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    No fio do bigode, eram tempos de verdade

    Cairo StillBy Cairo Still19 de janeiro de 2025Updated:1 de junho de 2025

    Na lida diária com o direito nos deparamos muito cedo com situações nas quais pessoas de mais idade selaram acordos e combinados verbalmente, no “fio do bigode”, como se dizia antigamente para a palavra fiel de homens honrados.

    Dar a própria palavra, para garantir um pagamento, para concluir uma promessa de casamento e tantos outros negócios jurídicos era motivo de honra e traduzia confiança entre pessoas que levavam a vida de modo a não prejudicar a ninguém.

    A palavra soada ao vento não fazia curvas, não voltava atrás e não se esquecia. A prova testemunhal era fiel, pois a palavra de alguém perante uma autoridade era prenúncio da verdade, ante a admoestação do falso testemunho.

    Esses tempos foram retratados com particular interesse por Roberto Nunes Rocha, em “Fio do Bigode”, pela editora Ribeirão Gráfica e Editora, ao contar a história de Juca Barba, conhecido por ser homem de uma só palavra, cujos negócios eram fechados e cumpridos tão só pela sua palavra, nada mais sendo necessário. Juca Barba é um retrato ruralista de homem hoje quase inexistente, pois ai daquele que não se assegura de contratar por escrito, de tomar garantia em bens ou de provar por outros meios para não ficar à mercê da palavra de testemunhas, que nem sempre viram ou sabem, mas que sempre se colocam a testemunhar.

    Eram tempos em que vivíamos a verdade, e ela, como cristianamente se diz, era libertadora. A liberdade que hoje tanto se conclama era tida através disso: verdade, honra e palavra.

    Na última semana, contudo – numa escalada sobre o que escrevemos na última coluna -, provamos uma vez mais do poder que a palavra adquire em tempos de mídias sociais, como forma de colocar em dúvidas políticas públicas consolidadas e tornar propostas sérias em medo desvairado.

    Antecipamos a dizer que não defendemos a censura e muito menos tolher as discussões necessárias sobre aperfeiçoamento de nossos governos e sociedade, mas existe um limite e ele veio sendo ultrapassado, por várias e várias vezes.

    A mentira da vez foi a taxação do PIX, pela simples dúvida de que seria cobrada tarifa pela sua realização, quando isto sequer foi cogitado por quaisquer dos Poderes. A intenção era clara: desinformar!

    Ouso dizer que quem propagou tal desinformação não pode ser levado a sério, lhe falta fio de bigode! Metáforas de lado, faltou brio, honra e sensatez, pois a crítica, na forma como veiculada, é prejudicial não só aos nossos cidadãos, mas também à nossa imagem como País pioneiro na criação desse meio de pagamento instantâneo como o PIX, disputando lado a lado com o papel-moeda.

    A falta da verdade é estratégia política, tornando-se método em falsear histórias e reputações.

    Uma pesquisa da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que entrevistou 40.756 pessoas, em 21 países, identificou que o Brasil é um dos países em que as pessoas mais acreditam em notícias falsas, sendo que 85% dessas pessoas obtém informações através de redes sociais e não consultam nenhuma outra fonte de informação.

    Isto contrasta com a pesquisa Edelman Trust Barometer na qual aponta-se que o Brasil possui 81% dos entrevistados preocupados com notícias falsas. Ou seja, o Brasil é um dos países que mais dissemina notícias falsas com as quais sua população mais irá se preocupar. Uma receita bastante autofágica.

    Hoje em dia, a desconfiança é tamanha que não se admite a prova testemunhal em qualquer hipótese. Existe um limite, inclusive relacionado ao valor do negócio, para se acreditar na palavra dos cidadãos. Os bigodes foram sepultados como sinal de honra, hoje são apenas adereços estéticos, sem qualquer metáfora que os relacione com palavra dada ser palavra cumprida.

    E quando a palavra, por si só, não é suficiente para que nossas relações sociais encontrem pacificação, entre a tirania das meias-verdades e a estrangulação da palavra, pela censura, só há um caminho.

    É o que dizia Lacordaire, ao afirmar que “entre os fortes e fracos, entre ricos e pobres, entre senhor e servo é a liberdade que oprime e a lei que liberta”. Só a lei – palavra tornada ideal de perseguição comum, para fomentar ou evitar ações – é que pode nos trazer a liberdade de volta.

    Hoje, vivemos na falsa impressão de sermos livres, mas estamos sempre sujeitos a um viés determinado pelo algoritmo. Assim, só o poder e império da lei farão com que se reflita mais demoradamente antes de viralizar um vídeo ou informação capaz de destruir nações, pelo seu descompromisso com a verdade.

    PARA VER: Jurado nº 2 (2025, Clint Eastwood, na Max)

    PARA OUVIR: Lua girou (Milton Nascimento – 1976) – “Sustenta palavra de homem / que eu mantenho a de mulher“

    PARA LER: Fio de barba: no tempo em que palavra era documento (Roberto Nunes Rocha, Editora Ribeirão Gráfica e Editora, 2023)

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