
A trajetória do cinema brasileiro é um roteiro complexo e fascinante, repleto de dramas, comédias, superproduções e, acima de tudo, uma busca constante por identidade. Desde seus primeiros passos tímidos no início do século XX até a maturidade de hoje, o cinema nacional se reinventou, superou crises e se consolidou como uma voz importante no cenário global.
As primeiras projeções e a “Bela Época”
A primeira sessão de cinema no Brasil aconteceu em 1896, no Rio de Janeiro, com a exibição de curtas-metragens dos irmãos Lumière. Em pouco tempo, a produção nacional começou a se desenvolver, principalmente com filmes de curta duração. A chamada “Bela Época” do cinema brasileiro, no período da Belle Époque carioca, foi marcada por obras como “Os Estranguladores” (1908), de Antônio Leal, considerado um dos primeiros filmes de ficção brasileiros, e “O Crime dos Banhados” (1914), de Francisco de Almeida. Eram produções modestas, mas que já mostravam o interesse em explorar narrativas e a realidade local.

A busca por uma identidade
O período que se seguiu foi de altos e baixos, com a produção cinematográfica tentando encontrar um modelo de negócio sustentável e uma estética própria. No meio do caminho, surgiram filmes que se tornaram marcos. “Limite” (1931), de Mário Peixoto, é um exemplo radical e poético, um filme experimental que se destacou por sua ousadia estética e que, por décadas, foi considerado um clássico cult. A década de 1930 também trouxe as chanchadas, comédias musicais de grande sucesso popular. Filmes como “A Voz do Carnaval” e “Ganga Bruta” (1933), ambos de Humberto Mauro, demonstram a diversidade do cinema da época. As décadas de 1940 e 1950 continuaram essa mescla de gêneros, com filmes como “Moleque Tião” (1941), “Tristezas Não Pagam Dívidas” (1944), “Brasil” (1945) e “Carnaval no Fogo” (1949), que pavimentaram o caminho para a consolidação da indústria.

O Cinema Novo e o reconhecimento internacional
Se a indústria nacional já vinha se solidificando, foi com o Cinema Novo na década de 1960 que o cinema brasileiro alcançou um patamar de reconhecimento internacional sem precedentes. Com a proposta de “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, cineastas como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Cacá Diegues criaram obras que exploravam as questões sociais e políticas do Brasil de forma contundente.

A partir desse momento, a produção nacional passou a ser celebrada em festivais pelo mundo. “O Cangaceiro” (1953), de Lima Barreto, ganhou o prêmio de Melhor Filme de Aventura em Cannes. Em seguida, a Palma de Ouro para “O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo Duarte, marcou um momento histórico, sendo a única vez que um filme brasileiro conquistou o prêmio máximo do Festival de Cannes. O próprio Glauber Rocha, com “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) e “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (1968), este último premiado como Melhor Diretor em Cannes, levou a estética do Cinema Novo para o mundo. “Macunaima” (1969) foi também um filme que marcou na época pela sua repercussão.

O filme “Orfeu Negro” (1960), uma coprodução da França – Brasil – Itália, também ganhou a Palma de Ouro e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, mostrando o potencial das parcerias internacionais. O filme foi premiado direcionado para a França, mas o Brasil fez parte da obra. Ressalta-se que o filme foi feito em língua portuguesa e atuado por atores e atrizes brasileiros.

A busca por uma identidade nacional continuou nas décadas seguintes. Filmes de diferentes gêneros e temas conquistaram público e crítica, como a comédia romântica “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), de Bruno Barreto, que se tornou um fenômeno de bilheteria e apresentou Sônia Braga ao mundo, e o drama “A Dama do Lotação” (1978). Na época, outro filme de grande repercussão na bilheteria foi “O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão” (1979) com Renato Aragão, Dedé Santana, Zacarias e Mussum, por causa da popularidade que tinham com o programa humorístico “Os Trapalhões” da TV Globo.

Na década de 1980, “Pixote, a lei do mais fraco” (1980) ( venceu Festival Internacional de Locarno, Suíça), 1981 — Leopardo de Prata para Hector Babenco; Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles – LAFCA, 1981 — Melhor Filme Estrangeiro; Associação de Críticos de Nova Iorque – NYFCC, 1981 — Melhor Filme em Língua Estrangeira; Associação de Críticos de Boston – BSFC, 1982 — Melhor Filme e Melhor Atriz (Marília Pêra); Associação Nacional de Críticos dos Estados Unidos – NSFC, 1982 — (Melhor Atriz para Marília Pêra).

O documentário “Jango” (1984) recebeu prêmios: Troféu Margarida de Prata (1984), Festival de Gramado (1984 – Prêmio Especial do Júri, Prêmio de Público, Melhor Trilha Sonora), Festival do Novo Cinema Latino Americano em Havana (1984) e Festival da Nova Delí, Índia (1985).

A coprodução “O Beijo da Mulher Aranha” (1986) de Estados Unidos e Brasil, com direção do argentino naturalizado brasileiro Hector Babenco, deu a William Hurt o Oscar de Melhor Ator. Venceu o Cannes de Melhor Ator, além de BAFTA, Independent Spirit e diversos prêmios da crítica, sendo até hoje um dos filmes brasileiros de maior repercussão mundial.

