
Em 4 de outubro de 2026, mais de 155 milhões de brasileiros estarão diante de uma urna eletrônica. Cada eleitor fará seis escolhas: deputado federal, deputado estadual ou distrital, dois senadores, governador e presidente da República. Caso seja necessário segundo turno para presidente ou governador, a nova votação ocorrerá em 25 de outubro.
À primeira vista, tudo parece caber em uma palavra: escolher. Mas a democracia talvez comece justamente quando fazemos uma pergunta anterior à escolha: escolher com base em quê? Essa é uma questão que merece ser levada mais a sério nas eleições de 2026. Perguntamos frequentemente em quem determinada pessoa pretende votar, mas raramente perguntamos por que ela fará essa escolha. A diferença entre as duas perguntas parece pequena, mas pode revelar a qualidade da própria democracia.
Em conversas familiares, ambientes de trabalho, mesas de bar e redes sociais, a discussão política muitas vezes se afasta das propostas concretas e se aproxima da lógica do confronto por causa da polarização e “bolhas” eleitorais de determinadas ideologias. Fala-se muito sobre quem derrotou quem em um debate, quem produziu a frase mais agressiva, quem viralizou ou quem conseguiu ridicularizar melhor o adversário, “quem lacrou melhor para postar nas redes sociais”, quem está performando melhor na Internet. Enquanto isso, questões fundamentais para o futuro do país recebem menos atenção: educação, emprego, saúde, segurança pública, previdência social, políticas sociais, equilíbrio das contas públicas, infraestrutura, saneamento, qualificação profissional, inteligência artificial, envelhecimento da população e transformação do mercado de trabalho.
Uma política pública exige dados, orçamento, prioridades, indicadores, avaliação e compreensão das consequências. Já, um insulto exige poucos segundos com as chamadas “bravatas” pitorescas de políticos cômicos, senão sabotadores da qualificação da própria democracia, que pretendem persuadir os desavisados, os alienados, os propagadores de fakenews com más intenções, os maliciosos que se colocam “anti sistema”, mas que na verdade querem forjar um fascismo na sociedade.
A política contemporânea percebeu essa diferença. E os algoritmos das redes sociais também. Conteúdos que provocam indignação, medo ou identificação emocional frequentemente são mais fáceis de consumir do que propostas complexas para os problemas reais. A consequência pode ser perigosa: o eleitor deixa de ser tratado como cidadão capaz de julgar e passa a ser tratado como integrante de uma torcida.
A política transformada em futebol produz uma divisão aparentemente simples entre “nós” e “eles”, “bons” e “maus”, “inteligentes” e “ignorantes”, “democratas” e “autoritários”. O problema é que, quase sempre, reservamos os melhores adjetivos para o nosso próprio grupo.
Freud já havia observado, no seu livro Psicologia das massas e análise do eu, como indivíduos incorporados a grupos podem reorganizar sentimentos, identificações e julgamentos em torno de líderes e coletividades. Na política contemporânea, esse mecanismo pode atingir um nível ainda mais intenso: o candidato deixa de ser apenas um candidato e passa a fazer parte da identidade do eleitor. Assim, uma crítica dirigida ao político é recebida como se fosse uma ofensa pessoal.
É nesse momento que desaparece uma das funções mais importantes do eleitor: fiscalizar. O cidadão que deveria cobrar, transforma-se em defensor que justifica, relativiza, explica e perdoa deslizes. O comportamento que seria imediatamente condenado quando atribuído ao adversário encontra justificativas sofisticadas quando praticado pelo próprio grupo como se fosse intempestivos inquisidores da família, da liberdade, da Pátria e dos bons costumes.
Talvez esse seja um dos grandes problemas da democracia contemporânea: deixamos de ter apenas candidatos e passamos a ter pertencimentos. E pertencimentos são muito mais difíceis de discutir do que programas de governo. Também é insuficiente explicar os problemas eleitorais brasileiros pela suposta ignorância do eleitor. Ter pouca escolaridade não significa necessariamente incapacidade de discernimento político, assim como possuir diploma não garante pensamento crítico. A verdadeira diferença talvez esteja entre aqueles que examinam uma afirmação e aqueles que sentem necessidade de acreditar nela, ou pior, fazerem escolhas políticas por preconceitos e discriminações, por xenofobia, “barrismo”, misoginia e contra minorias.
É aqui que a reflexão de Hannah Arendt permanece atual. Pensar não consiste simplesmente em acumular informações. Pensar significa interromper automatismos, comparar, questionar, julgar e desconfiar. Uma democracia madura depende de cidadãos capazes de formular perguntas simples. Como sabemos que essa proposta funcionará? Quanto custará? Quem pagará? Onde ela já foi implementada? Qual é o prazo? Como seus resultados serão medidos? E o que acontecerá caso dê errado?
