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O retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos tem gerado uma onda de inquietação no cenário geopolítico mundial, não apenas pelo estilo de confronto, mas pelas declarações e ações com potenciais impactos diretos sobre soberanias nacionais e estabilidade global.
Groenlândia e o Canal do Panamá: Soberania em Xeque
Inicialmente, Trump reafirmou, em recentes discursos, o interesse dos EUA em adquirir a Groenlândia, um território autônomo dinamarquês, argumentando que os Estados Unidos “precisam dela por razões de segurança” frente às influências da Rússia e da China — chegando a dizer que a aquisição ocorreria “do jeito que for necessário”. Essa postura foi veementemente rechaçada pela Dinamarca e pela própria Groenlândia, que afirmaram que o território não está à venda e criticaram qualquer tentativa de alteração territorial à força. Países europeus como Alemanha, França e instituições da União Europeia também defenderam que as fronteiras não devem ser alteradas por coerção. A ameaça de tomar Groelândia à força gera um desconforto e crise entre os países da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), algo inconcebível a situação em ameaçar países aliados históricos.
Em paralelo, Trump também fez comentários sobre o Canal do Panamá, mencionando que os EUA deveriam “reaver o controle” da via de navegação – construída historicamente pelos norte-americanos, mas atualmente sob plena administração panamenha. Tanto o governo panamenho quanto líderes internacionais rejeitaram essa pretensão, reafirmando a soberania panamenha sobre o canal.

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Novas Ambições Territoriais e Retórica com Canadá e Outros Países
Em diversas ocasiões, Trump provocou ao sugerir que o Canadá poderia se tornar o 51º estado americano — uma hipótese imediatamente rejeitada por líderes canadenses, que classificaram a ideia como inaceitável e improvável.
Além disso, após a intervenção militar no Venezuela, que resultou numa operação em que forças americanas capturaram o presidente Nicolás Maduro no início de 2026, a retórica de Trump incluiu ameaças a países vizinhos e críticas duras a nações como México e Colômbia, citando o combate ao narcotráfico e supostas falhas na segurança fronteiriça. Contudo, líderes desses países — como a presidente do México, Claudia Sheinbaum — enfatizaram o respeito à soberania nacional e descartaram qualquer intervenção militar unilateral. Fora que Trump também até ameaçou em fazer cair o governo de Cuba, ou seja, que poderia fazer a mesma operação na Venezuela ao seu país ilha vizinho.
Na verdade, analistas internacionais acreditam que Trump está fazendo várias ameaças pela mídia para esconder a crise econômica que os Estados Unidos estão enfrentando e que está diminuindo recursos para sua indústria bélica, tecnológica e demais produtos manufaturados, e que precisa, urgentemente, de mais matérias primas sob seu controle. A sua concorrente direta na área econômica, China, só cresce e se estabelece cada vez mais importante no mundo nas relações comerciais, o que incomoda os Estados Unidos.
E no caso da Venezuela, os Estados Unidos demonstram em manter o controle da produção e comercialização de petróleo, no caso, no maior país produtor do mundo, que fica na América do Sul.
Tarifas, Brasil e Tensões Comerciais
Trump também adotou uma postura comercial agressiva em relação a várias nações. Ele anunciou tarifas sobre produtos importados de países como Brasil, México, Canadá e China, alegando práticas “injustas” de comércio. As tarifas propostas, em alguns casos superiores a 50%, geraram apreensão no mercado global e críticas por parte dos parceiros comerciais.
No caso do Brasil, além das tarifas, relatos de redes sociais apontaram que Trump criticou decisões do Supremo Tribunal Federal e se manifestou contrariamente à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro — embora essas posições tenham sido politicamente controversas e alvo de interpretações diversas sem confirmação de acordo oficial com o governo brasileiro.
Na verdade, Trump foi convencido pelo Presidente Lula que há provas contundentes contra Jair Bolsonaro, o qual foi julgado, condenado e preso, de modo legal e justo, por práticas de atentado à ordem democrática e instituições brasileiras consolidadas. Ainda que Trump recuasse em relação ao Brasil, ele mirou agora outros países para suas pretensões de hegemonização geopolítica.
