
Em um mundo onde a informação flui mais rápido que a luz, é assustador ver o ressurgimento de ideias que a humanidade levou séculos para superar e que, infelizmente, há vozes que fazem movimentos contra ciência. São movimentos como o terraplanismo e o movimento “anti vacina”, que negam o conhecimento científico e substituem fatos por crenças, senso comum e fakenews, que ameaçam a base do progresso humano. Eles representam um retrocesso, uma volta à escuridão de tempos passados.
O ataque à ciência não é novo. Ao longo da história, mentes brilhantes foram perseguidas por desafiarem o status quo. Galileu Galilei é um exemplo, que foi condenado pela Inquisição por defender o modelo heliocêntrico, uma ideia que hoje é senso comum. Ele ousou olhar para o céu com um telescópio e confiar em suas observações, não em dogmas. Sua coragem abriu o caminho para a revolução científica.
A ciência é construída sobre um alicerce de dúvida metódica e verificação. René Descartes nos ensinou a questionar tudo, a não aceitar nada como verdade absoluta sem a devida prova. Aristóteles criou as bases do método científico com o silogismo, a lógica do método indutivo e a raiz do pensamento científico com seu livro Organon (uso da Lógica como ferramenta de todas as ciências com proposições demonstráveis, universais e necessárias, fundamentação da ciência e organização do conhecimento em princípios lógicos, distinguindo verdadeiro do falso). Friedrich Hegel usou a dialética para explicar o movimento da realidade e do pensamento, o que na prática, uma ideia (tese) gera sua contradição (antítese), e do conflito surge uma superação (síntese) – o que hoje é utilizado na concepção da ciência moderna. John Locke cravou o empirismo com base na evidência de um fenômeno assim constatado e repetido pela experimentação. Immanuel Kant ofereceu critérios do racionalismo e empirismo para cravar o que é científico e o que não é e essa atitude, busca-se por evidências, que é o coração do método científico, pois não é o conhecimento que se adapta aos objetos, mas os objetos que se conformam às estruturas cognitivas do sujeito; e com isso, Kant forneceu fundamentos epistemológicos para legitimar a ciência moderna contra o ceticismo e o empirismo puro. Isaac Newton, ao formular as leis da gravidade e do movimento, e Charles Darwin, ao propor a teoria da evolução por seleção natural, não criaram suas teorias do nada. Eles observaram, testaram, e construíram um corpo de conhecimento que resistiu ao tempo e a inúmeros desafios.
Pense no impacto desses gigantes. Louis Pasteur revolucionou a medicina ao provar que os germes causam doenças, salvando milhões de vidas e criou bases das vacinas, principalmente, quando criou a vacina contra a raiva. Marie Curie, com sua pesquisa sobre a radioatividade, proporcionou o poder de diagnosticar e tratar doenças como o câncer e pagou um preço altíssimo por isso com sua saúde e vida. Suas descobertas não foram feitas com base em opiniões, mas em incansáveis experimentos.
E o que dizer de Albert Einstein e Nikola Tesla? Einstein nos deu a teoria da relatividade, o que mudou a concepção sobre espaço e tempo, e com isso, mudou a compreensão do universo. Tesla, com suas inovações na corrente alternada, iluminou o mundo. Esses nomes não são apenas cientistas, são pilares da nossa civilização. Suas contribuições, e as de tantos outros, são inquestionáveis.
Bom frisar que a ciência se baseia no seu rigoroso método científico para constatação de verdade científica, ou seja, uma verdade mediante a racionalidade e experimentação verificável e aprovada pela comunidade acadêmica e científica.
O método científico é uma abordagem sistemática e rigorosa utilizada para investigar fenômenos, adquirir novos conhecimentos e corrigir ou integrar conhecimentos pré-existentes. A essência desse método é a busca por uma compreensão objetiva da realidade, baseada em evidências e não em crenças ou opiniões pessoais ou por “achismo” do senso comum. Por isso, a reprodutibilidade e a checagem são fundamentais. Um experimento só é considerado válido se outros cientistas, seguindo os mesmos passos, conseguirem chegar aos mesmos resultados.
O método científico passa por etapas rigorosas sistemáticas que são: 1) a observação; 2) o questionamento sobre a observação, ou seja, a pergunta; 3) a hipótese (o início de uma tese, uma dissertação ou uma teoria); 4) a formulação da hipótese (sistematização das ideias iniciais da tese ou teoria); 5) a experimentação (devidamente controlada, com devidas variáveis constantes e confiáveis); 6) a análise dos resultados (coleta e análise de dados, cálculos estatísticos dos dados significativos); 7) conclusão (finalização da comprovação da verdade científica, 100% testada, aprovada e incluída como doutrina científica); 8) a divulgação (compartilhamento na comunidade científica por meio de artigos em revistas especializadas, conferências ou livros; e com a divulgação, permite-se que outros cientistas possam revisar, replicar e até mesmo estender a pesquisa original).
