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Em boa hora, surgem vozes altamente preocupadas com o desenvolvimento civilizatório do país. Jornalistas, bacharéis em filosofia, cientistas sociais e até quitandeiros convocam o Brasil a refletir sobre a urgência de códigos de conduta profissionais, semelhantes aos que regem o Judiciário e o Supremo Tribunal Federal. A proposta soa nobre. O problema é o espelho.
A depuração moral do país, se levada a sério, exigiria começar pelo básico: quem pode ser dono de empresas de comunicação no Brasil? A lei veta estrangeiros, mas permite que condenados por corrupção, peculato ou estelionato controlem verdadeiras máquinas de produção de “verdades”, como é o caso de Luiz Estevão, ex-senador que foi condenado a 26 anos de prisão, em regime inicial fechado por corrupção ativa, peculato e estelionato, o qual se envolveu no desvio de cerca de R$ 169 milhões nas obras do TRT-SP, com sentença final em 2006. Ele foi preso em 2016 e obteve progressão para o regime aberto em 2021.
Donos de portais, jornais e emissoras que, antes de empresários da comunicação, são personagens centrais de páginas policiais, convenientemente esquecidas quando passam a contratar jornalistas e a ditar narrativas. A origem das notícias falsas (fakenews), com certeza, advém dos ditadores de narrativas que querem que suas mentiras ou distorções da notícia que se propaguem nos meios de comunicação social e nas redes das mídias sociais.
Nesse ecossistema e infelizmente, prospera um tipo de jornalismo movido pela presunção de desonestidade alheia, que apesar de serem considerados meios independentes ou de segunda grandeza ou piores no ranking de credibilidade, mas o que importa é a propagação das notícias que mais desinformam do que informam. Assim, repórteres valorizados são aqueles dispostos a praticar um jornalismo trapaceiro, moralista e seletivo, sempre prontos a apontar o dedo, nunca a examinar a própria biografia e nem a de suas empresas.
Raposas tomaram conta do galinheiro. Exigir ficha limpa dos donos de veículos de comunicação que ajudam a eleger ou a incinerar reputações seria um começo civilizatório real. Outro passo seria revisar a relação promíscua entre imprensa e poder público: prédios sem “Habite-se”, isenções tributárias históricas, benefícios indevidos, salários pagos pelo contribuinte a “setoristas” que jamais deram expediente. Tudo isso raramente vira manchete.
A imprensa que se apresenta como fiscal implacável do Erário construiu, ao longo de décadas, uma confortável rede de privilégios. E quando confrontada, prefere o silêncio, a omissão ou a edição conveniente da realidade. Reportagens são suavizadas, escândalos internos soterrados, biografias cuidadosamente higienizadas.
O auge dessa degeneração se revelou nos tempos das “operações” de nomes novelescos, o que retrata o artigo “Como se fabrica a opinião de brasileiro desinformado” de Márcio Chaer, publicado no dia 2 de fevereiro de 2026 no portal “Consultor Jurídico”.
O que antes era relação profissional entre jornalista e fonte virou conluio. Insinuações passaram a valer como provas e suspeitas, como sentenças. Delações inexistentes eram anunciadas como fato para pressionar investigados ao desespero. Mentiras viraram método. A checagem, um detalhe incômodo.
Curiosamente, aqueles que normalizaram esse padrão se dizem vítimas quando atingidos pela lógica que ajudaram a criar. Descobrem, tardiamente, que a fakenews é uma arma de fogo sem número de série: hoje aponta para o outro e amanhã, para quem a fabricou.
Há ainda a ética para os outros. Fóruns sobre “Ética no Jornalismo”, patrocinados por empresas envolvidas em grandes escândalos, com palestrantes que transitam confortavelmente entre redações, tribunais e gabinetes. O que é escândalo durante o dia vira prática aceitável à noite, desde que feita pelos “certos”.
No fundo, o conflito é de poder. A Constituição de 1988 deslocou o eixo decisório para o Judiciário. Parte da imprensa e do poder econômico jamais aceitou isso. Daí o ataque permanente às instituições, especialmente ao Supremo Tribunal Federal, sempre por meio de insinuações, ilações e narrativas não comprovadas.