Intervenções Militares e Confrontos Internacionais
Em 3 de janeiro de 2026, forças americanas lançaram uma operação no Venezuela que incluiu ataques aéreos e a captura de Nicolás Maduro e sua esposa, intensificando debates sobre a legalidade e os propósitos de ações unilaterais no hemisfério ocidental. Trump chegou a dizer que os EUA poderiam “governar” ou “administrar” a Venezuela temporariamente para garantir uma transição segura — uma afirmação que foi contradita e criticada por oficiais tanto dentro como fora dos EUA.
Trump também tem mantido ameaças verbais contra o Irã, embora relatórios mais recentes indiquem que um ataque direto a instalações nucleares foi evitado após negociações e primeiros ataques bélicos, e que os Estados Unidos estão dispostos em auxiliar seu aliado histórico Israel no Oriente Médio.
Aliás, no dia 22 de junho de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que a Força Aérea dos Estados Unidos realizou ataques a várias instalações nucleares no Irã, que incluiu a Usina de Enriquecimento de Combustível de Fordo, a Instalação Nuclear de Natanz e o Centro de Tecnologia e de Pesquisa Nuclear de Isfahan.
Terras Raras, Brasil e Disputa Geopolítica Global

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Embora não haja evidência concreta de que Trump tenha declarado intenções de “explorar territórios brasileiros”, sabe-se que os Estados Unidos e outras potências mundiais têm mostrado interesse estratégico em minerais críticos, especialmente terras raras, essenciais para tecnologia e defesa — e que o Brasil detém grandes reservas desses recursos. Autoridades brasileiras têm deixado claro que qualquer acordo comercial sobre essas matérias-primas deve incluir transferência de tecnologia e beneficiamento dentro do país, sob o princípio da soberania nacional.
Os Estados Unidos têm interesse em países com grandes reservas e potencial de terras raras para diversificar o fornecimento e reduzir a dependência da China, destacando-se o Brasil (segunda maior reserva mundial com destaque para as terras dos estados de Minas Gerais, Amazonas, Bahia, Goiás, Pará e Rio Grande do Sul), Austrália, Vietnã, Rússia, Índia, Groenlândia (território dinamarquês), e até a Venezuela, por possuírem esses minerais críticos para tecnologias modernas.
O interesse dos EUA nesses países visa criar cadeias de suprimento mais seguras e reduzir a dependência da China, um objetivo crucial para a segurança nacional e o avanço tecnológico.
Acusações, Escândalos e Narrativas Paralelas
O estilo de Trump inclui frequentemente acusações contra líderes estrangeiros e instituições internacionais, muitas vezes sem evidências robustas ou fundamentadas. Essa retórica vigorosa também coincide com momentos em que a administração enfrenta controvérsias internas, como escândalos associados a figuras de sua órbita política como o caso Epstein .
O caso Jeffrey Epstein permanece como uma das maiores sombras sobre as elites políticas, econômicas e institucionais dos Estados Unidos. Epstein, financista bilionário condenado por crimes sexuais envolvendo tráfico e exploração de menores, manteve durante décadas uma rede de relações com figuras influentes da política, do empresariado, da academia e da diplomacia internacional. Sua morte em 2019, oficialmente classificada como suicídio dentro de uma prisão federal, levantou suspeitas persistentes de encobrimento e falhas graves do Estado, jamais plenamente esclarecidas.
No contexto do governo Donald Trump, o caso ganha novo peso político. Trump manteve relações sociais com Epstein nos anos 1990 e início dos anos 2000, fato documentado por registros públicos e imagens amplamente divulgadas. Embora Trump afirme ter rompido com Epstein antes de sua primeira condenação e negue envolvimento direto nos crimes, a ausência de transparência sobre documentos, listas de contatos, financiadores e possíveis beneficiários da rede de Epstein alimenta desconfiança pública e pressão institucional.
Críticos apontam que a demora ou resistência em liberar integralmente arquivos oficiais, bem como a ausência de responsabilização de figuras poderosas, reforça a percepção de que o sistema político norte-americano protege seus próprios interesses. Nesse cenário, analistas avaliam que crises externas, retórica agressiva e conflitos internacionais podem funcionar como instrumentos de distração política, desviando a atenção da opinião pública de escândalos internos sensíveis, como o caso Epstein.
Assim, o escândalo não compromete apenas indivíduos, mas coloca em xeque a credibilidade das instituições norte-americanas, especialmente quando associado a governos que adotam discursos autoritários, atacam a imprensa e relativizam o Estado de Direito. O caso Epstein permanece, portanto, como uma ferida aberta na democracia dos Estados Unidos — e um potencial fator de desgaste político permanente para qualquer governo que evite o esclarecimento pleno dos fatos.
