
(Fonte da imagem: https://costadoscoqueiros.com.br/o-impacto-da-globalizacao-na-cultura-nacional/)
O que é, afinal, cultura? Cultura é um conceito muito discutido, debatido e considerado amplo, que representa o conjunto de tradições, crenças e costumes de determinado grupo social com sua identidade também denominada cultural ou antropológica. A cultura, geralmente, é repassada através da comunicação ou imitação às gerações posteriores, o que foi aprendido, assimilado e internalizado pela geração atual quando foi transmitida pela geração passada ou anterior de pessoas.
Assim dessa forma, a cultura é representativa de um patrimônio social e cultural de um grupo ou povo, e que soma padrões dos comportamentos humanos, o que envolve: conhecimentos, experiências, atitudes, valores, crenças, religião, língua, hierarquia, relações espaciais, noção de tempo e conceitos cosmológicos.
Para Roberto Da Matta (2005), cultura é o modo de vida de um povo — um mapa simbólico que orienta comportamentos, costumes e valores. É o “receituário” que permite que indivíduos com histórias e visões distintas convivam em uma mesma coletividade. Nesse sentido, cultura é o tecido que dá forma à vida em sociedade, aquilo que nos permite sentir pertencentes a algo maior que nós mesmos.
Mas, como lembra Manuel Castells (2000), essa sensação de pertencimento é também o que chamamos de identidade — uma construção simbólica baseada em atributos culturais como língua, religião, arte, costumes, música e dança. A identidade é, portanto, uma ponte entre o “eu” e o “nós”, entre o indivíduo e o grupo. Ela é, ao mesmo tempo, pessoal e social, singular e compartilhada.
No mundo contemporâneo, porém, essa noção clássica de cultura e identidade vem sendo constantemente desafiada. Como observou Hannerz (1997), vivemos em um contexto marcado por fluxos, mobilidade e recombinações culturais. A globalização, impulsionada pelas novas tecnologias de comunicação, tornou o mundo um espaço de trocas incessantes, no qual as fronteiras simbólicas se tornam cada vez mais porosas.
Nesse cenário, a cultura deixa de ser apenas local ou nacional e passa a ser global. A pesquisadora Mathews (2002) chama atenção para o fato de que grupos e pessoas consomem produtos culturais em escala planetária, misturando referências e identidades. O resultado é o que Néstor García Canclini (2008) denomina hibridação cultural — um processo dinâmico em que diferentes tradições e linguagens se encontram e se transformam.
Canclini exemplifica essa mistura ao falar do sincretismo religioso brasileiro, da fusão entre arte, publicidade e arquitetura, e até dos casamentos mestiços na América Latina. Para ele, vivemos um tempo de interculturalidade, no qual fronteiras étnicas, artísticas e comunicacionais se cruzam, dando origem a novas formas de expressão e pertencimento.
Contudo, a hibridação não é um processo neutro. Ela revela tanto possibilidades de integração quanto contradições profundas. As tecnologias de informação permitem o acesso a múltiplas culturas, mas também reproduzem desigualdades e exclusões. Canclini, ao citar Ribeiro, lembra a contradição do “branco fascinado pelo negro” — aquele que admira a música afro-americana, mas rejeita a igualdade nas relações sociais.
Essa tensão entre aceitação e preconceito mostra que a globalização não eliminou as fronteiras: apenas as tornou mais complexas. A hibridação cultural, longe de apagar identidades, torna-as mais múltiplas e contraditórias.
Mathews (2002) chama atenção para outro fenômeno: o enfraquecimento da identidade nacional diante da força do mercado. Os Estados moldam culturalmente seus cidadãos para reforçar um senso de pertencimento, mas o consumo global dilui esses vínculos. A cultura, antes expressão de um povo, torna-se um produto.
Podemos, então, sintetizar: a cultura clássica era o modo de vida de um povo sob a força do Estado; a cultura contemporânea, por sua vez, é moldada pela lógica do mercado global. Entre ambas, surge a necessidade de repensar as noções de identidade, pertencimento e diferença.
