
Por que continuo acreditando na Educação?
Queridos professores e queridas professoras,
Escrevo esta carta antes de tudo para mim mesmo.
Escrevo para aquele jovem que um dia se encantou pelas histórias contadas pelo avô, no terreirão de café de uma fazenda, enquanto o cheiro do café secando misturava-se às lembranças de uma vida inteira. Foi ali que descobri que uma boa história é capaz de atravessar gerações. Sem perceber, meu avô me ensinava História muito antes de eu entrar em uma universidade.
Talvez tenha sido naquele terreirão que nasceu o professor que hoje sou.
Mais tarde, durante o Ensino Médio, encontrei professores que transformavam conteúdos difíceis em algo simples. Eles não apenas ensinavam fórmulas, datas ou regras gramaticais. Eles faziam os alunos acreditarem que eram capazes de aprender. Foi então que compreendi que queria dedicar minha vida a fazer o mesmo.
Ao longo da minha caminhada encontrei mestres inesquecíveis. O professor Everton de Paula, que despertava o amor pela Língua Portuguesa. O professor Cebolinha, que fazia a Matemática parecer menos assustadora. O inesquecível Seu Chico, apaixonado pela História de Franca, pelo basquete e pela indústria do calçado. Cada um deles deixou marcas profundas em mim.
Hoje percebo que somos feitos dos professores que tivemos.
Minha trajetória nunca foi fácil. Estudar Licenciatura e Bacharelado em História na UNESP de Franca exigiu muitos sacrifícios. O curso era intenso, o dinheiro era curto e o tempo parecia nunca ser suficiente. Depois de formado, enfrentei longas viagens para trabalhar em outras cidades até assumir minha vaga como professor efetivo em Monte Mor.
Foram anos difíceis.
Mas nunca pensei em desistir.
Porque ensinar nunca foi apenas uma profissão.
Sempre foi uma missão.
Durante a pandemia da Covid-19 vivi um dos maiores desafios da minha carreira. Precisei aprender a ensinar através de uma câmera. Nunca havia gravado vídeos nem feito transmissões ao vivo. As primeiras aulas ficaram ruins. Eu mesmo não gostava do resultado.
Foi justamente essa indignação que mudou minha vida.
Resolvi aprender.
Estudei gravação, edição, comunicação e produção de conteúdo. Assim nasceu o canal Conta que eu te Conto.
No início eu queria apenas melhorar minhas aulas.
Hoje compreendo que encontrei algo muito maior.
O canal existe porque acredito que toda história merece ser contada.
Não apenas as histórias dos livros.
Mas também as histórias das pessoas comuns. Das pessoas que trabalham, que educam, que enfrentam dificuldades, que transformam cidades, que constroem famílias e deixam sua marca no mundo sem nunca aparecerem nos grandes jornais.
A História não pertence apenas aos grandes heróis.
Ela pertence a todos nós.
Tenho orgulho de responder pessoalmente às mensagens dos seguidores, dos inscritos e dos membros da comunidade que carinhosamente chamamos de Spokers. Espero nunca perder essa proximidade, porque antes de falar é preciso aprender a ouvir.
Aliás, talvez eu queira ser lembrado exatamente por isso.
Como alguém que sabia ouvir.
E como um bom contador de histórias.
Quando me perguntam o que gostaria que meus alunos lembrassem daqui a vinte anos, minha resposta continua sendo a mesma.
Que fui um grande contador de histórias.
Não porque decorava datas.
Mas porque fazia as pessoas compreenderem que elas também fazem parte da História.
Confesso que ultimamente tenho sentido uma preocupação.
Vejo cada vez menos jovens desejando seguir a profissão docente. Muitos enxergam apenas as dificuldades, os baixos salários, a falta de reconhecimento e os inúmeros desafios que enfrentamos diariamente.
É impossível fingir que esses problemas não existem.
Eles existem.
E precisam ser enfrentados.
Mas também não podemos permitir que a sociedade esqueça o verdadeiro valor de um professor.
Nenhum médico existiria sem um professor.
Nenhum engenheiro.
Nenhum advogado.
Nenhum cientista.
Nenhum jornalista.
Nenhum empreendedor.
Nenhum governante.
Antes de qualquer profissão existe um professor.
Somos nós que ajudamos crianças inseguras a descobrirem talentos.
Somos nós que mostramos que um livro pode mudar uma vida.
Somos nós que ensinamos alguém a acreditar em si mesmo.
Talvez nunca sejamos os mais ricos.
Talvez nem sempre sejamos reconhecidos.
Mas poucos profissionais têm o privilégio de transformar tantas vidas ao longo da própria existência.
É isso que me faz continuar.
É isso que me emociona.
Minha filha me emociona.
As pessoas que encontro pelo caminho me emocionam.
Um bom bate-papo faz o tempo desaparecer.
Continuo estudando História, mitologia, lendas, curiosidades e astronomia simplesmente porque gosto de aprender.
E, se um dia todo o dinheiro do mundo acabasse, eu continuaria fazendo exatamente a mesma coisa.
Contaria histórias.
Porque ensinar nunca dependeu apenas de salário.
Depende de propósito.
Daqui a cinco anos espero olhar para trás e perceber que todo esse trabalho valeu a pena. Quem sabe estar concedendo uma entrevista em uma emissora de televisão, sendo reconhecido pelo trabalho realizado.
Daqui a dez anos sonho em ver a marca Conta que eu te Conto tornar-se referência em educação, cultura e opinião sincera.
Mas, acima de tudo, desejo continuar sendo o mesmo professor que um dia ouviu histórias no terreirão de café ao lado do avô.
Porque foi ali que aprendi a maior lição da minha vida.
As pessoas passam.
As histórias permanecem.
E enquanto existir um professor disposto a contar uma boa história, haverá esperança para a Educação.
A todos os professores e professoras que continuam entrando em uma sala de aula apesar das dificuldades, apesar do cansaço e apesar da falta de reconhecimento, deixo minha admiração.
Não desistam.
Cada aula pode mudar uma vida.
Cada palavra pode despertar um sonho.
Cada aluno pode carregar para sempre um pedaço daquilo que ensinamos.
E, no fim das contas, talvez seja exatamente isso que significa ser professor.
Ensinar conteúdos é importante.
Mas ensinar pessoas é extraordinário.
Com carinho e esperança,
Professor Rogério Monteiro
Docente na Rede Pública Paulista – Licenciado em História (UNESP) e em Pedagogia (UNIFRAN)
Apresentador do Canal Conta que eu te Conto
https://www.youtube.com/@canalcontaqueeuteconto67