Perguntas assim talvez sejam mais importantes para uma eleição do que milhares de horas de propaganda. E há ainda outro problema: o eleitor frequentemente é tratado como consumidor. A linguagem da política passa a se aproximar da publicidade. Falam-se em benefícios, isenções, subsídios, créditos, auxílios, descontos e programas. Evidentemente, políticas sociais são necessárias em uma sociedade marcada pela desigualdade. O problema começa quando aquilo que é direito ou política pública passa a ser percebido como favor pessoal do governante. Daí, que nasce o clientelismo, o assistencialismo e a dependência de curral eleitoral.
Direito não é presente. Programa de Estado não é generosidade particular. Dinheiro público não pertence ao político que anuncia sua utilização. Pertence à sociedade. Um presidente não “dá” dinheiro. Um governador não “dá” escola. Um deputado não “dá” hospital. Um prefeito não “dá” asfalto. Esses agentes públicos administram recursos arrecadados dos próprios cidadãos que pagam seus tributos.
Quando o político consegue transformar recurso público em demonstração pessoal de benevolência, abre-se espaço para aquilo que a ciência política reconhece como clientelismo: uma relação política baseada na troca particularista de benefícios, em lugar da disputa por políticas públicas universais e programáticas. Autores como Herbert Kitschelt, Steven Wilkinson e Edson de Oliveira Nunes ajudaram a compreender diferentes dimensões desse fenômeno.
Talvez, por isso, seja necessário mudar a pergunta dirigida aos candidatos. Em vez de perguntar “o que você vai me dar?”, talvez devêssemos perguntar: “que política é essa que produzirá daqui a dez anos?” Essa mudança de perspectiva conduz a outra questão: o individualismo eleitoral.
Queremos reduzir gastos públicos, mas não necessariamente os gastos que nos beneficiam. Queremos impostos menores, mas serviços públicos melhores. Defendemos o fim de privilégios, desde que não sejam os nossos. Desejamos equilíbrio fiscal sem abrir mão das vantagens particulares. Queremos um Estado menor quando ele cobra e maior quando distribui e universaliza os direitos pelas políticas públicas.
Interesses individuais fazem parte da natureza humana. O problema surge quando a democracia deixa de funcionar como negociação entre interesses legítimos e se transforma em disputa para transferir os custos para os outros. É nesse ponto que a experiência mental proposta por John Rawls, conhecida como “véu da ignorância”, oferece uma provocação poderosa. Imagine que você precisasse estabelecer as regras de uma sociedade sem saber antecipadamente qual posição ocuparia nela. Não saberia se seria rico ou pobre, saudável ou doente, privilegiado ou vulnerável.
Aplicada à política, a pergunta seria desconfortável: você defenderia determinada medida se não soubesse de antemão se seria beneficiado por ela ou se estaria entre aqueles que pagariam seus custos? Talvez justamente por ser desconfortável essa seja uma das perguntas mais democráticas que podemos fazer. Outra questão merece atenção: quem deseja ser político e por quê?
A política transformou-se, para muitos, em carreira. Vereador, deputado, prefeito, novamente deputado, governador, senador, presidente e, depois, novamente outro mandato ou outro cargo. A experiência institucional pode ser valiosa e políticos profissionais não são necessariamente maus governantes. Mas é legítimo perguntar o que ocorre quando uma pessoa passa décadas dependente econômica, social e politicamente da própria atividade política.
Quando a preservação da posição passa a competir com o interesse público, a lógica do serviço pode ser substituída pela lógica da sobrevivência política. A desconfiança dos cidadãos em relação às instituições também não nasceu do vazio. O problema da corrupção alimenta o desencanto e favorece a generalização de que “todos são iguais”. Mas essa conclusão, aparentemente cínica e sofisticada, pode produzir um efeito profundamente antidemocrático.
Se todos são corruptos, para que investigar? Se todos são iguais, por que comparar? Se nada mudará, por que cobrar? O cinismo político, muitas vezes, parece inteligência. Mas pode ser apenas desistência. E a desistência beneficia justamente aqueles que mais deveriam ser fiscalizados.
Outro fenômeno chama atenção: a personalidade presidencial domina a atenção pública enquanto os cargos legislativos frequentemente são tratados como escolhas secundárias. O eleitor costuma saber rapidamente em quem votará para presidente, mas pode hesitar quando questionado sobre seus candidatos a senador, deputado federal ou deputado estadual.
É uma contradição importante. Em 2026 serão eleitos 513 deputados federais, 1.035 deputados estaduais e 54 senadores. Esses parlamentares participarão diretamente da elaboração das leis, aprovação do orçamento, fiscalização do Executivo e decisões institucionais que poderão produzir consequências muito além do mandato presidencial. Ainda assim, o processo eleitoral muitas vezes se concentra excessivamente em uma única figura nacional: o Presidente da República.
Talvez precisemos reaprender o significado dos cargos. Presidente não é monarca. Governador não governa sozinho. Senador não é simplesmente um deputado com mandato mais longo. Deputado não deveria funcionar como despachante particular de eleitor. A democracia não consiste em encontrar um salvador capaz de resolver tudo. Isso é uma ilusão e uma fantasia. Políticos não vão resolver todos os problemas da sociedade, mas devem representar a sociedade na busca de resolução de seus problemas. O que não pode normalizar ou naturalizar que todos são corruptos, todos são iguais, não adianta escolher o político porque podem e vão decepcionar.
