
Há uma pergunta que deveria constranger qualquer sociedade que se autoproclama desenvolvida: por que tantos professores sonham em abandonar a sala de aula para dirigir um carro de aplicativo? Há aqueles que lecionam, com seus variados problemas e em suas horas vagas, são motoristas de aplicativos para complemento de renda. Contudo, há aqueles que querem deixar a educação para ser integralmente motorista de aplicativo. E aí, vem a pergunta: o que faz uma pessoa deixar todos seus anos de aquisição de conhecimento, estudos, pesquisas de uma graduação para ser um profissional que leciona, educa, orienta, motiva e inspira alguns estudantes buscarem o conhecimento, seus sonhos e serem futuros profissionais.
A resposta mais fácil seria dizer que tudo se resume ao salário. É verdade, mas é uma verdade incompleta. O dinheiro pesa, evidentemente. Nenhuma profissão sobrevive apenas de aplausos. Contudo, o problema do magistério brasileiro já ultrapassou a esfera econômica. O que está em colapso é o próprio significado social de ser professor. Hoje, a questão não é só financeiro e material para ser professor. A questão também é psicológica, emocional, moral e crítica em relação ao sistema socioeconômico que vive.
Durante décadas, repetimos que a educação era prioridade nacional. Transformamos esse discurso em slogan eleitoral, campanha publicitária e discurso de posse. Mas prioridade que precisa ser repetida continuamente talvez nunca tenha sido prioridade de fato. Há muitos discursos de retórica, mas pouca prática efetiva de valorização aos professores e professoras e melhores condições de trabalho.
A escola brasileira tornou-se um espaço onde quase todos cobram e poucos assumem responsabilidades. O professor deve ensinar, educar, acolher, mediar conflitos, preencher formulários, relatórios, planejamentos, supervisionar plataformas digitais, registrar indicadores, adaptar conteúdos, atender famílias, participar de formações, passar trabalhos e pesquisas, elaborar provas, corrigir provas, trabalhos e tarefas de casa, responder avaliações externas e, naturalmente, apresentar resultados cada vez melhores. Se possível, fazendo tudo isso com entusiasmo permanente. E para motivar o professor, romantizam a educação, principalmente a pública, que o professor deve inspirar o aluno, transformar a realidade da comunidade escolar que está inserido e estar feliz e contente com seu papel tão importante para a sociedade.
E a grande pergunta inevitável diante de tudo isso é: em que momento ele pode simplesmente ensinar? Criou-se, por isso, um curioso fenômeno administrativo. A educação passou a ser governada por planilhas, como o BI, gráficos, tabelas, habilidades e competências a serem desenvolvidas, conteúdos conforme Currículo Paulista e BNCC. Multiplicam-se indicadores, objetivos, resultados, metas e relatórios. A burocracia cresce exatamente na mesma proporção em que diminui o tempo destinado ao encontro humano entre professor e estudante.
E assim, não faltam documentos, falta silêncio para pensar. Não faltam plataformas, falta tempo para estudar, assimilar, debater, aprofundar e aprender de fato. E por conseguinte, não faltam avaliações, mas falta confiança em quem avalia diariamente há anos.
Existe uma diferença profunda entre controlar um sistema educacional e produzir educação. A primeira tarefa pertence aos gabinetes. A segunda acontece dentro da sala de aula, onde nenhuma inteligência artificial, nenhum decreto e nenhum algoritmo conseguem substituir a complexidade das relações humanas.
É nesse ambiente que nasce um pensamento aparentemente absurdo: “Talvez seja melhor dirigir um aplicativo.” A frase não representa apenas um cálculo financeiro. Ela simboliza uma ruptura psicológica. O professor não deseja trocar apenas de profissão, deseja recuperar o controle sobre a própria vida.
É curioso observar como o imaginário coletivo vende a economia dos aplicativos como sinônimo de liberdade. Pouco importa se essa liberdade vem acompanhada de jornadas de doze horas, combustível caro, manutenção do veículo, custos documentais e ausência de garantias trabalhistas. Quando alguém acredita que tudo isso ainda parece melhor do que permanecer na escola, talvez o problema não esteja no aplicativo.
Talvez esteja na escola que construímos. Vivemos em uma época paradoxal. Nunca se falou tanto em inovação, tecnologia e inteligência artificial. Empresas disputam profissionais qualificados, universidades anunciam cursos sobre o futuro e governos elaboram planos para a economia do conhecimento. Entretanto, tratamos justamente os profissionais responsáveis por formar esse futuro como peças facilmente substituíveis, que os esgotamos com tanta burocracia, pressão e cobranças.