As decisões e declarações de Donald Trump têm provocado reações crescentes dentro dos próprios Estados Unidos. Manifestações populares voltaram a ocupar ruas de grandes cidades, reunindo movimentos civis, sindicatos, estudantes, organizações de direitos humanos e setores acadêmicos que denunciam políticas migratórias agressivas, tarifas comerciais que encarecem o custo de vida, ameaças a instituições democráticas e intervenções externas sem respaldo legal. Para esses grupos, o governo Trump representa um risco concreto à democracia constitucional e ao papel histórico dos Estados Unidos como defensor do multilateralismo.
No Congresso norte-americano, a resistência também se intensificou. Parlamentares democratas e setores do Partido Republicano passaram a questionar a legalidade de decisões tomadas de forma unilateral, especialmente no uso da força militar, na imposição de sanções econômicas e nos ataques ao Judiciário e a órgãos de controle. Audiências públicas, projetos de lei e resoluções têm buscado limitar excessos do Executivo, reforçando os mecanismos de freios e contrapesos diante do que muitos congressistas classificam como um avanço preocupante do poder presidencial.
Além disso, cresce o desconforto institucional com os impactos internacionais da política trumpista. Congressistas, ex-diplomatas e lideranças militares alertam que ameaças a aliados históricos, pretensões sobre territórios soberanos e retórica beligerante enfraquecem a credibilidade global dos Estados Unidos e ampliam tensões geopolíticas desnecessárias. As reações internas revelam que, apesar da polarização, há uma disputa em curso para preservar a democracia norte-americana e conter um projeto de poder que desafia limites constitucionais e normas internacionais.
Conclusão: Um Caminho Perigoso e Singular
O conjunto dessas declarações e ações — da Groenlândia ao Panamá, do discurso sobre anexar aliados à operação militar na Venezuela — revela uma postura incomum e, para muitos, perigosa na condução da política externa estadunidense americana. Ao desafiar normas tradicionais da diplomacia e da soberania, Trump parece trilhar um caminho sem precedentes nos tempos contemporâneos, levantando questões profundas sobre o futuro da ordem internacional, os limites do poder dos Estados Unidos e a necessidade de respostas coletivas para preservar a estabilidade global.
Diante desse cenário, torna-se cada vez mais evidente que a ONU e a Organização Mundial do Comércio (OMC) não podem permanecer passivas. A ONU precisa ir além de notas diplomáticas e discursos genéricos, adotando medidas mais enérgicas, mecanismos de responsabilização política e ações coordenadas para conter violações sistemáticas do direito internacional, como multas, sanções, atos públicos internacionais de Desagravo, além de ser tarifado com demais sanções pertinentes. Da mesma forma, a OMC deve agir estrategicamente contra sanções unilaterais, tarifas abusivas e práticas econômicas coercitivas, sob pena de perder completamente sua relevância como árbitro do comércio global.
O mundo assiste, com preocupação, à construção de uma ordem baseada não em regras, mas na lei do mais forte. Se as instituições multilaterais falharem em reagir, a política internacional poderá retroceder a um estágio de instabilidade permanente, no qual a força substitui o diálogo e a soberania torna-se mera formalidade. O desafio que se impõe não é apenas conter Donald Trump, mas defender o próprio sentido de civilização política construída nas últimas décadas.
Na verdade, o que vemos nos filmes de Hollywood é ao contrário: não são os Estados Unidos que salvam o mundo, mas é o mundo que deve se salvar dos Estados Unidos. Alguém ou alguma instituição deve parar e brecar Trump, porque o mundo está em crise por causa dele, passível de se gerar uma possível Terceira Guerra Mundial, se nada for feito antes.
A busca da paz, do diálogo, da diplomacia, do respeito à soberania e à independência dos povos, da tolerância e da estabilidade global precisa ser concretizada, pois o mundo precisa se precaver de tiranias e de ameaças a própria humanidade.
Lúcio Rangel Ortiz é advogado, professor mestre em planejamento e análise de políticas públicas e pesquisador do grupo DeMus (UNESP), MBA em gestão de projetos, parecerista da Revista Digital de Direito Administrativo (RDDA) e capacitado em extensão universitária em Negociações Internacionais (USP), licenciado em filosofia, sociologia e pedagogia. É escritor, palestrante e colunista do Portal FNT – Intelecto Saber.