Da Retomada aos sucessos contemporâneos
Após um período de crise e declínio do Cinema Novo, a partir da década de 1990 o cinema brasileiro viveu a Retomada. A produção se diversificou, combinou filmes de arte com blockbusters, e a qualidade técnica e narrativa alcançou um novo patamar. Filmes como “Ilha das Flores” (1989), um curta-metragem premiadíssimo; “O Quatrilho” (1996) e “O que é isso, companheiro?” (1998) foram indicados ao Oscar, que deram projeção do Brasil para o mundo do cinema.

Mas foi com “Central do Brasil” (1999) que o cinema nacional se reconectou com o grande público e crítica, pois conquistou o Globo de Ouro e indicações ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz, para a icônica Fernanda Montenegro. No Festival de Berlim (1998), ganhou os prêmios: Urso de Ouro – Melhor Filme, Urso de Prata – Melhor Atriz (Fernanda Montenegro), Globo de Ouro (1999-Melhor Filme Estrangeiro), Prêmio BAFTA (1999 – Melhor Filme em Língua Estrangeira); Prêmios da Associação de Críticos (Recebeu distinções em Nova York, Los Angeles e outras associações de críticos de cinema). No Festival de Havana (1998), ganhou prêmio de Melhor Filme e Melhor Atriz (Fernanda Montenegro).

No ano 2000, o filme “O Auto da Compadecida” fez o maior sucesso com público em bilheteria e crítica. Arrecadou 14 milhões de reais e teve grande repercussão, que se destacou pelo humor inteligente, fidelidade à obra de Ariano Suassuna, e pelo retrato da cultura nordestina e da religiosidade popular.
No novo milênio, o cinema brasileiro seguiu colecionando êxitos. O curta “Uma História de Futebol” (2001) foi indicado ao Oscar, o que foi novidade e teve vários prêmios nacionais, inclusive Festival de Gramado.

Já, o filme “Cidade de Deus” (2004), de Fernando Meirelles e Kátia Lund, se tornou um fenômeno global. O filme se destacou no cenário mundial com sua narrativa frenética e estética inovadora, recebendo quatro indicações ao Oscar de 2004: Melhor Direção, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição e Melhor Fotografia. Embora não tenha levado nenhuma estatueta, o filme cimentou a relevância do cinema brasileiro, e recebeu diversos prêmios internacionais, como o BAFTA de Melhor Montagem (Melhor Edição e Melhor Filme Estrangeiro), Festival de Havana (Melhor Diretor e Melhor Edição), Prêmio de Associação dos Críticos de Los Angeles (Melhor Fotografia). O filme também foi aclamado pela crítica, sendo eleito pelo New York Times como o 15º melhor filme do século, e pelo site Collider como o melhor filme internacional de gangster. Em 2004, a revista britânica Empire colocou Cidade de Deus na lista dos 100 Melhores Filmes do Cinema Mundial. Em 2008, a mesma revista o elegeu o 177º melhor filme de todos os tempos. Em 2010, foi classificado pelo site IMDb entre os 20 melhores filmes da história (continua entre os mais bem avaliados). Em 2014, foi eleito pela British Film Institute (BFI) e pela revista Sight & Sound como um dos 100 filmes mais inovadores da história do cinema mundial, por sua linguagem narrativa, edição frenética e estética próxima ao documentário. Em 2016, o filme foi incluído na lista da BBC dos 100 melhores filmes do século XXI.

“Diários de Motocicleta” (2005), dirigido pelo diretor brasileiro Walter Salles, foi outro grande sucesso internacional, recebendo o Oscar de Melhor Canção Original. O filme foi fruto da parceria dos Estados Unidos, Brasil, França, Alemanha, Chile, Argentina e Peru. Praticamente, um filme de caráter internacional que conta a história da juventude de Che Guevara com seu amigo Alberto Granado, baseado no livro Traveling with Che Guevara: The Making of a Revolutionary. Além do Oscar, venceu os prêmios Bafta (melhor filme estrangeiro e melhor trilha original), Independent Spirit Awards e Festival Internacional do Cinema de San Sebastián.

O cinema nacional também se destacou em bilheteria com filmes como “Se eu fosse você” (2006) “Se Eu Fosse Você 2” (2009), a franquia “Tropa de Elite” (2007), “Tropa de Elite 2: o inimigo agora é outro” (2010), e “Minha Mãe É Uma Peça” (2013), “Minha mãe é um peça 2” (2016) e “Minha Mãe É Uma Peça 3” (2020), que bateram recordes de público.

A produção de documentários e animações também se mostrou muito forte, com títulos aclamados como “O Sal da Terra” (2015), sobre o fotógrafo Sebastião Salgado, e “Rio” (2012), uma animação de sucesso mundial, que teve participação do diretor brasileiro Carlos Saldanha e ganhou prêmios: melhor filme de animação pela Critics’ Choice Movie Awards 2012 e venceu em Filme Favorito de Animação por Kids’ Choice Awards 2012. Apesar de ser considerado “Rio” filme estadunidense, teve muitos brasileiros envolvidos na produção.