Mas, antes de analisa-las, verificamos os tipos de cultura que são estudadas pelas ciências sociais, que são:
1. Cultura de Massa: é o conjunto de ideias e valores que se desenvolve como ponto de partida a mesma mídia (Internet, TV, Rádio, Cinema, Audiovisual), notícia, música ou arte. Ela é transmitida sem considerar as especificidades locais ou regionais, e é utilizada para promover o consumismo entre os indivíduos, sendo um comportamento típico do capitalismo, que foi expandido de maneira drástica a partir dos séculos XIX e XX, e ainda influencia no século XXI.
2. Cultura Erudita: diferente da cultura de massa, a cultura erudita, ou também denominada acadêmica ou científica, é o resultado do conhecimento adquirido por meio da pesquisa e do estudo nos mais diferentes campos científicos. Pode ser na área de ciências da natureza, ciências biológicas, ciências humanas, ciências exatas, ciências da saúde, ciências sociais teóricas e aplicadas. Não é a cultura ofertada massivamente, está disponível a poucos e representa uma forma de diferenciação social permitida pelo acesso ao conhecimento. Como exemplos, temos as exposições artísticas, apresentações teatrais, concertos, fóruns, simpósios, congressos, conferências, palestras, oficinas e seminários, além de publicações científicas em jornais específicos e revistas especializadas.
3. Cultura Popular: está intimamente relacionada com as tradições e aos saberes, os quais são determinados pelo povo. Em oposição à cultura erudita, a cultura popular ocorre de forma espontânea e orgânica. Portanto, não está associada aos equipamentos culturais, como os museus, cinemas e bibliotecas. Exemplos são: as festas, o folclore, o artesanato, as músicas e a dança. A cultura popular também se classifica de duas formas: 1) a cultura tradicional popular (que são costumes, crenças e tradições populares); e 2) a cultura popular contemporânea (que é manifestada por grupos como Hippies, Ciganos, Judeus, Góticos, Punks, Funkeiros, Rappers, Sertanejo, Música Eletrônica, Música Popular Brasileira, Samba & Pagode, Axé, entre outros grupos recentes de manifestação na história; pode-se considerar os grupos das periferias, a cultura da favela, a cultura urbana e até a cultura futurista e manifestações literárias como os simbolistas, os parnasianos, cultura moderna e pós-moderna e assim por diante).
4. Cultura Material: representa o conjunto de patrimônio cultural e histórico formado por elementos concretos que ao longo de tempo foram construídos pelo ser humano e preservados. Como exemplos de cultura material temos os elementos arquitetônicos (igrejas, museus, bibliotecas) e os objetos de uso pessoal e coletivo (como obras de arte, utensílios e vestimentas).
5. Cultura Imaterial: diferente da cultura material, a cultura imaterial é formada pelos elementos intangíveis, que não podemos tocar. A cultura imaterial representa o conjunto de saberes, tradições, técnicas, hábitos, comportamentos, costumes e modos de fazer de um determinado grupo. É uma cultura considerada como patrimônio cultural transmitido entre gerações, o que temos como exemplos as lendas folclóricas, as feiras populares, os rituais, as danças, a culinária, etc. Exemplos: o Carnaval, a Capoeira, a arte de fazer o queijo mineiro e o pão de queijo. Tal cultura pode ser classificada assim: a) festas e celebrações (Círio de Nazaré, Festas Juninas, Santos Reis); b) modos de fazer e saberes (viola de cocho, modo de tocar o sino nas capelas e Igrejas); c) danças (congada, frevo); d) expressões musicais e sonoras (samba e pagode); e) tradições orais (lendas, contos de histórias, gírias, dialetos), f) culinária (modos de preparação de determinados alimentos, receitas tradicionais); g) Rituais e Crenças (ritos de terreiros, celebrações místicas e mágicas); h) artesanato (técnicas e saberes e tradicionais da arte manual, como Kusiwa dos Wajãpi, arte indígena, cerâmica com pigmentos).
6. Cultura Organizacional: também chamada de “cultura corporativa”, reúne um conjunto de elementos associados aos valores, missões e comportamentos de determinada organização (empresas, instituições filantrópicas, entidades, movimentos sociais e Terceiro Setor). Dentro do contexto da globalização e dos estudos mercadológicos, esse tipo de cultura cria padrões de funcionamento e operações, por exemplo, dentro de empresas ou outras organizações.
