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    Início » Abdias e Carolina: um grito de resistência
    Humanarte

    Abdias e Carolina: um grito de resistência

    Cairo StillBy Cairo Still16 de março de 2025Updated:1 de junho de 2025

    A cidade de Franca, no interior de São Paulo, orgulha-se de ser o berço de Abdias Nascimento, uma das figuras mais proeminentes na luta contra o racismo no Brasil. Nascido em 1914, Abdias enfrentou desde cedo as adversidades impostas pelo preconceito racial. Sua trajetória multifacetada como artista, político e ativista dos direitos humanos o consolidou como um dos maiores expoentes da cultura afro-brasileira.

    Em 1944, Abdias fundou o Teatro Experimental do Negro (TEN), uma iniciativa pioneira que buscava inserir atores negros nos palcos brasileiros e combater estereótipos raciais. Além disso, criou o Museu de Arte Negra, visando preservar e divulgar a arte afro-brasileira. Em sua obra “O Quilombismo: Documentos de uma Militância Pan-Africanista”, ele propõe um modelo de sociedade baseado nos quilombos, comunidades formadas por africanos escravizados que fugiam da opressão. Nesse contexto, o quilombismo é apresentado como uma alternativa política que valoriza a união, a solidariedade e a resistência cultural.

    Carolina Maria de Jesus, embora não tenha nascido em Franca, por aqui morou e trabalhou em 1927, como lavradora e empregada doméstica. A escritora compartilha com Abdias a mesma data de nascimento: 14 de março de 1914. Mineira de Sacramento, Carolina migrou para São Paulo, onde viveu na favela do Canindé. Catadora de papel e escritora, ela registrou em seus diários a dura realidade das periferias paulistanas. Seu livro mais conhecido, “Quarto de Despejo” (1960), revela o cotidiano de fome, preconceito e resistência. Em suas palavras: “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome, para que assim tenha conhecimento do que é o pão.”

    A relação de Abdias com sua cidade natal é celebrada atualmente. O Sesc Franca inaugurou, em novembro de 2024, a exposição “Abdias Nascimento – O Quilombismo: Documentos de uma Militância Pan-Africanista”, apresentando cerca de 70 pinturas do artista. A mostra destaca a importância de Abdias na valorização da cultura negra e sua luta contra o racismo estrutural. No entanto, é preciso perguntar: a cidade que o viu nascer realmente incorporou seus ideais? Ou limitou-se a celebrar sua figura sem transformar suas reivindicações em políticas públicas efetivas?

    Imagens da exposição O Quilombismo: Documentos de uma militância Pan-Africanista, Abdias do Nascimento.

    O racismo estrutural, denunciado exaustivamente por Abdias Nascimento e Carolina Maria de Jesus, não se manifesta apenas em atos explícitos de discriminação. Ele opera nas estatísticas, nos mapas das cidades, nas condições de moradia e trabalho da população negra. Abdias, em sua atuação política, não se furtou a apontar essa estrutura perversa: “O racismo no Brasil é uma ditadura disfarçada de democracia racial”. Suas falas no Congresso Nacional, enquanto senador, eram contundentes, denunciando o genocídio da população negra e a ausência de políticas afirmativas eficazes.

    Carolina Maria de Jesus, por sua vez, transformava sua experiência de exclusão em uma denúncia social que ultrapassa o tempo. Em “Quarto de Despejo”, ela expõe a realidade que muitos ainda enfrentam: “A favela é o quarto de despejo da cidade. Quem mora em favela é considerado cidadão de segunda classe”. Seu relato é um testemunho vivo do abismo social que separa brancos e negros no Brasil. A ausência de saneamento, o desemprego, a fome e a violência são marcas dessa segregação racial mascarada de desigualdade econômica.

