O Poder Judiciário brasileiro recebeu 40,9 milhões de processos novos em 2025, o maior volume da série histórica iniciada em 2009 e 1,4 milhão a mais que no ano anterior. Os números integram o relatório Justiça em Números 2026, apresentado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em 23 de junho de 2026, durante a 10ª Sessão Ordinária do órgão.
Mesmo diante da demanda recorde, os tribunais encerraram mais ações do que receberam. O Índice de Atendimento à Demanda chegou a 110,4%, ou seja, cerca de 110 processos foram baixados para cada 100 que ingressaram, e o acervo em tramitação recuou 4,3%, para 75,5 milhões de casos. A conciliação solucionou 11,2% dos processos no período, percentual que subiu para 38% na fase de conhecimento da Justiça do Trabalho.
O desempenho ocorre em um sistema quase inteiramente eletrônico: na edição anterior do levantamento, 99,4% dos casos novos já haviam sido ajuizados por via digital. Ainda assim, parte da rotina forense continua dependente de atuação presencial, sobretudo em comarcas distantes das sedes dos escritórios. É nesse espaço que opera o Correspondente Dinâmico, empresa de tecnologia jurídica que conecta contratantes a correspondentes em todo o país e soma 3,5 milhões de conexões e 240 mil profissionais.
Operação mais complexa nos escritórios
Para Priscila Pinheiro, advogada e CEO do Correspondente Dinâmico, o volume recorde se reflete diretamente na gestão de quem atua em várias cidades. "Esse volume se traduz em uma operação cada vez mais complexa para escritórios e departamentos jurídicos. Quanto maior o número de processos e de localidades atendidas, maior também é a necessidade de acompanhar prazos, audiências, diligências e procedimentos que acontecem simultaneamente em diferentes regiões", afirma.
A executiva observa que deslocar integrantes da própria equipe para cada demanda local nem sempre é viável. "É nesse cenário que a correspondência jurídica ganha relevância: o escritório pode contar com profissionais que já estão naquela região para executar determinadas atividades, sem precisar manter uma estrutura própria em cada cidade", explica.
O que ainda não migrou para o ambiente virtual
Gian Nunes, cofundador do Correspondente Dinâmico e especialista em tecnologia, aponta que a tramitação eletrônica não eliminou as etapas físicas. "Mesmo com a digitalização dos processos, ainda existem atividades que dependem de atuação local, como diligências em fóruns e cartórios, retirada ou entrega de documentos, obtenção de cópias e certidões, protocolos específicos, acompanhamento de procedimentos e outras situações que, dependendo do órgão ou da localidade, ainda exigem presença física", detalha. Segundo ele, isso acontece porque a digitalização não é uniforme e nem todos os atos e serviços foram completamente transferidos para o meio virtual.
O especialista acrescenta que a própria função do correspondente mudou. "Hoje, correspondentes não são contratados apenas para atividades presenciais: há demandas que podem ser executadas remotamente e também contratações para participação em audiências online, de acordo com a natureza do serviço e a habilitação exigida", diz.
Na avaliação de Priscila Pinheiro, a dificuldade surge sempre que o escritório precisa atuar longe de sua estrutura habitual, o que pode ocorrer em capitais ou no interior, mas tende a pesar mais nas cidades menores.
"Um exemplo é um escritório de São Paulo que precisa realizar uma diligência específica em um cartório ou órgão público de uma cidade distante. Enviar alguém da própria equipe envolve deslocamento, tempo e custos que podem ser desproporcionais à atividade. Um correspondente que já atua naquela localidade consegue executar o serviço localmente e reportar o resultado ao contratante", exemplifica.
Conciliação pede preparo prévio
O índice de acordos na Justiça do Trabalho também altera a dinâmica das audiências. "O fortalecimento da conciliação torna ainda mais importante a preparação para a audiência. O profissional precisa chegar conhecendo as informações essenciais do processo, os limites definidos pelo contratante e as possibilidades de negociação, porque uma audiência pode resultar em uma solução efetiva para o conflito naquele momento", avalia Gian Nunes.
De acordo com o cofundador, a responsabilidade dos correspondentes contratados para audiências presenciais ou online cresce na mesma medida, o que exige orientações prévias e comunicação eficiente com o escritório responsável.
Próximas etapas da Justiça digital
Para o especialista, o avanço tecnológico ainda tem lacunas a resolver. "O próximo desafio não é simplesmente transformar tudo em digital, mas tornar essa digitalização mais uniforme e integrada. Ainda existem diferenças entre sistemas, procedimentos e formas de atendimento, além de atividades que continuam dependendo de interação humana ou presença local", pondera Nunes.
A CEO projeta uma mudança no perfil desses profissionais. "Por isso, não acredito que a digitalização elimine o correspondente jurídico; ela tende a transformar seu trabalho. O correspondente deixa de ser apenas o profissional que se desloca fisicamente até um fórum e passa a atender uma combinação de demandas presenciais e digitais, incluindo diligências, procedimentos administrativos, atividades extrajudiciais e audiências online", enfatiza Priscila Pinheiro.
Os dados do CNJ mostram um Judiciário que nunca recebeu tantas ações e, ao mesmo tempo, conseguiu reduzir o estoque. A produtividade recorde, porém, ainda convive com atos que dependem de alguém no fórum, no cartório ou na sala de audiência, o que mantém as redes distribuídas de correspondentes como elo entre a tramitação digital e as demandas locais em diferentes comarcas.
Advogados interessados em atuar como correspondentes podem se cadastrar na plataforma.
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