Em tempos de abandono político crônico, é compreensível — e até louvável — que entidades, empresários, lideranças e organizações da sociedade civil tentem se unir em torno de uma pauta comum: fortalecer a representação política de Franca em Brasília e na Assembleia Legislativa de São Paulo. Afinal, uma cidade do porte econômico de Franca, referência nacional no setor calçadista, exportadora, polo universitário e regional em saúde e comércio, não pode continuar assistindo passivamente à ausência de representantes próprios na Câmara dos Deputados.

A mobilização de entidades francas em torno da campanha “Franca Tem Voz” surge com um discurso sedutor: a união da cidade para garantir representantes próprios na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa (ALESP). O argumento é pragmático — facilitar o envio de emendas parlamentares e abrir portas em Brasília e no Palácio dos Bandeirantes, ampliando articulações políticas e favorecendo a destinação de emendas parlamentares para hospitais, infraestrutura, mobilidade e educação.
No entanto, ao analisarmos as letras miúdas desse pacto de “organização social”, a democracia parece dar lugar a um cálculo de conveniência que ignora a realidade das urnas e as necessidades do povo. O problema começa quando determinados grupos passam a defender que Franca deveria apoiar apenas “candidaturas viáveis”. Viáveis para quem? Essa talvez seja a pergunta que ninguém quer responder.
Porque, convenhamos: em política, “viabilidade” costuma ser um conceito extremamente elástico — geralmente moldado conforme interesses econômicos, partidários e empresariais. Aliás, olhando friamente para as últimas eleições, o currículo recente dos chamados “viáveis” não parece exatamente um desfile de invencibilidade eleitoral. João Rocha (União Brasil), por exemplo, disputou a Prefeitura de Franca em 2024 e terminou derrotado, com 44.545 votos, diante dos 73.496 votos de Alexandre Ferreira. Flávia Lancha (PSD), recordista em tentativas, em 2020 chegou ao segundo turno para prefeita com 56.154 votos, mas perdeu. Em 2022, para federal, não conseguiu se eleger, apesar do vultoso investimento. O mesmo ocorre com Gilson de Souza (PSB), ex-prefeito e ex-deputado estadual, não conseguiu a reeleição em 2020, saindo do pleito com uma votação minguada (apenas 13.916 votos) e uma rejeição que ainda ecoa. Cristiany Castro (Republicanos), teve 24.576 votos para deputada federal em 2022, ficando longe de uma cadeira. O que o grupo chama de viável, o eleitor tem chamado de “derrota”.
Então, afinal, quem define a tal “viabilidade”? Os votos? As pesquisas? Os partidos? Ou os financiadores? Porque, se a régua for apenas “ter estrutura”, “ter apoio empresarial” e “transitar bem entre setores econômicos”, talvez estejamos falando menos de democracia e mais de um condomínio político fechado. A democracia pressupõe exatamente o contrário: pluralidade, renovação e liberdade do eleitor em avaliar novas lideranças. E talvez esteja justamente aí o maior erro de parte da elite política e econômica local: insistir nos mesmos personagens enquanto a população demonstra, eleição após eleição, profundo desgaste com a política tradicional.
Precisamos ser firmes: as instituições que compõem esse grupo não parecem preocupadas com o trabalhador que enfrenta o ônibus lotado às 6h da manhã ou que mofa na fila das UBSs. O histórico é claro: candidato que recebe a bênção (e o financiamento) do grande empresariado vota com o bolso deles. Votam por reajustes abusivos em planos de saúde, pela redução do rol de procedimentos da ANS e pelo desvio de recursos públicos para o “desenvolvimento empresarial” — o famoso eufemismo para o lobby das grandes empreiteiras e do setor imobiliário, enquanto o saneamento básico e a saúde popular ficam em segundo plano.
O verdadeiro vilão é o descrédito de certos representantes francanos. Se Franca quer realmente ter voz, precisa de cordas vocais novas e preparadas. É preciso olhar para quem atua nos bastidores com competência técnica e conhece a máquina pública por dentro, sem os vícios da “velha política”.
Temos nomes que emergem com currículos que pesam mais que os santinhos de campanha. Sugiro que nos próximos meses os eleitores comecem a olhar mais atentamente alguns perfis, como por exemplo, a professora Priscila Cintra e o administrador Guilherme Ubiali.
Priscila Cintra (PT) é pré-candidata a Deputada Estadual, é a voz de quem vive a “realidade da escola”. Com 20 anos de rede estadual, especialista em Educação Especial e Inclusiva, Priscila conhece cada gargalo da SEDUC. Sua liderança em movimentos sociais e domínio da legislação garantem uma atuação na ALESP que não será pautada por favores, mas por direitos fundamentais, como tem feito na luta contra o desmonte da educação inclusiva. Sua atuação na educação especial e inclusiva lhe conferiu reconhecimento técnico e político, especialmente pela capacidade de transformar burocracia normativa em soluções concretas para famílias e escolas. O trabalho de Priscila vem se destacando entre mães e famílias atípicas em todo o Estado, há alguns anos, principalmente pela sua articulação legislativa e mobilização social, coordenando grupos, audiências públicas e movimentos voltados à preservação de direitos na educação especial.
Guilherme Ubiali (PSDB), por sua vez, é pré-candidato a Deputado Federal, formado em Administração pela Fundação Getulio Vargas e mestre em Comportamento do Consumidor pelo Instituto de Empresas de Madrid, traz a bagagem de mestre pelo Instituto de Empresas de Madrid e acumula experiências em empresas como Claro, Vale, Johnson & Johnson, GSK e Haleon, além de atuação internacional em quatro países.
Hoje atua no setor de saúde, entende de gestão, articulação política e liderança moderna. É o perfil técnico necessário para transitar em Brasília com foco em inovação e transparência. voltado à articulação técnica e gestão moderna. Neoliberal, seu discurso se distancia da política performática e aposta em inovação, eficiência administrativa, desenvolvimento econômico e construção de soluções práticas para a cidade.
A renovação política nasce da combinação entre preparo, experiência, coragem e compromisso público. E talvez seja justamente isso que parte do eleitorado esteja procurando: menos celebridades eleitorais e mais gente capaz de compreender a complexidade da cidade real.
Eleitor francano, a mudança não virá de quem fez da derrota uma profissão. É hora de apoiar quem tem preparo, quem entende de administração pública e quem, acima de tudo, tem coragem de enfrentar as velhas oligarquias locais. A verdadeira “Franca Tem Voz” só existirá quando pararmos de repetir os mesmos erros e dermos passagem para a competência técnica e o compromisso real com o povo. Porque Franca não precisa apenas de voz.
Precisa, sobretudo, de representação com conteúdo, preparo e credibilidade.
Acorde, Franca. O futuro exige novas assinaturas.
Sociedade Organizada
Jornalista Marcela Barros
Fundadora da Sociedade Organizada
Advogada especializada em Direito Público
Membro da Comissão de Direito Administrativo da OAB/SP
Membro da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente da OAB/SP
Membro da Comissão de Direito Eleitoral da OAB/SP
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