É mais fácil culpar a corrupção abstrata, o inimigo difuso, o STF demonizado, do que encarar a precariedade estrutural do país, inclusive da própria mão de obra intelectual. Um exemplo recente nas redes sociais deste ano de 2026, de que o ministro do STF Gilmar Mendes não é formado em direito e nem atuou como advogado, e apesar disso, foi indicado pelo ex-presidente da república Fernando Henrique Cardoso. A própria OAB Nacional emitiu nota que o ex-ministro Gilmar Mendes já atuou como advogado e é formado em direito, sim, pela Universidade de Brasília (UnB), tem dois mestrados em direito, um pela UnB e outro pela University of Munster na Alemanha, onde também doutorou-se com a tese “O controle abstrato de normas perante a Corte Constitucional Alemã e perante o Supremo Tribunal Federal”, além de que passou em concursos públicos para Juiz Federal, Assessor Legislativo do Senado e Procurador da República. Ora, quem recebe a notícia ao contrário sem conferir em sites de órgãos oficiais, vão acreditar no inverossímil, simplesmente porque é confortante por sua crença ideológica ou crente de uma narrativa de um grupo de extrema direita, principalmente, os seguidores do ex-presidente da república Jair Bolsonaro porque simplesmente não gostam do ministro.
Esse exemplo é um caso de um exame sério de competência, ética e responsabilidade talvez revelasse índices de reprovação constrangedores em várias profissões, inclusive no jornalismo.As mazelas da imprensa podem ser narradas de duas formas: de maneira cruel e sensacionalista, ou contextualizadas dentro das deficiências estruturais do país. Para os outros, escolhe-se a primeira. Para si, a segunda.
A pergunta que segue sem resposta é simples e objetiva: qual decisão judicial, qual voto, contrariou a lei, a jurisprudência ou os precedentes para favorecer interesses pessoais? Sem isso, o resto é ruído. E ruído, quando repetido à exaustão, vira fakenews, criadas, disseminadas e acreditadas por quem diz combatê-la.
Combater as fakenews não é um gesto retórico nem uma bandeira de ocasião: é um enfrentamento direto a estruturas organizadas que operam como verdadeiras quadrilhas informacionais. Grupos criminosos aprenderam a explorar a fragilidade do debate público, a velocidade das redes e a credulidade seletiva de parte da sociedade para transformar mentira em método e desinformação em poder.
Quando a fabricação deliberada de falsidades passa a servir a interesses econômicos, políticos ou pessoais, já não estamos diante de opinião ou erro jornalístico, mas de crime social continuado e reiterado. As fakenews organizadas corroem instituições, destroem reputações, desorienta a cidadania e mina a confiança coletiva, o que é exatamente o terreno fértil em que prosperam autoritarismos, oportunismos e negócios ilícitos.
Por isso, o combate efetivo à desinformação exige mais do que discursos morais ou cruzadas seletivas. Exige responsabilidade, transparência, critérios objetivos, rastreabilidade de interesses e, sobretudo, autocrítica. Não há luta legítima contra fakenews quando se tolera a mentira útil, a insinuação conveniente e o silêncio cúmplice.

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A verdade não precisa de gritaria, dossiês apócrifos ou tribunais midiáticos. Precisa de método, prova, evidência, contexto e coragem. Enquanto a desinformação for usada como arma por grupos organizados — travestidos de jornalismo, militância ou moralidade pública — o maior prejuízo continuará a recair sobre a democracia, a justiça e o próprio direito à informação. E esse custo, cedo ou tarde, cobra seu preço de todos.
Lúcio Rangel Ortiz, advogado mestre em planejamento e análise de políticas públicas formado pela UNESP, MBA em gestão de projetos pela USP, especialista em direito digital, direito público e LGPD pelo LEGALE Educacional de São Paulo, professor de filosofia e sociologia pela rede pública paulista, escritor, palestrante e colunista do Portal FNT – Intelecto Saber.