E os elementos do método científico são: a objetividade, evidências observáveis e metrificadas pela experimentação (empirismo), racionalidade, replicabilidade e provisoriedade (nenhuma teoria científica é considerada a verdade final e absoluta, pois as teorias são constantemente revistas e podem ser alteradas ou até mesmo substituídas por novas descobertas). A ciência é um processo contínuo de auto correção.
O Negacionismo em Tempos Atuais

Contudo, o perigo se agrava quando o negacionismo se torna uma ferramenta política, principalmente, por grupos extremistas, e por incrível que pareça, nos moldes da visão da “extrema direita”. Políticos extremistas usam a desinformação (fakenews) para minar a confiança nas instituições científicas, especialmente em temas cruciais como as mudanças climáticas e quando o mundo teve que enfrentar a pandemia do Covid-19. Ignorar os dados e os consensos científicos sobre o aquecimento global é uma ameaça direta ao nosso futuro e ao planeta. É um ato de irresponsabilidade que coloca em risco a vida de todos nós. E os que se negaram a tomar a vacina contra Covid-19, muitos morreram por ignorância e desinformação. Até os que defendiam suas ideias de modo “anti ciência”, também morreram. E, infelizmente, algumas religiões com tendências fundamentalistas e sem compromisso com a verdade flertam com o fanatismo e apego às verdades de narrativas dogmáticas (verdades incontestáveis). Contudo e pelo bem da humanidade, é melhor conciliar a fé com a razão, a ciência com religião, a fim de que a humanidade possa buscar a verdade pelo método da razão e ser impulsionada nos seus anseios pela fé (confiança) em alcançar objetivos e metas.
Dizia Albert Eistein: “A fé sem razão é cega e a razão sem fé é manca“. Ou seja, a fé para ser compreensível precisa da razão para ser lógica e capaz de convencer sem ser pela imposição, mas por uma persuasão razoável e aceitável. Caso, a fé não tenha razão, ela é cega, ou seja, obscurantista, fundamentalista e fanática. E a razão sem fé, torna-se uma razão somente cravada na cientificidade, que pode nortear o ceticismo (ou seja, sempre duvidar e nunca chegar a uma verdade aceitável) e o ateísmo (não acreditar no mistério existencial último da realidade), portanto, manca, ou seja, aleijada de alcançar fundamentos necessários para a verdade em si.
A Vacina contra o Câncer

A pesquisa de vacinas contra o câncer tem avançado globalmente, com cada país e região contribuindo com abordagens e descobertas únicas. O objetivo principal é treinar o sistema imunológico para reconhecer e atacar células cancerígenas, assim como ele faz com vírus e bactérias. As principais abordagens hoje são as vacinas terapêuticas, que tratam pacientes já diagnosticados, e as vacinas profiláticas, que previnem o desenvolvimento de certos tipos de câncer.
A Rússia tem feito anúncios significativos sobre suas pesquisas, com a promessa de distribuir uma vacina contra o câncer em 2025 no seu próprio território. O país está explorando diferentes tecnologias:
- Tecnologia de mRNA: Semelhante às vacinas da COVID-19, a vacina russa de mRNA seria personalizada. Uma amostra do tumor do paciente é analisada geneticamente, e uma formulação individualizada é criada para ensinar o sistema imunológico a identificar e destruir as células cancerígenas. Embora promissora, a comunidade científica internacional ainda aguarda a publicação dos dados de ensaios clínicos para validar a eficácia e segurança.
- Enteromix: Esta é outra abordagem russa que utiliza uma combinação de quatro vírus não patogênicos. A ideia é que esses vírus possam destruir células malignas e, ao mesmo tempo, ativar uma resposta imune antitumoral nos pacientes.
Na Europa e nos Estados Unidos, o foco está principalmente em vacinas terapêuticas e personalizadas, muitas delas usando a tecnologia de mRNA.
- Vacinas personalizadas de mRNA: A BioNTech e a Moderna, que se destacaram na pandemia, estão na vanguarda dessa pesquisa. A abordagem consiste em sequenciar o DNA de um tumor, identificar as mutações exclusivas dele e usar essa informação para criar uma vacina de mRNA que instrui o sistema imunológico a atacar somente as células cancerígenas. Ensaios clínicos estão em andamento para diversos tipos de câncer, como o melanoma e o câncer pancreático, com resultados iniciais promissores, mostrando a capacidade de reduzir o risco de recidiva.
- Vacinas “universais” Outra linha de pesquisa importante, especialmente em universidades como a da Flórida (EUA), busca desenvolver vacinas que não precisam ser personalizadas. A estratégia é ativar o sistema imunológico de forma mais ampla, estimulando-o a combater o câncer como se fosse um vírus, sem precisar de uma proteína-alvo específica. Essa abordagem poderia ser mais escalável e acessível, com testes em camundongos já mostrando resultados encorajadores.