Depois nos perguntamos por que faltam professores. Por que estamos à beira de apagão de professores? E já, está havendo o referido apagão. Uma grande maioria dos estudantes não querem ser professores. Acham a profissão desgastante, desmotivadora e não suportariam serem tratados com má educação por parte dos próprios estudantes, descaso, desrespeito, desconsideração, se não serem vítimas de violência de agressão física, ameaça, bullying ou qualquer outro tipo de possível humilhação.
A resposta não exige grandes pesquisas. Basta ouvir as salas dos professores durante o intervalo entre as aulas. O cansaço não é físico apenas. É moral, emocional e psicológico. Há quem diga que o professor precisa ser resiliente. A palavra tornou-se elegante porque evita discutir responsabilidade política. Resiliência passou a significar suportar o insuportável com um sorriso pedagógico.
Nenhuma categoria profissional deveria ser obrigada a transformar resistência em virtude permanente. A sociedade também contribui para esse processo. Muitos pais terceirizaram à escola funções que pertencem à família e, simultaneamente, reduziram a autoridade do professor. Espera-se que ele resolva problemas de comportamento, de aprendizagem, de convivência e até emocionais, mas questiona-se sua palavra diante da menor frustração do aluno.
Queremos professores heroicos, mas oferecemos condições burocráticas. Queremos excelência, mas naturalizamos a precariedade. O absurdo, como no caso do Estado de São Paulo, que tem professores temporários categoria O, sem FGTS, sem seguro desemprego, sem direitos iguais aos efetivos e categoria F, e ainda passarem por processo seletivo que ainda tem que pagarem para prestar, enviar vídeo de aula prática, fazer a prova e aguardar para ser chamado para atribuição que vai pode lecionar por no máximo três anos, e depois ficar de quarentena que não pode pegar aula, para depois prestar de novo o processo seletivo e voltar ao ciclo da precarização.
Queremos inovação, mas economizamos exatamente onde ela começa: na valorização de quem ensina. O Brasil está em último lugar comparado com professores de outros países, os desenvolvidos e até em desenvolvimento e até em comparação aos demais países da América do Sul. O piso salarial de R$ 5130,00, equivalente a 3,16 salários mínimos ainda não é o suficiente para o professor manter-se a si próprio com sua família, a não ser que seu cônjuge trabalhe também, e aí possam alcançar o mínimo que consta no artigo 5º da Constituição Federal, para uma mínima dignidade de vida para alimentação, vestuário, lazer, educação, saúde, higiene, moradia, previdência social e ainda ter a reserva (economias) orientada da educação financeira para investir e para gastos urgentes imprevisíveis (carro, remédios, acidentes, consertos de eletrodomésticos).
Há uma ironia cruel nisso tudo. O professor continua sendo cobrado para formar cidadãos críticos, enquanto ele próprio trabalha em um sistema que frequentemente o desestimula, bombardeia o seu pensamento crítico sobre suas próprias estruturas.
Talvez seja esse o maior fracasso da educação contemporânea: não a aprendizagem dos estudantes, mas a perda gradual da esperança dos educadores. Quando um professor passa a acreditar que encontrará mais dignidade dirigindo desconhecidos pelas ruas do que conduzindo jovens pelo conhecimento, o problema deixou de ser individual.
É um sintoma de uma sociedade que perdeu a capacidade de reconhecer o valor da inteligência antes de sentir falta dela. E esse é o tipo de erro que nenhuma reforma curricular consegue corrigir. Porque escolas não fracassam quando faltam computadores. Elas fracassam quando começam a perder aqueles que ainda acreditavam que ensinar era uma forma de construir o futuro.
Se um país transforma o volante em símbolo de esperança e a sala de aula em símbolo de desencanto, talvez não estejamos vivendo apenas uma crise educacional. Talvez estejamos testemunhando o momento em que a sociedade decide, silenciosamente, que o futuro vale menos do que imaginava.
Lúcio Rangel Ortiz, professor da rede pública paulista, gestor público educacional (coordenador pedagógico substituto municipal), conselheiro regional suplente da APEOESP Subsede Franca, pesquisador mestre em planejamento e análise de políticas públicas (UNESP), escritor e colunista do Portal FNT – Intelecto Saber.