    O racismo estrutural, dentro das instituições e práticas das sociedades, mantém desigualdades que marginalizam a população negra. Essas injustiças foram trazidas à tona em suas obras por Abdias e Carolina. Abdias invocou a ancestralidade africana em suas pinturas e escritos como forma de resistência e afirmação de identidade. Carolina expôs por meio de seus diários a invisibilidade e a opressão sofridas nas favelas. Ambos abriram as feridas na sociedade que insiste em relegar os negros à sua periferia, geográfica e simbolicamente.

    É vital entender que o racismo não é um problema individual, mas uma engrenagem sistêmica que trabalha silenciosamente nas estruturas sociais. A luta de Abdias e Carolina nos convida a questionar e desconstruir essas engrenagens. Como sociedade, devemos nos perguntar: quantas Carolinas ainda têm suas vozes silenciadas? Quantos Abdias são privados de seu espaço para expressar sua arte e cultura?

    Franca, como tantas cidades brasileiras, exibe suas contradições. De um lado, homenageia Abdias com exposições e eventos culturais; de outro, sua população negra segue sub-representada nos espaços de poder e sobre-representada nos indicadores de vulnerabilidade. O quilombismo, conceito desenvolvido por Abdias, não se limita à memória dos quilombos históricos. Ele propõe uma estrutura de sociedade baseada na autossuficiência econômica, na valorização da cultura negra e na resistência coletiva ao racismo. Quantos quilombos urbanos – e aqui não me refiro apenas a espaços físicos – foram criados em Franca para garantir essas premissas?

    Se queremos honrar verdadeiramente o legado de Abdias Nascimento e Carolina Maria de Jesus, é preciso ir além da exaltação simbólica. As palavras de Carolina ecoam como um alerta: “O Brasil precisa ser mais humano. O Brasil precisa olhar para os pobres”. As populações periféricas ainda vivem em condições desumanas, e a luta contra o racismo não pode ser apenas um tema acadêmico ou uma bandeira de ocasião.

    O reconhecimento de Abdias como uma figura histórica não pode ser descolado de sua militância. Ele não foi apenas um artista ou acadêmico; foi um revolucionário que pagou o preço de suas denúncias com o exílio e a perseguição política. Suas reflexões sobre o racismo estrutural seguem atuais e incômodas para aqueles que lucram com a manutenção das desigualdades. Como ele afirmou: “O Brasil pratica um racismo sem racistas”. Essa estrutura precisa ser desfeita com ações concretas, que passem pela educação, pelo acesso à cultura e pela redistribuição de oportunidades.

    Celebrar Carolina e Abdias exige um compromisso com as causas que eles defenderam. Significa transformar políticas públicas, ampliar o acesso da população negra ao ensino superior, garantir moradia digna e combater a violência policial, que ainda tem um alvo racial definido. A pergunta que deve ser feita não é apenas como homenageá-los, mas como tornar o Brasil um lugar menos hostil para aqueles que compartilham sua cor, sua história e sua luta.

    Se Franca deseja realmente carregar o nome de Abdias com orgulho, precisa se perguntar o quanto de sua população negra tem acesso a espaços de cultura, de arte e de poder. O quilombismo não é um conceito do passado; é uma urgência do presente. Carolina Maria de Jesus nos ensinou que a escrita pode ser uma arma de denúncia e transformação. Abdias Nascimento nos mostrou que a arte e a política são inseparáveis na luta por justiça racial. Que sua cidade natal e todo o Brasil aprendam essa lição e a transformem em prática.

    PARA VER: Entrevista de Carolina Maria de Jesus (disponível completa no Youtube)

    PARA OUVIR: O pobre e o rico, composição de Carolina Maria de Jesus, 1961 – “Pobre só pensa no arroz e no feijão, pobre não se envolve nos negócios da nação!“, também no Youtube em regravação de projeto do SESC

    PARA LER: O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado, de Abdias Nascimento, Editora Perspectiva (disponível na Amazon).

    PARA VISITAR: Abdias Nascimento – O Quilombismo: Documentos de uma Militância Pan-Africanista, no SESC Franca, até 15/06, gratuito.

    abdiasnascimento carolinamariadejesus Cultura culturafranca quilombismo Racismo

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