
Existe uma sedução irresistível em torno da palavra “participação”. Ela transmite pertencimento, diálogo, respeito e maturidade institucional. Afinal, quem seria contra ouvir as pessoas? No entanto, como acontece com quase todas as grandes ideias, o excesso pode transformá-la em seu oposto.
Vivemos um tempo em que a horizontalidade se tornou um valor quase absoluto. Quanto mais descentralizada parece ser uma organização, mais moderna ela é considerada. Porém, existe uma diferença fundamental entre construir uma gestão participativa e transformar qualquer decisão em uma assembleia permanente.
A democracia não é a ausência de liderança. Nunca foi. Por mais que queiram democratizar empresas, instituições e até escolas e universidades, muitas vezes, confundimos participação com ausência de critérios, e inauguramos uma curiosa forma de injustiça: colocamos no mesmo plano a opinião construída após décadas de experiência e a impressão de quem acabou de chegar ao tema. Não porque toda opinião tenha o mesmo peso, mas porque todo indivíduo merece respeito. São coisas diferentes.
Essa distinção parece desconfortável em uma sociedade acostumada a celebrar a igualdade em qualquer circunstância. Contudo, igualdade de dignidade jamais significou igualdade de conhecimento. Há decisões que exigem escuta ampla. Outras exigem rapidez. Algumas dependem da criatividade coletiva. Outras precisam da precisão técnica de quem estudou, pesquisou, experimentou e errou inúmeras vezes antes de chegar a uma conclusão.
A liderança tradicional errou durante décadas ao acreditar que o cargo conferia sabedoria automática. Muitos gestores confundiram autoridade com infalibilidade. Cercaram-se de silêncio e interpretaram a ausência de críticas como sinal de competência. O resultado, frequentemente, foi uma coleção de decisões tomadas dentro de gabinetes e desconectadas da realidade.
Mas o erro oposto também produz danos. Nem toda discordância representa inovação. Nem toda participação produz inteligência coletiva. E nem toda opinião é conhecimento, mas muitas vezes, ignorância, senso comum, mediocridade, manipulação da verdade, mentira e até conspiração.
Vivemos, curiosamente, uma época em que falar tornou-se mais valorizado do que compreender. A velocidade das redes sociais nos acostumou a emitir juízos instantâneos sobre praticamente tudo. Aos poucos, essa lógica invadiu empresas, escolas, instituições públicas e organizações sociais. O problema não está em perguntar. O problema começa quando toda pergunta exige que sua resposta seja aceita.
Existe uma diferença ética entre ser ouvido e ter razão. Escutar pessoas fortalece equipes. Atender indiscriminadamente todas as sugestões fragiliza a gestão. E isso é um dos temas espinhosos no meio corporativo, e imagina no ambiente escolar ou acadêmico.
Uma organização saudável cria canais para que todos contribuam. Uma organização madura estabelece critérios para decidir quais contribuições serão incorporadas. Participação sem método produz ruído. Método sem participação produz autoritarismo. E a inteligência está justamente no equilíbrio.
Na educação, essa reflexão ganha contornos ainda mais importantes. Uma escola democrática não é aquela em que professores, estudantes, famílias e gestores decidem tudo coletivamente. É aquela em que todos encontram espaços legítimos para serem ouvidos, compreendem seus papéis e reconhecem que determinadas decisões exigem conhecimentos específicos.
O médico escuta o paciente, mas não entrega ao paciente a responsabilidade pelo diagnóstico. O engenheiro considera as necessidades do cliente, mas não submete os cálculos estruturais à votação popular. Da mesma forma, a gestão precisa ouvir amplamente sem abdicar da responsabilidade técnica que lhe cabe.
Isso não diminui ninguém. Pelo contrário, valoriza aquilo que cada pessoa pode oferecer de melhor. Talvez uma das maiores virtudes da liderança contemporânea seja justamente esta: construir ambientes onde todos tenham voz, mas onde as decisões continuem sendo orientadas por evidências, experiência e responsabilidade.
E assim, participação não elimina liderança, democracia não substitui competência e escuta não significa submissão. No fim das contas, a verdadeira gestão participativa não consiste em perguntar tudo para todos. Consiste em saber quem precisa ser ouvido, quando precisa ser ouvido e, sobretudo, ter a humildade de explicar por que nem toda sugestão será adotada.
Porque o compromisso de uma liderança não é alimentar egos. É produzir os melhores resultados possíveis para a coletividade. E talvez seja exatamente aí que a gestão deixa de ser apenas um conjunto de técnicas para se transformar em um exercício permanente de sabedoria.
Lúcio Rangel Ortiz, mestre em planejamento e análise de políticas públicas formado pela UNESP, MBA em gestão de projetos formado pela USP, pós-graduado em gestão pública pela UFSCar e em gestão escolar pela Universidade Anhanguera e graduado em administração pública pela UFSJ (Universidade Federal de São João Del Rei). É escritor, advogado, gestor público educacional e colunista do Portal FNT – Intelecto Saber.


