O avanço do Acordo entre o Mercosul e a União Europeia e a implementação da Reforma Tributária no Brasil trazem perspectivas positivas para o comércio exterior brasileiro, mas também acendem um alerta sobre a necessidade urgente de investimentos em infraestrutura logística e portuária.
O acordo entre o Mercosul e a União Europeia deve ampliar significativamente o volume de importações e exportações, criando novas oportunidades para empresas brasileiras ampliarem sua competitividade no mercado internacional. No entanto, para que o país consiga aproveitar plenamente esse cenário, será fundamental superar gargalos históricos de infraestrutura.
O Porto de Santos, maior porto da América Latina e principal porta de entrada e saída de mercadorias do país, já recebe investimentos importantes, incluindo leilões e projetos de expansão. A expectativa é que ele cresça ainda mais com o fortalecimento do comércio exterior. Contudo, há limitações estruturais que preocupam especialistas.
– “As perspectivas são extremamente positivas para o Brasil com o acordo Mercosul-União Europeia e com a simplificação tributária. Porém, precisamos ter um olhar estratégico para a infraestrutura. O Porto de Santos já é uma potência, mas as estradas que dão acesso ao porto e às cidades da região, como Santos e Guarujá, não suportariam, hoje, o aumento projetado de fluxo de cargas”, afirma Cristiane Fais, especialista em importação e exportação e CEO da Accrom Consultoria em Logística Internacional.
Localizada em Ribeirão Preto (SP), a Accrom Consultoria em Logística Internacional é uma das maiores empresas do país no segmento, atuando de forma estratégica na gestão de operações de comércio exterior e planejamento logístico para empresas de diversos portes.
Segundo Cristiane, embora o Brasil conte com outros portos relevantes, o Porto de Santos segue como o mais procurado, especialmente para escoamento de mercadorias provenientes de São Paulo, Minas Gerais e do Centro-Oeste. Com a Reforma Tributária, esse movimento pode se intensificar.
– “Hoje existem os chamados corredores tributários, que tornaram determinados portos mais atrativos por vantagens fiscais. Com a Reforma Tributária, prevista para implementação gradual até 2033, esses diferenciais tendem a perder força. Muitos portos que eram escolhidos por benefício fiscal podem deixar de ter a mesma relevância competitiva”, explica.
A previsão é que esses corredores sofram impactos diretos, o que pode concentrar ainda mais as operações em Santos. Além disso, o Brasil ainda enfrenta um custo elevado de transporte rodoviário, que representa a principal matriz logística do país.
– “Se não houver expansão das ferrovias e incentivos para outros modais, como o ferroviário e o pluvial, a tendência é de aumento da concentração no Porto de Santos. Isso pode gerar congestionamentos e gargalos ainda maiores”, alerta Cristiane.
Outro ponto estratégico é o fortalecimento da cabotagem — modalidade em que a carga chega a um grande porto, como Santos, e é redistribuída por meio de embarcações menores para outros portos e cidades do país. Esse modelo pode aliviar a sobrecarga rodoviária e ampliar a eficiência logística nacional.
A especialista também destaca que atualmente as ferrovias estão concentradas nas mãos de poucas empresas, o que reforça a necessidade de planejamento e ampliação de investimentos públicos e privados em infraestrutura.
Para que a Reforma Tributária alcance seus objetivos e para que o Acordo Mercosul-União Europeia se traduza em maior competitividade internacional, será essencial integrar políticas fiscais com um robusto plano de investimentos em portos, rodovias, ferrovias e no modal pluvial.
– “O Brasil tem uma oportunidade histórica de se posicionar ainda melhor no comércio internacional. Mas, para isso, precisamos alinhar política tributária, infraestrutura e estratégia logística. Sem esse tripé, o crescimento pode esbarrar em limitações estruturais”, conclui Cristiane Fais.