7. Cultura Corporal: analisa o comportamento dos seres humanos em seus mais diferentes grupos. Ela reúne as práticas relacionadas ao movimento: danças, jogos, atividades, comportamento sexual e festividades.
Diante disso, é possível a hibridação cultural (misturas culturais), que nos convida a compreender o mundo como um espaço plural e interligado — um mosaico de referências, influências e resistências. E talvez seja justamente aí que reside o desafio do nosso tempo: viver a diversidade sem perder a singularidade, compreender o global sem esquecer o local, e fazer da interculturalidade não um campo de conflito, mas um horizonte de convivência.

(Fonte da imagem: https://alexandre-oliveira.com/identidade-visual-local-e-global-equilibrio-perfeito/)
Portanto, a identidade cultural, que é o sentimento de pertencimento a um grupo, nação ou determinada cultura, e que é moldada por elementos como língua, história, etnia, religião e costumes. É esta percepção de si mesmo como parte de um coletivo, influenciada por um conjunto de símbolos e valores compartilhados que definem a cultura de um povo e faz a pessoa, ora indivíduo se sentir pertencido a determinada cultura que vive e se expressa. E diante desta identidade que a pessoa precisa saber conviver com as diferenças, com diálogo, tolerância e convivência.
Porque, no fundo, pensar a cultura hoje é pensar o próprio destino humano: entre o que fomos, o que somos e o que poderemos ser em uma sociedade cada vez mais conectada, mesclada e mestiça — uma sociedade que aprende, na mistura, o seu verdadeiro valor universal, enquanto humanidade.
EXEMPLO DE INTERCULTURALIDADE: 31 DE OUTUBRO – DIA HALLOWEEN OU DIA DO SACI PERERÊ?
A origem do Halloween remonta as tradições antigas na Irlanda, Reino Unido e norte da França, sendo uma fusão de rituais pagãos e crenças cristãs, que significa o “fim do verão”, que é celebrado há mais de dois mil anos, quando se marcava o fim da colheita e o início do inverno, o que era um período associado à morte.
Antigamente, chamava-se “Festival Celta de Samhain”, com as devidas tradições celtas que acreditavam que na noite antes do inverno, os espíritos dos mortos retornavam ao mundo, entre o véu dos vivos e mortos, para realizarem seus sonhos que não foram concretizados e realizados em vida física terrestre no mundo material do Planeta Terra. E para afastar os maus espíritos com suas intenções de realizar seus sonhos que não eram bons para os vivos, os celtas realizavam rituais para apaziguar os referidos espíritos com fogueiras, máscaras e disfarces feitos por peles de animais.
A Igreja Católica observou no decorrer da história, entre a Antiguidade e Idade Média, que tal cultura céltica era muito forte e presente na Europa e absorveu tal cultura com sua influência de sincretismo religioso, a fim de converter a festa considerada pagã para todo dia 1º de novembro com a “Festa de Todos os Santos” (All Hallow’s Day) e o dia 2 novembro para o “Dia de Finados”, para celebrar a lembranças das pessoas mortas, entes queridos falecidos, a fim de orar pelo bem das almas deles. Contudo, na noite anterior ao dia dos santos, foi denominada “Véspera de Todos os Santos” (All Hallows’ Eve), o que depois pela língua inglesa foi transformada de forma sintética e sincrética de “Halloween”.
Nas tradições modernas, foram adotados os costumes das crianças em grupos visitarem casas juntos com responsáveis para pedirem doces ou travessuras (trick-or-treat) e o uso de abóboras esculpidas (Jack-o’-lanterns), e que tais práticas foram popularizadas nos Estados Unidos, e o que os tornou símbolos comerciais e lúdicos da celebração atual. Nos Estados Unidos, a data virou feriado.
No Brasil, o Halloween, também chamado o “Dia das Bruxas”, não possui raízes históricas ou religiosas, mas sua assimilação é crescente, impulsionada principalmente pela influência cultural norte-americana, por causa das escolas de inglês, depois nas escolas de outras línguas e nas escolas em geral, tanto públicas como privadas, e também por causa de filmes e músicas estadunidenses com sua cultura pop, o que fortemente arregimentou adolescentes, crianças, jovens e até adultos para organizarem a Festa do Halloween, como forma de imersão cultural, e também aproveitada por questões comerciais em clubes, bares, eventos e residências, onde as pessoas se fantasiam e se divertem com fantasias, decorações, artigos de festa, doces, bebidas e sustos.
