
A campanha “Franca Tem Voz”, lançada pela ACIF (Associação Comercial e Industrial de Franca), que aliás, eu, pessoalmente, faço parte como afiliado profissional liberal, em parceria com grandes entidades e empresas locais, apresenta-se como uma iniciativa cívica e apartidária para “incentivar o voto consciente” nas eleições de 2026. No entanto e contudo, por trás do discurso elegante da representatividade regional, há um debate mais profundo — e necessário — sobre o real significado da consciência política e do papel do eleitor na democracia.
Inicialmente, quando o movimento arroga sua característica ou tipificação de “apartidária”, na sua essência e significado, seria um movimento que não teria posicionamento, partido ou ideologia política. Contudo, na minha sincera e modesta opinião, talvez o termo mais correto seria SUPRAPARTIDÁRIA. E por quê? Porque o movimento tem posicionamento claro: ter deputados, verdadeiramente, representantes da cidade no Congresso Nacional (Câmara dos Deputados Federais) e na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. As pessoas envolvidas no movimento, algumas são filiadas a partidos políticos e defendem suas ideologias. Uma ideologia evidente do movimento é a questão econômica do setor produtivo da cidade. E há algumas entidades da sociedade civil francana que também fazem parte. Então, a sugestão para que o movimento se coloque como “Suprapartidário”, caracteriza-lo-ia melhor nesse sentido.
É importante, também, reconhecer o mérito da proposta: chamar a atenção dos francanos e francanas para a sub-representação de Franca no espaço legislativo federal, porque em relação ao estado, na Assembleia Legislativa Estadual, Franca tem dois representantes: Delegada Graciela (PL) e Guilherme Cortez (PSOL).
Por mais que o movimento se preocupe com a sub-representação, a delegada Dra. Graciela destinou mais de R$ 1 milhão para o setor de hemodiálise da Santa Casa de Franca, a fim de modernizar equipamentos; enviou R$ 2 milhões no final de 2024 para um mutirão de cirurgias eletivas e somado a 3 milhões de recursos anteriores, totalizou cerca de R$ 5 milhões para Franca; emendas da Graciela aprovadas para 2025 foram destinadas à Franca, o que contemplou recapeamento e vicinais, que ligou Franca a outras cidades; conseguiu R$ 80 milhões para construção de vias marginais e um viaduto no trecho urbano para a Rodovia Cândido Portinari; R$ 10 milhões para um viaduto com alça de acesso próximo à Vila Hípica na Rodovia Ronan Rocha. Logo, ao afirmar que a deputada não fez nada por Franca, não é admissível, pois ela destinou recursos para a cidade de Franca e região com suas emendas e solicitação ao Governador do Estado de São Paulo.
Guilherme Cortez destinou, também, mais de R$ 5 milhões para a saúde pública de Franca, que foram: R$ 3.468.058,00 para a construção de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) no Jardim Palma; R$ 790.000,00 para a revitalização do Pronto Socorro Municipal Dr. Álvaro Azzuz “Janjão”; R$ 800.000,00 para a compra de aparelhos de ar-condicionado para todas as UBSs; R$ 230.000,00 para a aquisição de uma ambulância; R$ 100.000,00 para um veículo destinado ao Centro de Testagem e Aconselhamento de Franca. Em 2025, foram pagos R$ 710.000,00 em emendas, que foram: R$ 310.000,00 para o custeio de serviços essenciais de saúde; e R$ 400.000,00 para a aquisição de um aparelho de endoscopia e colonoscopia. Na área da educação, foram alocados R$ 400 mil para a reforma das seguintes unidades escolares: E.E. Prof. Suely Machado da Silva, ETEC Industrial, ETEC Rural e EE PEI Roberto Scarabuci. Com emendas impositivas parlamentares, Cortez destinou R$ 6,7 milhões no total para a cidade de Franca em várias áreas (destaque para a saúde e educação). Assim, também não se pode afirmar que o referido deputado não fez nada por Franca.
E Franca já teve um deputado federal de 2012 a 2015 com o Dr. Ubiali (PSB), e que teve vários projetos para Franca, em destaque de trazer a TV Digital e o Instituto Federal para Franca, mas que não obteve êxito por questão política do prefeito Sidnei Rocha que não encampou os projetos. Atualmente, com o vereador Gilson Pelizaro (PT) e o prefeito Alexandre Ferreira (MDB) estão conseguindo trazer para Franca o Instituto Federal, com o auxílio dos deputados federais Arlindo Chinaglia (PT) e Nilto Tatto PT) junto ao MEC.