O cinema brasileiro também provou sua força em produções épicas e biográficas, como “Os Dez Mandamentos” (2016) e “Nada a Perder” (2018), que alcançaram grande sucesso de bilheteria, sendo este último o filme brasileiro com maior bilheteria de todos os tempos (mais de 51 milhões de reais).

Os dois filmes tiveram participação na sua produção pela TV Record. Houve sequência com “Nada a Perder 2” (2019), com a cinebiografia do pastor Edir Macedo da Igreja Universal do Reino de Deus. A TV Record mostrou seu poder e capacidade para grandes produções cinematográficas.

Na época da pandemia, o aclamado “Democracia em Vertigem” (2020) foi indicado ao Oscar de Melhor Documentário, e consolidou a força da produção brasileira em diferentes gêneros. Recebeu menções especiais e prêmios da crítica em festivais como CPH:DOX e Hot Docs (Canadá) e Festival Internacional de Documentários de Sydney (Australia), classificado como um dos melhores documentários do ano por revistas como The Hollywood Reporter e Variety.

Outro filme, “Manas” (2024), que ganhou visibilidade internacional com o apoio de celebridades, aborda a dolorosa realidade da violência e exploração sexual de crianças e adolescentes na Ilha de Marajó, no Estado do Pará. Dirigido por Marianna Brennand, o filme é o resultado de uma década de pesquisa na região, o que lhe confere um profundo senso de autenticidade.Aclamado por sua direção cuidadosa e pela atuação impressionante da jovem atriz Jamilli Correa, o filme conquistou o Prêmio Principal da Giornate degli Autori, mostra independente do Festival de Veneza, e acumulou mais de 20 prêmios internacionais. “Manas” é um marco do cinema nacional por tratar um assunto complexo com respeito e profundidade, e reforça a relevância do cinema brasileiro no cenário mundial.

Outro filme, “O Último Azul” (2025), com Rodrigo Santoro e Denise Weinberg, ganhou os prêmios: Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale, 2025 – Urso de Prata – Grande Prêmio do Júri, Prêmio do Júri Ecumênico, Prêmio do Júri de Leitores do Berliner Morgenpost), Festival Internacional de Cinema de Guadalajara – México (Melhor Filme Ibero-Americano de Ficção e Melhor Interpretação para a atriz Denise Weinberg).
Ao olhar para o futuro, o cinema brasileiro chama atenção

O reconhecimento do filme “Ainda Estou Aqui” venceu o prêmio de Melhor Filme Internacional no Oscar de 2025, além de ter sido aclamado em diversos festivais internacionais, em destaque a Fernanda Torres, a protagonista do filme. O filme, além do Oscar, ganhou os seguintes prêmios: Festival de Veneza (2024 – Melhor Roteiro), Globo de Ouro (Fernanda Torres ganhou como Melhor Atriz de Drama), Prêmio Goya 2025 (Melhor Filme Ibero-Americano), Festival Internacional de Cinema de Roterdã (Prêmio do Público), Festival Internacional de Cinema de Santa Bárbara – Estados Unidos (Fernanda Torres recebeu o prêmio Virtuoso), Gold Derby Film Awards (Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Roteiro Adaptado, e Melhor Atriz -Fernanda Torres), Prêmio Platino de Cinema Ibero-Americano (Ganhou Melhor Filme, Melhor Atriz: Fernanda Torres e Melhor Direção: Walter Salles), Cinema for Peace Awards (Recebeu o prêmio de Filme Mais Valioso do Ano em Berlim), Latino Entertainment Film Awards (Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Atriz).

Outra grande aposta é “O Agente Secreto“, que venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2025 (Melhor Diretor: Kleber Mendonça Filho, Melhor Ator: Wagner Moura, Prêmio FIPRESCI – Federação Internacional dos Críticos de Cinema e Prix des Cinémas d’Arte et Essai) e Festival de Cinema de Lima (Peru) com melhor filme do júri oficial e melhor filme pela Crítica Internacional (Júri de Crítica). O filme, que tem sido ovacionado pela crítica nacional e internacional por sua trama de espionagem complexa e direção impecável, é cotado como o grande favorito para o Oscar de Melhor Filme Internacional de 2026.

Enfim…
O cinema brasileiro mostra ao mundo sua capacidade de expressar a sétima arte com criatividade, inovação, originalidade, cultura, identidade e perspicácia, uma vez que tem cineastas, roteiristas, diretores, atores, atrizes e profissionais cinematográficos capazes de produzirem histórias e narrativas que emocionam, que surpreendem e que encantam os admiradores da magia das “telonas” do entretenimento.
Lúcio Rangel Ortiz – escritor, advogado consultor e assessor jurídico, professor mestre em planejamento e análise de políticas públicas e pesquisador (UNESP), MBA em gestão de projetos (USP), palestrante e colunista do Portal Fato no Ato (Intelecto Saber) e do Portal Recanto das Letras.


