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O dezembro brasileiro não pede lareira. Ele queima no asfalto, abafa sob os viadutos e brilha no suor de quem corre atrás do pão e não do panetone. No entanto, insistimos na ilusão gelada. Adornamos nossos shoppings com bonecos de neve de isopor e pinheiros de plástico e fazemos reverência a um arquétipo que pouco tem de sagrado e muito tem de mercado.
Dizem que é época de Papai Noel. Mas que Noel é esse? Um senhor de barba branca, com roupa vermelha que se protege da neve, aliás tal cor vermelha inventada pela publicidade da empresa Coca-Cola dos Estados Unidos, que ri um “ho-ho-ho” vazio enquanto incentiva o consumo desenfreado das pessoas em várias cidades do mundo todo. E nas TVs, cinema, audiovisual em geral, superestimam o Papai Noel com poderes mágicos com renas mágicas e trenó voador.
Esquecemos, infeliz e convenientemente, que o protagonista principal do Natal é quem divide a História da humanidade antes e depois Dele, Ieshuá Mashiah, que aportuguesado é Jesus Cristo, que foi presenteado pelos Magos do Oriente (não os reis da Festa dos Reis Magos), dias após do seu nascimento com mirra (por ser profeta), ouro (por ser rei) e incenso (por ser sacerdote), que os ortodoxos comemoram no dia 6 de janeiro.
Séculos depois, um bispo cristão católico da Anatólia (hoje, Turquia) chamado Nicolau de Mira, o Taumaturgo (fazedor de milagres por converter hóstias em pães, de jorrar ouro como dote para moças pobres e de ressuscitar crianças), era um homem simples e não teve na sua vida biográfica como mágico ou mago na Turquia; não voava em trenós puxados por renas mágicas e teve a proeza de uns dias antes do Natal, na sua época (entre 280 a 343 d.c.) levar presentes, escondido, para crianças pobres a fim de que elas não ficassem tristes no dia do nascimento de Cristo e festejassem o Natal com alegria.
A história e as lendas antigas contam que Nicolau caminhava entre nós, vestia túnicas verdes e marrons, cores da terra e da esperança. Em terras frias, usava esquis de madeira ou raquetes de neve para alcançar os necessitados, e não para fugir deles.
Ao desvirtuarmos o mensageiro e a quem ele homenageava (Ieshuá), perdemos a mensagem. E, ao perdermos a mensagem, esquecemos o Aniversariante do dia do Natalício do Filho de Deus.
Sabemos que a data de 25 de dezembro é uma convenção, uma sobreposição litúrgica aos festivais e rituais do Solstício de Inverno da Europa e do Oriente Médio, ao Sol Invictus dos romanos, ao nascimento de Mitra da Pérsia ou de Hórus do Egito. A história das religiões nos mostra essas conexões. E, está tudo bem! Independentemente do calendário astronômico, a essência teológica do Natal cristão é a Encarnação de Jesus: o mistério que Deus que se faz humano, pequeno, frágil e marginalizado.

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E onde está esse Deus hoje?
Se procurarmos bem, não O acharemos nos altares de ouro, mas sim sob o concreto armado de São Paulo, principalmente, nas favelas e nas ruas de tantas outras cidades com suas periferias no Brasil e no mundo. Lá, em São Paulo, o Padre Júlio Lancelloti repete o gesto eucarístico da partilha, não como hóstias imaculadas, mas com marmitas e cobertores. Ele lava os pés feridos dos moradores de rua, ou seja, da humanidade que a sociedade prefere invisibilizar. Padre Júlio não celebra o Natal, ele vive o Natal diariamente na Paróquia São Miguel Arcanjo da Arquidiocese de São Paulo.
Contudo, a história se repete com uma ironia amarga. Aquele que tenta viver o Evangelho na íntegra em vida, sem notas de rodapé suavizantes — acaba, invariavelmente, perseguido. Não pelos romanos de outrora, mas pelas estruturas de agora, dos conservadores da extrema direita que se incomodam em ajudar gente de rua porque acham que são vagabundos, drogados e criminosos, mas não os veem como Jesus pede no Evangelho como seu próximo e irmãos necessitados. E assim, vemos as notícias de restrições impostas pela hierarquia eclesiástica católica, personificadas nas diretrizes de Dom Odilo Scherer, que afastam a transmissão da missa via internet e o uso das redes sociais para mostrar a realidade crua. É para o bem do padre, mas não se explica o quê e o porquê.
Tentar “esconder” a miséria ou burocratizar a caridade é tentar silenciar o próprio Cristo. Jesus foi perseguido porque sua presença incomodava o status quo religioso e político de seu tempo. Hoje, quem segue esse modelo radical de Cristo no amor, também sofre o peso da incompreensão. Querem um Cristo de gesso, mudo e estático, não um Cristo que denuncia a fome e a hipocrisia através das lentes de um celular, ou em tablet, computadores e notebooks.

(Fonte da Imagem: https://www.acidigital.com/noticia/66003/primeira-missa-sem-transmissao-do-padre-julio-lancellotti-vira-protesto-contra-o-arcebispo-de-sao-paulo)
O verdadeiro presépio, portanto, não é aquele de louça italiana ou de outros materiais que montamos na sala. Os presépios vivos estão sangrando e têm em várias partes do mundo com pais, mães e crianças fugindo da violência, da perseguição e da guerra. Eles estão nas ruas de São Paulo, nos morros do Rio de Janeiro, nos escombros de Gaza, onde famílias inteiras, tal qual a Sagrada Família, fogem de novos Herodes, balas perdidas e bombardeios, sem ter onde reclinar a cabeça. Os refugiados palestinos, os imigrantes e apátridas que cruzam mares em barcos precários ou a pé, os excluídos das grandes metrópoles: eles são a carne de Jesus Criança no mundo hoje.
Neste Natal Tropical que vivemos, que não tem neve, mas sol quente e talvez, chuvas e ventos, conforme os brasis do Brasil, talvez precisemos menos de luzes piscantes e mais de lucidez. Precisamos lembrar que o personagem principal não é o velho do saco de presentes, nem o solstício pagão que se critica, mas o Menino Jesus. E esse Menino teimoso insiste em nascer não no conforto de nossas casas, mas na manjedoura fria da exclusão, e espera que tenhamos a coragem de, como o Padre Júlio, reconhecê-Lo e acolhê-Lo, mesmo quando o mundo insiste em olhar para o outro lado.
Um abençoado, excelente e felicíssimo Natal para todas as famílias e que o Menino Deus Ieshuá possa nascer de verdade nos nossos corações para sempre vivermos o amor, a generosidade, a solidariedade, a caridade, a compaixão, a misericórdia e a fraternidade.
Lúcio Rangel Ortiz, advogado, escritor, professor mestre em planejamento e análise de políticas públicas e pesquisador (UNESP), MBA em gestão de projetos (USP), licenciado em Filosofia, Sociologia, Pedagogia e Matemática. É secretário geral do CNLB Diocese de Franca, membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz e Doutor Livre em Teologia (FAINTE).


