Parece que o departamento de criação da Nike no Oregon resolveu que o Brasil é um experimento de laboratório para testar o limite da nossa paciência estética e cultural. Depois de tentarem nos convencer de que a Seleção deveria vestir vermelho (um flerte perigoso com a estética partidária que quase gerou uma guerra no Twitter/X brasileiro), decidiram que o nosso amado Canarinho não era “fashion” o suficiente.
A última peça publicitária da marca agradou os amantes do estilo gótico: o pássaro símbolo da nossa alegria futebolística, enjaulado, transforma-se em um corvo negro de olhos vermelhos. É uma metáfora poderosa, sem dúvida. Mas para qual finalidade exatamente? Para o estado de espírito do brasileiro médio diante do preço da picanha ou para o desejo da marca de enterrar de vez qualquer resquício de “país do futebol” em troca de uma estética de vilão?
Como se essa transformação não fosse estranha o suficiente, a camisa oficial para a Copa de 2026 foi o “tiro de misericórdia”, com o logo do Michael Jordan no peito. Nada contra o ídolo do basquete, mas certamente Pelé seria uma referência melhor, mundialmente conhecido. Em que pese a logo ser parte do grupo Nike, o brasileiro sentiu a ofensa americana ao nosso patrimônio futebolístico.
Mas o ápice do “brainstorming” corporativo foi a substituição do nome do nosso país por “Brasa”. Segundo a designer de moda, seria um termo jovem, vibrante, uma gíria… que se ouve nas ruas e nos estádios. Pareceu uma tentativa artificial de criar um jargão para “nichar” o produto, ignorando que a camisa da seleção é, por definição, um símbolo universal.
Para completar o pacote “Brasil para Exportação”, adicionaram faixas que fariam referência à capoeira. É o suco do exótico: pega-se um símbolo da resistência negra, joga-se num liquidificador com o marketing norte-americano e serve-se frio para uma torcida que só queria vestir seu símbolo histórico.
Aqui entramos no campo minado da nossa reflexão semanal. O que estamos assistindo não é apenas um erro de design; é o reflexo de uma sociedade tão fragmentada que os seus símbolos nacionais viraram “ativos de guerra”.
De um lado, tivemos a apropriação política ferrenha da amarelinha, transformando o uniforme esportivo em traje de manifestação. Do outro, vemos agora uma tentativa desesperada — e igualmente invasiva — de “desconstruir” essa narrativa. A Nike, percebendo o vácuo, não tenta pacificar; ela tenta lucrar com o caos. De um lado, a Direita que transformou a camisa em escudo de patriotismo seletivo. De outro, a marca, fomentada pela Esquerda Cultural, tenta derrubar essa apropriação oferecendo um “corvo” no lugar do pássaro, e o “Brasa” no lugar da nação.
O resultado? O desrespeito aos símbolos que deveriam nos unir. Quando o marketing se utiliza da polarização para gerar “engajamento negativo” (quando compartilhamos o conteúdo apenas para reclamar), ele está, na verdade, alimentando o fogo que consome a nossa identidade comum.
Qual polarização é pior? A que sequestra a camisa para um palanque político ou a que, sob o pretexto de modernidade e “ruptura”, apaga a nossa história e inventa uma cultura brasileira que não se reconhece no espelho?
A verdade é que, entre o verde-amarelo sagrado de uns e o corvo-gótico-basqueteiro de outros, o torcedor comum, ficou fora do jogo. Ou melhor, ficou sem “Brasa”. No fim das contas, a Nike pode até colocar o Jordan na camisa, mas quem continua tentando enterrar a bola somos nós, enquanto discutimos se o canarinho precisa de terapia ou de encarceramento.
Sociedade Organizada, por um Brasil que ainda se chame Brasil.
Jornalista Marcela Barros
Fundadora da Sociedade Organizada
Advogada especializada em Direito Público
Membro da Comissão de Direito Administrativo da OAB/SP
Membro da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente da OAB/SP
Membro da Comissão de Direito Eleitoral da OAB/SP
* esta é uma coluna de opinião cujo conteúdo não reflete necessariamente o pensamento, posicionamento ou linha editorial deste meio de comunicação.



