso Nacional e com os governos estaduais e municipais, sem perder de vista os compromissos assumidos durante a campanha. A capacidade de converter apoio eleitoral em políticas públicas efetivas será um dos critérios centrais para avaliar o desempenho do novo governo.

    A juventude que participou do processo eleitoral também espera respostas concretas sobre acesso à universidade, ensino técnico, primeiro emprego, moradia, cultura, inclusão digital e perspectivas de futuro. Para os movimentos sociais e sindicais, a eleição representa uma oportunidade de apresentar reivindicações, mas também de cobrar resultados e acompanhar a implementação das políticas anunciadas.

    No plano democrático, será essencial preservar a liberdade de imprensa, a independência entre os Poderes, o respeito às instituições e o direito de oposição. Uma vitória eleitoral confere legitimidade para governar, mas não elimina a pluralidade política nem dispensa a prestação de contas à sociedade.

    (Imagem gerada por IA)

    Uma vitória eleitoral que exige responsabilidade histórica

    A reeleição de Lula para um quarto mandato presidencial pelo voto direto representa um acontecimento de grande relevância para a democracia brasileira. O resultado reúne a força de uma candidatura experiente, a mobilização de militantes e movimentos sociais, a atuação de redes digitais e a decisão de milhões de eleitores que optaram pela continuidade do projeto político liderado pelo Partido dos Trabalhadores.

    O papel do Exército de Lula, associado à atuação de André Janones, o engajamento de artistas e intelectuais, a participação de estudantes e jovens e a mobilização de organizações populares compõem um quadro político que merece ser analisado para além dos números finais das urnas. A eleição mostra como a política contemporânea se desenvolve simultaneamente nas ruas, nas comunidades, nos espaços institucionais e nas plataformas digitais.

    O novo mandato exigirá competência administrativa, compromisso com políticas públicas, responsabilidade fiscal, combate às desigualdades, diálogo democrático e respeito à diversidade.

    O desafio que se inicia em 2027 será transformar a vitória eleitoral em melhorias concretas na vida da população brasileira. A mobilização que conduziu Lula à Presidência precisará encontrar correspondência em resultados, participação social e capacidade de enfrentar os problemas reais do país.

    Na perspectiva da Coluna Intelecto Saber, a principal lição dessa eleição é que a democracia não se resume ao ato de votar: ela se constrói diariamente por meio da participação cidadã, da organização coletiva, da liberdade de expressão, do debate público e da cobrança permanente por justiça social e políticas públicas efetivas.

    Lúcio Rangel Ortiz, advogado, mestre em planejamento e análise de políticas públicas (UNESP), MBA em gestão de projetos (USP), pós-graduado em gestão pública (UFSCar) e em direito público (LEGALE), professor licenciado em Filosofia (UFSJ) e Sociologia (Uni-FAVENI), graduado em administração pública (UFSJ), gestor público educacional, pesquisador, escritor e colunista do Portal FNT – Intelecto Saber.

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