A popularização das canetas emagrecedoras, como semaglutida e tirzepatida, trouxe uma nova discussão para os consultórios de reprodução assistida. Se a perda de peso e a melhora da saúde metabólica podem favorecer a fertilidade de algumas pacientes, uma pergunta ainda permanece sem resposta: o que acontece com os óvulos?
Os efeitos variam de acordo com o perfil da paciente e a indicação do tratamento. Por isso, é importante separar os possíveis benefícios relacionados à melhora metabólica de um efeito direto sobre a fertilidade. "Para alguns casais, as canetas emagrecedoras podem até favorecer o cenário reprodutivo, já que a perda de peso e o controle metabólico podem favorecer a ovulação nas mulheres e melhorar alguns parâmetros da fertilidade masculina. Mas isso não significa que essas medicações tratem a infertilidade", explica Daiane Pagliarin, ginecologista especialista em reprodução assistida.
As pesquisas têm se debruçado cada vez mais sobre a relação entre os agonistas do receptor do GLP-1 e a saúde reprodutiva. Embora melhorias no peso e na saúde metabólica possam favorecer a fertilidade e os resultados da fertilização in vitro, os mecanismos por trás desses benefícios ainda não são totalmente compreendidos.
"Sabemos que o peso e a saúde metabólica podem influenciar os resultados reprodutivos, mas há uma oportunidade de aprender mais sobre quais fatores ao longo da jornada da fertilidade podem se beneficiar dos medicamentos à base de GLP-1. Também não está claro se quaisquer benefícios reprodutivos são decorrentes de melhorias na saúde metabólica ou de efeitos diretos dos medicamentos. Será que eles poderiam influenciar a qualidade dos óvulos ou do esperma e, consequentemente, o desenvolvimento embrionário? Será que elas poderiam melhorar o ambiente endometrial para a implantação do embrião? Ou seria uma combinação desses fatores? São necessárias mais pesquisas para compreender como esses medicamentos podem impactar os fatores individuais que contribuem para o sucesso da fertilidade", afirma o Dr. Dan Nayot, endocrinologista reprodutivo, diretor médico e cofundador da Future Fertility.
O potencial de cada óvulo
Na reprodução assistida, idade e quantidade de óvulos são indicadores importantes, mas não fornecem todas as informações sobre o potencial reprodutivo dos óvulos de uma paciente. Duas pacientes da mesma idade, com um número semelhante de óvulos maduros, ainda podem apresentar resultados reprodutivos muito diferentes. Historicamente, isso também tem dificultado a avaliação objetiva de se as mudanças na saúde da paciente, no uso de medicamentos ou em outros fatores clínicos se refletem na qualidade dos próprios oócitos. Os parâmetros do sêmen, por exemplo, podem ser medidos e acompanhados ao longo do tempo, à medida que as variáveis da paciente mudam. A avaliação objetiva da qualidade dos oócitos tem sido muito mais limitada.
É nesse cenário que atua a Future Fertility, empresa canadense especializada em inteligência artificial aplicada à reprodução assistida. Sua tecnologia analisa imagens de cada óvulo e identifica padrões que não são visíveis a olho nu, gerando informações adicionais sobre seu potencial de desenvolvimento.
A empresa possui duas ferramentas. O VIOLET™ é voltado para pacientes que estão congelando óvulos, e a tecnologia analisa imagens dos óvulos maduros e gera uma avaliação personalizada. Já o MAGENTA™ é utilizado em ciclos de FIV/ICSI e avalia individualmente os óvulos maduros, atribuindo uma pontuação de qualidade correlacionada ao potencial de formação de blastocistos de alta qualidade.
Essas tecnologias ainda não permitem determinar se um medicamento para perda de peso provocou mudanças na qualidade de um óvulo específico. No entanto, podem contribuir para novas pesquisas sobre a relação entre saúde metabólica e fertilidade, oferecendo informações que antes não estavam disponíveis. Isso é importante porque uma melhora na saúde metabólica não significa, necessariamente, uma melhora na qualidade dos óvulos. Com avaliações mais objetivas, os pesquisadores podem investigar se os possíveis benefícios da perda de peso estão relacionados à qualidade dos óvulos, dos espermatozoides ou dos embriões, às condições do útero para receber o embrião ou a uma combinação desses fatores.
Planejamento reprodutivo
Para as mulheres que utilizam esses medicamentos e pretendem congelar seus óvulos ou iniciar uma fertilização in vitro, as decisões sobre quando interromper o tratamento devem ser tomadas em conjunto com a equipe médica responsável pelo tratamento de fertilidade. Isso é importante não apenas no que diz respeito ao planejamento do tratamento, mas também porque a retirada de óvulos geralmente envolve sedação, e os medicamentos à base de GLP-1 podem retardar o esvaziamento gástrico.
"Para quem pretende engravidar, no caso da semaglutida, a orientação é interromper o tratamento pelo menos dois meses antes de uma gravidez planejada, e na tirzepatida, um mês antes. Essas medicações devem ser suspensas antes da gestação e não são indicadas durante a gravidez, porque ainda não existem estudos que garantam sua segurança. Outro ponto de atenção é que a tirzepatida pode interferir na eficácia dos anticoncepcionais orais", explica Daiane.
Com o avanço das pesquisas sobre os medicamentos à base de GLP-1 e seus possíveis efeitos na saúde reprodutiva, um dos desafios será entender não apenas se a perda de peso está associada a melhores resultados de fertilidade, mas também quais fatores podem explicar essa relação e como essas mudanças podem ser avaliadas.
Para as pacientes, essas questões reforçam a importância de um planejamento reprodutivo individualizado. Idade, peso, saúde metabólica e quantidade de óvulos são fatores que precisam ser considerados em conjunto, enquanto novas tecnologias podem acrescentar informações sobre a qualidade dos óvulos. Nenhum desses indicadores, isoladamente, é suficiente para determinar as chances de uma gravidez.
Sobre a Future Fertility
A Future Fertility é uma empresa de biotecnologia médica e Inteligência Artificial. Foi a primeira empresa no mundo a desenvolver um software de IA clinicamente validado capaz de avaliar o potencial reprodutivo dos oócitos humanos por meio da análise de imagens e dados.