Ora, os políticos são seres humanos, ou seja, não são perfeitos e eles ocupam seus cargos, que em tese, para resolver os problemas do dia a dia em nome da coletividade e da sociedade. Caso errem ou decepcionem, a democracia proporciona possibilidade de trocá-los. Por isso que os cargos políticos eletivos são de natureza temporária. E isso é, perfeitamente, normal no decorrer do andamento das instituições democráticas.
Robert Dahl destacou a importância das instituições, da competição política, da pluralidade de informações e da participação cidadã. Em uma democracia, instituições importam mais do que personalidades messiânicas. Também é preciso observar a relação que o candidato mantém com o poder. Como reage à crítica? Reconhece erros? Aceita o contraditório? Tolera uma imprensa hostil? Respeita as instituições quando perde? Consegue responder sem insultar? Aceita regras que eventualmente o prejudicam? Explica os números que apresenta? Mantém ao seu redor apenas pessoas que concordam com ele?
Nada disso determina automaticamente em quem alguém deve votar. Mas essas atitudes revelam muito sobre quem deseja governar. O poder raramente melhora o caráter, mas o revela. Com frequência, ele amplia aquilo que já existe.
Quem não suporta o contraditório quando possui pouco poder dificilmente se tornará mais tolerante quando tiver milhares de subordinados. Quem não respeita limites quando está em campanha não necessariamente passará a respeitá-los quando estiver diante de bilhões de reais em orçamento.
O poder é uma lupa moral. Nós, porém, insistimos em tratá-lo como prêmio. Talvez por isso seja perigoso transformar cada eleição em uma batalha definitiva entre o bem e o mal. Democracias precisam permitir que adversários percam hoje e disputem novamente amanhã. O derrotado precisa continuar fazendo parte da sociedade. Quem vence deve compreender que sua vitória não significa a eliminação do outro.
Quando toda eleição é apresentada como uma batalha final, a própria democracia se fragiliza. Então, como escolher? Não cabe à coluna dizer ao eleitor em quem votar. A questão intelectualmente relevante é outra: qual atitude devemos levar para diante da urna? Talvez devêssemos observar o candidato como observaríamos alguém contratado para administrar algo muito valioso. Porque, em certo sentido, é exatamente isso que fazemos. Entregamos a representantes políticos a administração de recursos públicos, instituições e decisões que pertencem a toda a sociedade.
Por isso, não basta perguntar o que o candidato promete. É preciso perguntar o que ele fez quando teve poder. Não basta perguntar quanto pretende gastar. É preciso saber de onde virá o dinheiro. Não basta identificar os problemas que ele denuncia. É necessário verificar se compreende suas causas e consequências.
Curiosamente, entregamos a desconhecidos a administração de bilhões de reais sem aplicar a eles o mesmo grau de diligência que utilizaríamos para contratar um executivo responsável por uma fração desse patrimônio. Talvez o problema não esteja apenas em Brasília. Talvez uma parte dele esteja diante da própria urna.
E se ninguém servir? Essa pergunta certamente aparecerá muitas vezes em 2026. Não gostar de nenhum candidato é uma possibilidade real. Democracias não oferecem candidatos perfeitos. Elas oferecem alternativas dentro de regras institucionais que permitem escolha, alternância, fiscalização e responsabilização. A política é, frequentemente, uma escolha imperfeita.
Max Weber, em A política como vocação, distinguiu a ética da convicção da ética da responsabilidade. Convicções são importantes, mas governar significa também responder pelas consequências das decisões tomadas. Talvez seja esse um dos critérios mais importantes para o eleitor: menos interesse por promessas de pureza absoluta e mais atenção à capacidade concreta de compreender as consequências das próprias escolhas.
Em outubro, cada eleitor estará sozinho diante da urna. Nenhum influenciador estará ali. Nenhum candidato estará ao seu lado. Nenhuma multidão poderá pressioná-lo. Não haverá grupo de WhatsApp, torcida organizada ou algoritmo decidindo por ele. Por alguns segundos, haverá apenas o eleitor, a urna e a própria consciência.
Talvez essa seja uma das raras situações da vida contemporânea em que ninguém precisa saber o que você decidiu. E talvez seja justamente por isso que o voto continue sendo, antes de tudo, uma escolha de consciência. Mais do que perguntar em quem votar, a democracia exige que saibamos por que estamos votando. Porque votar não é apenas escolher um nome. É escolher, ainda que parcialmente, o país que aceitamos construir.
Lúcio Rangel Ortiz é mestre em planejamento e análise de políticas públicas e pesquisador (UNESP), MBA em gestão de projetos (USP), advogado, escritor, graduado em Administração Pública e Filosofia e pós-graduado em ensino de sociologia pela Universidade Federal de São João Del (UFSJ), pós-graduado em gestão pública (UFSCar), gestor público educacional e colunista no Portal FNT – Intelecto Saber.


