
O Dia dos Professores, celebrado todo ano no dia 15 de outubro, costuma vir acompanhado de homenagens, flores, postagens inspiradoras e discursos que exaltam a importância da educação. Mas, passado o simbolismo das palavras, resta a dura realidade: o professor brasileiro continua sendo uma das categorias mais desvalorizadas, precarizadas e silenciadas dentro do serviço público e do setor privado.
Por trás da retórica do “educador herói”, há uma política de desmonte estrutural do trabalho docente — marcada por contratos temporários sem direito a FGTS e seguro desemprego, salários defasados que sequer seguem o Piso Nacional Salarial da Educação Pública e o piso salarial do setor privado também, acúmulo de funções, tendo professores de educação infantil que fazem panfletagem na rua, limpam escola e organizam eventos, adoecimento mental (depressão, burnout, ansiedade, stress) e o esvaziamento progressivo de direitos conquistados historicamente (como na PEI, que não podem tirar atestado médico senão perdem pontos na avaliação do desempenho). Muitos professores se encontram reféns de vínculos frágeis, sem estabilidade, sem carreira definida e com autonomia pedagógica cada vez mais reduzida.
O Dia dos Professores deveria ser mais que um feriado simbólico — deveria ser um ato político de consciência e mobilização coletiva. A categoria docente, historicamente pilar da formação crítica da sociedade, vive hoje sob o peso da desvalorização e do desmonte das políticas públicas da educação. E enquanto muitos ainda esperam reconhecimento de cima, o caminho está — e sempre esteve — na organização de baixo para cima.
É nesse cenário que se impõe, mais do que nunca, a consciência de classe docente. O professor precisa reconhecer-se como parte de uma categoria trabalhadora que só encontrará força e respeito se agir coletivamente. Sem mobilização, sem organização sindical e sem consciência política, o discurso de valorização docente continuará sendo apenas uma fachada institucional e propaganda política — conveniente para governos que cortam investimentos na educação, terceirizam responsabilidades e fragilizam o ensino público.

Não basta celebrar o dia do professor. É necessário que os próprios professores se vejam como sujeitos de transformação, capazes de reivindicar judicial e politicamente seus direitos trabalhistas e funcionais. Ações judiciais coletivas, frentes de representação de docentes nas câmaras municipais, assembleias legislativas e até no Congresso Nacional são caminhos urgentes. A defesa da educação passa também pela defesa jurídica e política de quem a constrói.
É urgente retomar a consciência de classe, compreender que os professores são trabalhadores, e que sua luta não é individual, mas coletiva. Sem união e ação política coordenada, a precarização avança. A luta por melhores condições salariais e por respeito à carreira docente não se vence apenas com discursos, mas com mobilização, greve, pressão e representação política direta.
No estado de São Paulo, o Governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) ainda não convocou o número de professores suficientes para as vagas do estado, que segundo o Ministério Público, há uma defasagem de 44 mil vagas por causa dos temporários que as ocupam, sendo que por PNE, o certo é ter no máximo 10% de vagas de professores na rede pública para temporário e não quase 50% como está atualmente; a demissão de professores de sala de leitura e imposição aos PROAT em atribuição de aulas nas escolas; o fechamento de salas de aula no noturno; as muitas atividades em plataformas que não deixam os professores exercerem sua liberdade de cátedra para planejamento, execução e avaliação de aprendizagem dos estudantes; a pressão do assédio moral de gestores escolares em relação aos professores alcançarem metas no BI como se docentes e alunos fossem “máquinas”; as escolas cívico-militares com policiais militares despreparados e sem formação pedagógica adequada para atuarem; a falta de condições de trabalhos com escolas sem manutenção em energia elétrica, água, com estruturas inadequadas (de material de latão) ou sem condições de segurança; a violência institucionalizada que os professores vivem por falta de disciplina de alunos que não querem seguir regras e com pais e responsáveis que passam a mão na cabeça ou oriundos de famílias desestruturadas.
Logo, o professor precisa ocupar o espaço de fala e de decisão: ele deve ser o deputado, o vereador, o dirigente sindical, o formulador de políticas públicas — não apenas o executor das decisões alheias. É hora de transformar o conhecimento em ação e a sala de aula em trincheira de resistência.
Mais do que aplausos, o magistério precisa de voz e poder. Que este 15 de outubro seja lembrado não pelos cartões e flores, mas pelo despertar de uma consciência coletiva que recusa o silêncio e a submissão.
O professor consciente não é aquele que apenas ensina, mas aquele que entende que a luta pela educação pública de qualidade começa com a luta pela dignidade de quem educa.
Em tempos de precarização e discursos antissindicais, ser professor consciente é um ato político e revolucionário.
Porque ensinar também é lutar — e quem educa não pode se curvar diante da injustiça.
Lúcio Rangel Ortiz – Professor Mestre em Planejamento e Análise de Políticas Públicas e Pesquisador (UNESP); Professor de Apoio Tecnológico, Licenciado nas disciplinas de Filosofia (UFSJ), Sociologia (Uni-FAVENI), Matemática (UNAR) e Pedagogia (UNIUBE), qualificado para disciplinas de História, Geografia, Ensino Religioso, Projeto de Vida, Tecnologia e Inovação, Eletiva, Protagonismo Juvenil, Orientação de Estudos, Empreendedorismo e Educação Financeira na rede pública paulista; Coordenador Pedagógico Substituto na Prefeitura Municipal de Franca; foi Professor Conteudista na SAGAH Soluções Educacionais, DTCon e na Rede Claretiano da Educação (Curso de Extensão Universitária). Advogado, escritor e colunista no Portal Fato no Ato – Intelecto Saber.