Diante do que já fora realizado pelos políticos por Franca, ainda vale mencionar se a cidade de Franca não tiver políticos representantes compromissados com a região, seja deputado estadual ou federal, o município perde força na disputa por recursos, investimentos e políticas públicas. Mas a questão que se impõe é: a representatividade territorial basta para garantir representatividade social e política?
O apelo para que o eleitor vote “em candidatos da cidade, independentemente de suas convicções políticas”, como declarou o presidente da ACIF, revela uma contradição perigosa. Ao priorizar o critério geográfico em detrimento do ideológico, a campanha pode reduzir a política a um ato de regionalismo eleitoral, e esvazia o debate sobre projetos, princípios e valores que realmente transformam a vida das pessoas. Tal tipo de pensamento faz lembrar a época do coronelismo e clientelismo regional da República Velha.
Não é o simples fato de nascer ou morar em Franca que faz de alguém um bom representante. Há políticos locais que servem mais a interesses empresariais e privados do que ao bem público. E há também representantes “de fora” que defendem pautas sociais, ambientais e educacionais com impacto direto sobre os francanos. Ou seja: o vínculo territorial não é garantia de compromisso político.
Outro ponto que merece reflexão é o protagonismo das instituições envolvidas. A presença de grandes corporações e entidades empresariais — ACIF, COCAPEC, UNIMED, Magazine Luiza, o Grupo S (SEBRAE, CIESP) — indica que o movimento tem forte caráter econômico e corporativo, o que levanta questionamentos sobre a real pluralidade da iniciativa. Se a campanha fosse verdadeiramente suprapartidária e cidadã, incluiria sindicatos, movimentos populares, coletivos e lideranças comunitárias, não apenas os atores do setor produtivo. Que se convidem associações comunitárias e associações de moradores para o movimento, ONGs e entidades do Terceiro Setor. Ora, a OAB, a Diocese de Franca, a Maçonaria e a Uni-FACEF aderiram ao movimento. Que bom! Sejam também convidados o CREA (Conselho Regional de Arquitetura e Engenharia), CRM (Conselho Regional de Medicina), CRC (Conselho Regional de Contabilidade), CREFI (Conselho Regional dos Profissionais da Educação Física), COREN (Conselho Regional da Enfermagem), as demais Igrejas de outras denominações (Evangélicas: Tradicionais, Pentecostais e Neopentecostais), as demais religiões (Espíritas, Budistas, Candomblé, Ubanda, entre outras possíveis denominações), Lions Club, Rotary Club e demais entidades.
Além disso, quando a campanha associa o “voto consciente” à defesa de interesses regionais, ela restringe o conceito de cidadania, porque cidadania é participar na sociedade, no exercício de direitos, cumprimento de obrigações e transformar a realidade para bem comum de modo coletivo, solidário e compartilhado. O voto consciente não é apenas votar “em casa”, no sentido “barrista”, mas compreender as estruturas de poder, questionar privilégios, fiscalizar mandatos e defender valores democráticos, republicanos e humanitários. Conscientizar o eleitor é estimulá-lo a pensar criticamente — não apenas a seguir um chamado de unidade local.
É verdade que Franca na última eleição 2022, dos 252 mil eleitores, somente 118.400 votos foram aproveitáveis para os candidatos a deputados, ou seja, 133600 votos foram desperdiçados entre brancos, nulos e abstenções. É algo preocupante e precisa conscientizar os cidadãos francanos e o movimento, neste sentido, tem legitimidade para chamar a devida atenção.
Em última instância, “Franca Tem Voz” pode se tornar um projeto de fortalecimento das elites políticas e econômicas da cidade, em vez de uma real mobilização cidadã. Muitas empresas que poderiam vir para a Franca e não vêm, por causa de mentalidade “provinciana” da elite local. O verdadeiro desafio não é apenas dar voz a Franca no Congresso e na ALESP, mas garantir que essa voz represente a diversidade, os trabalhadores, os estudantes, as periferias e as causas coletivas — e não apenas a manutenção de um modelo de poder concentrado.
Franca precisa, sim, de voz!. Mas, antes de tudo, precisa de consciência política crítica, responsável, empática e inclusiva, ou seja, uma consciência que vá além dos limites da geografia e alcance os fundamentos da justiça social, da ética pública e da democracia participativa.
Lúcio Rangel Ortiz – advogado, professor mestre em planejmento e análise de políticas públicas (UNESP), MBA em gestão de projetos (USP), pós-graduado em gestão pública (UFSCar), graduado em administração pública e licenciado em Filosofia (UFSJ), Sociologia (Uni-FAVENI), Matemática (UNAR) e Pedagogia (UNIUBE). É escritor, pesquisador, palestrante e colunista no Portal Fato no Ato – Intelecto Saber. Foi representante e fundador do Coletivo Pensar Franca no ano de 2020.


