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    Fuga de Cérebros e Piada Pronta da Ciência Brasileira

    Lucio RangelBy Lucio Rangel12 de novembro de 2025Updated:13 de novembro de 2025

    O Brasil reafirma, mais uma vez, sua fama de país da piada pronta. A cota de importação do CNPq — de US$ 200 milhões para 2025 (R$ 2.112.000.000,00) — se esgotou antes mesmo de o ano terminar. Laboratórios de ponta, dependentes de reagentes e equipamentos importados, ficaram à deriva. A engrenagem que move a ciência, a formação de talentos e a inovação, parou — ou voltou a funcionar no conhecido modo “gambiarra” no país.

    Mas o problema vai além da falta de insumos: é estrutural, social e civilizatório. Estima-se que o Brasil tenha perdido, conforme matéria da ABRASCO em 20/06/2024, quase 7 mil cientistas para o exterior nos últimos anos, segundo o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). A chamada “fuga de cérebros” ameaça diretamente o desenvolvimento e a soberania nacional — reconhecidos, inclusive, na própria Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil (2016-2022).

    O Professor Pós-Doutor José Eduardo Krieger da Faculdade de Medicina na USP fez até uma crônica em 4/11/2025, a respeito no Jornal da USP sobre o baixo orçamento de investimento público no país, e por causa disso, a ciência brasileira avança devagar em inovação e publicação científica perante o mundo. A pesquisa científica do país para, atropela, improvisa e não vai para frente como precisaria, além de não investir suficientemente no capital humano na formação de doutores e mestres.

    A falta de uma carreira estruturada, a baixa remuneração e as poucas oportunidades empurram nossos talentos para fora. Foi o que aconteceu com Caio Bragatto, físico que deixou o Brasil em 2016 para um pós-doutorado na Alemanha e hoje é professor nos Estados Unidos. A história de Júlia Moreira Pescarini é semelhante. Pesquisadora que desejava seguir na área acadêmica, Júlia viu-se obrigada a buscar espaço fora do país, pois no exterior, encontrou mais oportunidades e remuneração justa.

    Essas trajetórias individuais refletem um problema coletivo: a precarização da carreira científica. O Dossiê Florestan Fernandes: Pós-graduação e Trabalho no Brasil (2023), da Cátedra CEMJ e da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), denuncia a realidade dos pesquisadores em formação — mestrandos e doutorandos — que produzem grande parte da ciência nacional, mas sem direitos trabalhistas ou previdenciários.

    Por uma década, as bolsas de pesquisa permaneceram congeladas: R$ 1,5 mil no mestrado e R$ 2,1 mil no doutorado – valor irrisório para quem pesquisa e se dedica à ciência e à inovação. O reajuste de 40% em 2023 — que as elevou para R$ 2,1 mil e R$ 3,1 mil, respectivamente — pouco alterou a defasagem. E, até julho daquele ano, os bolsistas eram proibidos de exercer qualquer atividade remunerada sob pena de perder o benefício. Recentemente, a CAPES flexibilizou essa regra.

    O presidente da ANPG, Vinícius Soares, defende a criação de uma “cesta de direitos básicos” para os pós-graduandos, incluindo 13ª bolsa, férias e previdência. “O pós-graduando é estudante e trabalhador. A Constituição já prevê condições especiais para quem se dedica à pesquisa, mas falta uma legislação que reconheça esses direitos”, afirma.

    O pesquisador Elzo Júnior, da Fiocruz Bahia, reforça que a valorização da carreira científica exige planejamento de Estado, e envolve Executivo, Legislativo e sociedade civil. Ele propõe a criação de carreiras públicas específicas para cientistas e incentivos que aproximem universidades e centros de pesquisa dos desafios reais do país.

    Em meio a essa crise, o Governo Federal anunciou, em abril de 2024, o Programa de Repatriação de Talentos – Conhecimento Brasil, prometeu R$ 1 bilhão em cinco anos para trazer de volta mil pesquisadores. O pacote inclui bolsas mensais de R$ 10 mil a R$ 13 mil, até R$ 400 mil em recursos de pesquisa, auxílio saúde e previdência.

    Contudo, a proposta recebeu críticas da comunidade científica. Para o vice-presidente da Abrasco, Reinaldo Guimarães, o programa apresenta fragilidades: “Falta controle na seleção dos convidados a voltar, e há um descompasso entre o valor das bolsas e os salários dos professores concursados. Além disso, faltam garantias de permanência dos pesquisadores no país.”

    O próprio CNPq reconheceu, em nota, que o sucesso do programa dependerá da continuidade dos investimentos e da reconstrução do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (SNCTI), enfraquecido nos últimos anos.

    Enquanto isso, a estrutura científica brasileira segue fragilizada. A educação técnica é insuficiente, as universidades públicas sofrem com burocracia e dispersão, e a economia continua entre as mais fechadas do G20 — apenas 29% do PIB vem do comércio exterior, contra 88% na Alemanha e 79% na Coreia do Sul.

    O resultado é previsível: baixa produtividade, pouca competitividade e escassa inovação. E no centro desse impasse, a política brasileira continua presa ao mesmo pacto de mediocridade: governos que se alternam entre populismo fiscal e improviso, enquanto o país perde mentes brilhantes e oportunidades históricas.

    Os setores competitivos — agronegócio, pecuária, mineração — prosperam porque se apoiam em políticas de Estado de longo prazo, não em discursos. Mas até eles enfrentam gargalos estruturais e fiscais que limitam o crescimento.

    Romper esse ciclo exige mais do que aumentar orçamentos: requer replanejar o papel da ciência, abrir a economia, simplificar a burocracia e reconectar conhecimento à produção e à cidadania. Sem isso, continuaremos presos à armadilha da renda média — um país com doutores sem laboratórios, cientistas sem carreira e governos sem projeto de Nação.

    A piada pronta, conforme dizia José Simão na Folha de São Paulo, o Brasil já sabe contar. O jornalista José Simão é conhecido em todo o Brasil por causa de sua coluna no jornal Folha de São Paulo, espaço em que, desde 1987, divide seu humor, às vezes ferino com seu colírio alucinógeno. Segundo sua própria definição, ele aborda “os três temas que mais deliciam os brasileiros que são: sexo, política e futebol. O Trio elétrico do brasileiro é: real, bunda e bola!” Embora José Simão seja jornalista, o seu trabalho é mais estilo humorístico do que propriamente noticioso. Ou seja, o compromisso dele não é com a veiculação da notícia em si, mas com o humor que se extrai dela, a fim de comentá-la de forma jocosa. Assim, extrai-se o jargão “piada pronta”, no caso, para o investimento na ciência do nosso país.

    O desafio agora é escrever um novo roteiro — em que a inteligência e a ciência não sejam exportadas, mas valorizadas como pilares de um futuro verdadeiramente soberano e digno.

    Lúcio Rangel Ortiz – Advogado, Professor Mestre em Planejamento e Análise de Políticas Públicas e Pesquisador do Grupo DeMus (UNESP), MBA em Gestão de Projetos e Parecerista da Revista Digital de Direito Administrativo (USP), Licenciado em Filosofia (UFSJ), Pedagogia (UNIUBE), Sociologia (Uni-FAVENI) e Matemática (UNAR), Escritor, Palestrante e Colunista do Portal Fato no Ato – Intelecto Saber.

    CIÊNCIA Piada política pública

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