Diante dessa cultura euro-americana ter influenciado o Brasil e até demais países latino-americanos, ou seja, ser uma cultura popularizada, criou-se um movimento cultural de valorizar o folclore nacional brasileiro para o dia 31 de outubro, e solicitaram como contraponto para criar o Dia do Saci Pererê, que é um personagem do folclore brasileiro. O projeto de Lei Federal nº 2762/2003 propôs instituir o Dia do Saci Pererê, com eventos culturais, folclóricos e esportivos, a fim de valorizar a cultura e tradições brasileiras, como forma de ser uma referência crítica a apropriação da festa estrangeira no Brasil. Contudo, tal projeto não foi para frente, mas vários grupos culturais e sociais brasileiros, assimilaram o teor da proposta e festejam o Saci.
O Saci-pererê, ou simplesmente saci, é um personagem fantasioso de um menino negro e travesso, que fuma cachimbo e carrega uma carapuça vermelha que lhe concede poderes mágicos e só uma perna. Ele se diverte fazendo brincadeiras com os animais e com as pessoas com suas travessuras que são fazer tranças no rabo dos animais durante a noite, esconder objetos (como os dedais das costureiras), assobiar de maneira muito estridente para assustar os viajantes, trocar o recipiente de sal pelo de açúcar e distrair as cozinheiras para elas queimarem a comida, por isso que o Saci é chamado de danado. Sua história existe desde fins dos tempos coloniais e tem origem nas tribos indígenas do sul do Brasil.
Conforma a cultura indígena guarani, o termo “Saci” vem do termo tupi sa’si, que está relacionado a um pássaro, que é conhecido pelos nomes “Saci”, “Matimpererê” ou “Martim-pererê” (em tupi: matintape’re). Antigamente, o Saci tinha duas pernas e um rabo, mas quando conheceu os negros, ele uma vez aceitou o desafio de luta de capoeira e perdeu uma perna, e depois adquiriu o hábito de fumar o cachimbo. O gorro vermelho do Saci advém do folclore do norte de Portugal, utilizado pelo lendário Trasgo, que possuía poderes sobrenaturais. Assim, sua lenda é contada em todas as regiões brasileiras e, por isso, a estória modifica-se conforme o local. Em alguns lugares, ele possui nomes diferentes como: Saci-Cererê, Matimpererê, Matita Perê, Saci-Saçurá e Saci-Trique.
O Saci é considerado o guardião das ervas e das plantas medicinais, por isso, confunde as pessoas que tentam pegá-las sem autorização. Ele conhece as técnicas de preparo e sabe como utilizar as plantas para fins medicinais. A lenda garante que para pegar o Saci-pererê, a pessoa deve arremessar uma peneira nos redemoinhos de vento para capturá-lo, e é necessário retirar-lhe o gorro para prendê-lo em uma garrafa. Diz a lenda que o Saci nasceu do broto de bambu, que permaneceu ali até os sete anos e depois viveu mais setenta e sete anos, que praticou suas travessuras entre os humanos e os animais. E quando morreu, virou um cogumelo venenoso.
Enfim, tanto a cultura céltica do “fim da colheita de verão”, que se transformou em cultura cristã do dia dos “santos e finados”, até que virou o dia de “doces ou travessuras” nos Estados Unidos e depois considerado “dia das bruxas” no Brasil, hoje, buscam festejar o “Saci Pererê”, o que torna o dia 31 de outubro um dia de sincretismo cultural, ora manifestado e até válido para homenagens, comemorações, celebrações e até diversões.
Nada demais, e isso faz parte da mistura cultural do nosso povo.
Lúcio Rangel Ortiz, advogado, mestre em planejamento e análise de políticas e públicas e pesquisador (UNESP), MBA em gestão de projetos (USP), professor de filosofia, sociologia e matemática, escritor, palestrante e colunista do Portal Fato no Ato – Intelecto Saber.


