Faltando poucos dias para o primeiro turno das Eleições 2026, marcado para 4 de outubro, política voltou a ocupar espaço privilegiado nas conversas, nas redes sociais e até nos encontros familiares. Junto com o debate sobre candidatos e propostas, porém, aparecem discussões capazes de afastar amigos, dividir famílias e transformar uma simples divergência de opinião em conflito pessoal.
Mas por que é tão difícil conversar sobre política sem brigar?
Para o médico obstetra e escritor Albino Bonomi, uma das explicações pode estar no fato de que nossas opiniões não surgem isoladamente. Elas são construídas ao longo da vida e recebem influência das experiências, relações, valores e ambientes pelos quais passamos.
“Quando alguém questiona uma opinião que consideramos muito importante, podemos interpretar aquilo não apenas como uma discordância, mas quase como um questionamento sobre quem somos. É nesse momento que uma conversa sobre ideias corre o risco de se transformar em um confronto pessoal”, afirma Bonomi.
Quando discordar parece uma ofensa
Em períodos eleitorais, esse fenômeno pode ficar ainda mais evidente. Discussões políticas chegam aos grupos de mensagens, às redes sociais, aos ambientes de trabalho e à mesa das famílias.
Segundo Bonomi, o problema não está na existência de opiniões diferentes. Divergências fazem parte das relações humanas. A dificuldade surge quando deixamos de discutir ideias e passamos a julgar a pessoa que pensa de maneira diferente.
“Podemos discordar profundamente de alguém e ainda assim reconhecer naquela pessoa um amigo, um irmão, um pai, uma mãe ou um colega. O problema começa quando reduzimos o outro exclusivamente à posição que ele defende. Nenhum ser humano pode ser resumido a uma única opinião”, observa.
Por que queremos convencer o outro?
Outro comportamento frequente nas discussões políticas é a tentativa permanente de convencer.
Para Bonomi, vale refletir sobre o que realmente buscamos quando entramos em determinadas discussões.
“Existe uma diferença entre conversar para compreender e conversar apenas para vencer. Se entro em um diálogo pensando somente em provar que estou certo, provavelmente deixarei de ouvir. E uma conversa em que ninguém está disposto a ouvir dificilmente termina com algum aprendizado”, diz.
O médico acrescenta que reconhecer a possibilidade de estar errado também faz parte do amadurecimento.
“Autoconhecimento exige que tenhamos coragem de questionar nossas próprias certezas. Isso não significa abandonar convicções ou concordar com tudo. Significa entender que podemos defender nossas ideias sem transformar quem pensa diferente em inimigo”, afirma.
Redes sociais ampliam o confronto
O ambiente digital adicionou uma nova dimensão às divergências. Publicações, vídeos, mensagens e opiniões circulam rapidamente e chegam às pessoas acompanhados de fortes reações emocionais.
Em períodos eleitorais, o cuidado também precisa envolver aquilo que é compartilhado. Antes de reagir imediatamente a uma publicação ou encaminhar uma informação, Bonomi defende que vale interromper o impulso e refletir.
“Nem tudo precisa de uma resposta imediata. Às vezes, alguns minutos de reflexão evitam uma discussão que poderia durar dias. Perguntar de onde veio aquela informação, se ela é verdadeira e por que ela provocou uma reação tão intensa em nós é um exercício importante”, considera.
Nossa história ajuda a explicar nossas escolhas
Essa relação entre experiências pessoais, formação emocional e comportamento está entre as reflexões presentes em O Ciclo Gestatório de um Homem, obra autobiográfica de Albino Bonomi.
No livro, o autor percorre diferentes momentos da existência, passando por infância, adolescência, casamento, separação, educação dos filhos, psicoterapia e busca pelo autoconhecimento.
Para Bonomi, compreender a própria trajetória também ajuda a entender por que determinadas questões despertam sentimentos tão intensos.
“Nós carregamos uma história. Nossas opiniões, medos, valores e maneiras de enxergar o mundo não apareceram de repente. Foram sendo construídos. Quando entendemos melhor nossa própria formação, podemos também desenvolver mais capacidade de compreender que o outro percorreu uma história diferente da nossa”, explica.
A eleição passa, as relações permanecem
Independentemente das escolhas feitas nas urnas, Bonomi chama a atenção para uma reflexão especialmente importante durante o período eleitoral: qual é o preço que estamos dispostos a pagar para provar que temos razão?
“Eleições são importantes e discutir os caminhos do país também é importante. Mas é preciso tomar cuidado para que uma divergência política não destrua relações construídas durante anos. Podemos defender aquilo em que acreditamos com firmeza e, ao mesmo tempo, preservar o respeito por quem pensa diferente”, afirma.
Para o escritor, talvez o grande exercício esteja em aprender a separar discordância de hostilidade.
“Ouvir não significa concordar. Respeitar também não significa abrir mão daquilo em que acreditamos. Significa apenas reconhecer que o outro tem uma história, experiências e razões que podem ser diferentes das nossas. Conviver com diferenças também faz parte do amadurecimento humano”, conclui Bonomi.
Sobre o livro
O Ciclo Gestatório de um Homem, de Albino Bonomi, é uma obra autobiográfica que percorre diferentes etapas da existência humana. A partir da própria trajetória, o autor aborda infância, adolescência, relações, casamento, educação dos filhos, psicoterapia e busca pelo autoconhecimento, propondo reflexões sobre como nossas experiências participam da formação da pessoa que nos tornamos.
Mais informações sobre o livro, acesse:
https://clubedeautores.com.br/livro/o-ciclo-gestatorio-de-um-homem