Outro país é Cuba, que é pioneiro na vacina terapêutica contra o câncer de pulmão, a Cimavax. Desenvolvida pelo Centro de Imunologia Molecular de Cuba, a vacina não ataca o tumor diretamente, mas sim uma proteína (fator de crescimento epidérmico) que ele produz para crescer. Ao neutralizar essa proteína, a Cimavax ajuda a controlar a progressão do câncer, transformando-o em uma doença crônica e gerenciável, e aumentando a sobrevida dos pacientes. A vacina é utilizada gratuitamente em Cuba e já foi comercializada em outros países, como a Bielorrússia.
E o Brasil também participa ativamente dessa corrida científica. Embora os estudos ainda estejam em fase inicial, o país tem contribuições importantes:
- Pesquisas em instituições brasileiras: O Brasil tem pesquisadores e centros de pesquisa envolvidos no desenvolvimento de vacinas terapêuticas. Um dos destaques é o trabalho de um médico brasileiro que desenvolveu uma vacina contra o câncer de próstata. Essa vacina, que modifica células tumorais para ativar o sistema imunológico, está em testes clínicos. Houve, também, avanço no desenvolvimento da vacina contra o HPV
- Tecnologia e colaboração: A comunidade científica brasileira prevê que as primeiras vacinas terapêuticas para tumores devem ser aprovadas ainda nesta década. O desafio é o alto custo e o investimento necessário para replicar a tecnologia, o que reforça a importância de um investimento nacional para tornar esses tratamentos acessíveis.
Em resumo, o futuro da vacina contra o câncer é promissor e global. Rússia, Europa e EUA avançam com a tecnologia de mRNA, enquanto Cuba se destaca com a Cimavax para o câncer de pulmão. O Brasil, por sua vez, contribui com pesquisas originais e a esperança de que essas inovações cheguem à população. Cientistas acreditam que com o avanço das pesquisas na área, conseguirá alcançar ao objetivo final de se ter uma vacina universal contra o câncer, que possa ampliar o sistema imunológico do corpo humano que vai ter capacidade de atacar os tumores e eliminá-los, principalmente, com uma nova tecnologia da vacina mRNA com checkpoint imunológico anti-PD1, que podem liberar as células T1 do corpo humano, que são capazes de afetarem o tumor ou tumores e eliminá-los.
Os Avanços da Ciência: Uma Esperança

Enquanto a desinformação se espalha, a ciência continua a avançar, mostrando o poder da razão e da dedicação. Pesquisadores sequenciaram o genoma humano, abriram portas para a medicina personalizada. A ciência nos deu vacinas eficazes contra o Covid-19, câncer e a dengue, oferecendo esperança onde antes havia apenas desespero. E, de forma surpreendente, descobertas recentes, como a de um fungo que come plástico, mostram que a ciência pode até mesmo ajudar a reverter alguns dos danos que causamos ao meio ambiente.
Defender a ciência não é uma questão de crença, mas de responsabilidade. A ciência é o motor do progresso, a ferramenta que nos permite curar doenças, explorar o espaço e entender a nós mesmos. Ela nos tirou da escuridão e nos deu a luz do conhecimento. Portanto, a ciência permanece como nosso melhor guia para o futuro. Se ela estiver equivocada, vai ser por novas descobertas da ciência e mostrar novos caminhos, com novos métodos e inovações para podermos progredir.
Rejeitar a ciência é rejeitar a história, o conhecimento e o progresso. É um perigoso flerte com o obscurantismo, que é permitir a ignorância e a crença fanática falarem mais alto do que a razão, a ciência e a evidência de provas.
Nossa missão, como pesquisador das ciências humanas e de tantos outros pesquisadores e cientistas, seja nas áreas da saúde, exatas, biológicas, é defender razão, a evidência e o método científico, a fim de garantir de que o legado de Galileu, Newton, Darwin, Pasteur, Curie, Einstein e Tesla, e de tantos outros, continue a iluminar o nosso caminho.
Lúcio Rangel Ortiz – Professor Mestre em Planejamento e Análise de Políticas Públicas e Pesquisador na UNESP, MBA em gestão de projetos pela USP, pós-graduado em gestão pública pela UFSCar e em ensino de sociologia pela UFSJ. É advogado, escritor, palestrante e parecerista das revistas científicas RDDA (Revista Digital de Direito Administrativo) da USP de Ribeirão Preto, REVES (Revista de Estudos Sociais) da Universidade Federal de Viçosa e “Teoria e Prática” (Revista de Ciências Políticas) da UFSCar. Participa do Grupo de Pesquisas e Estudos DeMus (Direito e Mudanças Sociais) e do Fórum Franca Sustentável.


