
Há uma pergunta que começa a inquietar cada vez mais jovens pesquisadores brasileiros: ainda vale a pena fazer um doutorado? A resposta parece simples para quem observa apenas o prestígio social do título. Afinal, durante décadas, o doutorado foi visto como o ápice da formação acadêmica, um passaporte para universidades, centros de pesquisa e reconhecimento intelectual. Contudo, basta conversar com doutorandos, recém-doutores, pós-doutorandos e livres docentes para perceber que a realidade é muito menos glamourosa do que a cerimônia de defesa da tese faz parecer.
Vivemos um paradoxo tipicamente brasileiro. O país afirma desejar inovação, desenvolvimento tecnológico, educação de qualidade e políticas públicas baseadas em evidências. Entretanto, investe cada vez menos na estrutura que produz exatamente esse conhecimento.
O resultado é uma geração altamente qualificada competindo por um número cada vez menor de vagas. Não faltam doutores, faltam políticas de Estado. Essa distinção é essencial. Existe uma narrativa perigosa segundo a qual o Brasil estaria formando pesquisadores “em excesso”. Entretanto, os dados mostram exatamente o contrário: proporcionalmente, o país continua possuindo um número reduzido de doutores quando comparado às nações mais desenvolvidas. O problema não está na formação, mas na incapacidade estrutural de absorver esse capital intelectual.
Enquanto universidades enfrentam restrições orçamentárias, concursos tornam-se raros, bolsas de pesquisa perdem poder de compra e programas científicos convivem com incertezas permanentes. Assim, forma-se excelência para oferecer precariedade. Esse cenário produz consequências que vão muito além da frustração individual.
A ciência é um investimento de longo prazo. Quando um pesquisador abandona sua área porque precisa sobreviver em outra profissão, não é apenas uma carreira que se interrompe. É conhecimento que deixa de ser produzido, inovação que deixa de acontecer, políticas públicas que deixam de ser aperfeiçoadas e oportunidades que o país perde silenciosamente.
A chamada “fuga de cérebros” não começa quando o pesquisador embarca para outro país. Ela começa quando ele percebe que sua própria nação já não possui lugar para aquilo que ele aprendeu a fazer.
Há outro aspecto frequentemente ignorado: a carreira acadêmica tornou-se um percurso de incertezas permanentes. Depois da graduação, vêm o mestrado, o doutorado, muitas vezes o pós-doutorado, a produção científica contínua, a participação em congressos, as publicações internacionais, o domínio de idiomas, a orientação de alunos e a constante avaliação por indicadores de produtividade.
Ao final de todo esse percurso, não existe qualquer garantia de inserção profissional. É intrigante perceber que poucos mercados exigem tanto para oferecer tão pouca estabilidade. Isso ajuda a explicar o crescente adoecimento psicológico observado entre pesquisadores, como depressão, síndrome de burnout, ansiedade, síndrome do impostor e stress. Não se trata de fragilidade individual, mas da consequência previsível de um sistema que transforma excelência em competição permanente e faz da insegurança uma regra institucional.
Também é preciso romper outro mito. O doutorado não deve ser romantizado como uma missão quase religiosa, sustentada apenas pela paixão pelo conhecimento. Pesquisadores pagam aluguel, têm filhos, cuidam de pais idosos, precisam de assistência médica, estabilidade financeira e perspectivas de carreira. Ora, valorizar a ciência significa valorizar quem produz ciência.
Entretanto, reduzir o doutorado apenas ao retorno financeiro também seria um erro. O verdadeiro legado da formação científica talvez seja menos visível. O doutorado ensina a formular perguntas melhores, ensina a desconfiar das respostas fáceis, ensina que opiniões precisam ser confrontadas com evidências, ensina que problemas sociais raramente possuem causas simples, forma pessoas capazes de pensar criticamente, produzir conhecimento e compreender a complexidade do mundo.
Esse patrimônio intelectual permanece, mesmo quando o mercado falha em reconhecê-lo. Ou seja, o problema, portanto, não está no doutorado, está no projeto nacional. Nações que lideram inovação, desenvolvimento econômico e competitividade global tratam pesquisadores como ativos estratégicos.
O Brasil, frequentemente, trata-os como despesas contingenciáveis. Enquanto isso em Brasília e outras ágoras presenciais, virtuais e midiáticas, discursos políticos exaltam educação, ciência, tecnologia e inovação na retórica, mas os orçamentos contam outra história.
A ciência não floresce apenas pela dedicação individual dos pesquisadores, ela depende de escolhas políticas. Depende de universidades fortalecidas, financiamento estável, concursos públicos, integração entre academia e setor produtivo e valorização efetiva do conhecimento.
Sem isso, continuaremos formando profissionais altamente qualificados para disputar poucas vagas, emigrar ou abandonar justamente a atividade para a qual passaram anos se preparando. Talvez a verdadeira pergunta não seja se vale a pena fazer um doutorado. A pergunta correta é outra: que projeto de país desperdiça deliberadamente aqueles que preparou para pensar o seu futuro?
Lúcio Rangel Ortiz, mestre em planejamento e análise de políticas públicas e pesquisador pela UNESP, MBA em gestão de projetos pela USP, doutor livre em Teologia pela FAINTE, advogado, gestor público educacional, escritor e colunista do Portal FNT – Intelecto Saber.


