
Durante décadas, a filosofia carregou o rótulo de ser uma disciplina “abstrata”, confinada ao mundo das ideias e distante das demandas concretas do trabalho e da vida em sociedade.
No entanto, um estudo recente publicado no Journal of the American Philosophical Association (2025) derruba esse mito e coloca a filosofia no centro das formações mais relevantes para o século XXI.
E o que os dados mostram? No último estudo levantando pelo referido jornal, que estudantes de filosofia não apenas acompanham, mas superam colegas de outras áreas em raciocínio verbal, lógica e reflexão crítica. E mais: revelam curiosidade intelectual, abertura mental e capacidade de autorreflexão — competências escassas e altamente valorizadas em um mundo atravessado pela inteligência artificial, pela crise da confiança no ensino superior e pelas incertezas do mercado de trabalho.
O ponto central é simples, mas poderoso: a filosofia não ensina o que pensar, mas como pensar. Essa distinção, aparentemente sutil, é o que separa as sociedades críticas das sociedades manipuladas, profissionais inovadores de meros repetidores de fórmulas. Na era da saturação informacional e da polarização tóxica, a filosofia deixa de ser um luxo intelectual para se tornar um instrumento de sobrevivência coletiva.
Não por acaso, filósofos estão sendo requisitados muito além da sala de aula: no mundo corporativo (para discutir questões éticas nos conselhos das empresas e entidades), em programas de compliance (questões de transparência, ética e integridade da informação) e governança (questões de tomadas de decisões eficientes e assertivas); também, na tecnologia, ao discutir dilemas da Inteligência Artificial (em questões éticas normativas, epistemológicas e cognitivas ao relacionar banco e análise de dados); na política, ao colaborar com análises de políticas públicas, tomadas de decisões e ampliação de olhar crítico dos dados, informações e relações de resultados; e até em áreas emergentes como a Filosofia Clínica, que oferece suporte existencial direto às pessoas, que tem proposta diferente da Psicanálise e demais terapias. Pensar, aqui, deixa de ser exercício acadêmico e passa a ser ato terapêutico, político e estratégico.
O que as pessoas e as organizações demandam é a presença de filósofos qualificados, capazes de estimular o pensamento crítico, a criatividade e a inovação, sempre guiados pela ética e pela busca do bem comum.
É curioso notar que, enquanto vivemos a febre dos mentores e coaches, que oferecem receitas e respostas rápidas para o mundo corporativo e até nas relações pessoais e buscas de metas pessoais de vida, a filosofia ressurge como a prática que nos obriga a perguntar antes de responder, refletir antes de agir, duvidar antes de acreditar. E isso não é sinal de fraqueza, mas de maturidade intelectual.
Hoje, ser filósofo é ser estrategista do pensamento. As carreiras profissionais evidenciam como formar mentes capazes, curiosas e reflexivas é mais que desejável — é essencial numa era que demanda inovação, liderança e ética.
Pois, o como pensar é metodologizar, deduzir, induzir, intuir e buscar respostas com novas interrogações, seja ensinando, debatendo, criando, aconselhando, regulando ou acompanhando pessoas em sua trajetória pessoal, ou seja, organizando e sistematizando o pensamento de forma coerente e de compreensão da verdade e da realidade.
A filosofia oferece ferramentas poderosas: ela não ensina o que pensar, novamente, mas como pensar — e isso faz toda a diferença. Muitas vezes este como, é saber usar a lógica do próprio pensamento mediante a realidade cognitiva, que pode ser abstrata, concreta e experiencial de vida. O filósofo não entrega caminhos prontos, mas ensina a caminhar com autonomia, independência e protagonismo — habilidade rara em sociedades cada vez mais tentadas pelo imediatismo (alcançar o que deseja de forma rápida), utilitarismo (sistema filosófico da utilidade do conhecimento e demais coisas) e pragmatismo (sistema baseado somente nas questões práticas do conhecimento, do trabalho e das escolhas de vida, sem buscar aprofundamento das decisões e de outros sistemas de crenças, ideias e valores).
A diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, foi precisa ao afirmar que a filosofia “desperta mentes e força o confronto entre opiniões, ajudando a construir sociedades mais tolerantes e respeitosas”. Em tempos de radicalismos, polarizações, extremismos e verdades absolutas de redes sociais, não é exatamente disso que mais precisamos?
Se antes se dizia que filosofia era impraticável, hoje fica claro que ela é, talvez, a mais importante prática das formações entre cursos, palestras, treinamentos e oficinas, seja também para graduações, pós-graduações, mestrados, doutorados, pós-doutorados, MBAs e Livre Docência. Afinal, que outro campo prepara tão bem alguém para analisar dilemas éticos, enfrentar ambiguidade, lidar com a complexidade e, sobretudo, construir sentido?
Lembremo-nos que é do conhecimento filosófico que se propõe teses do conhecimento para ser validado e considerado uma doutrina a orientar práticas científicas, tecnológicas, acadêmicas e humanas. É a filosofia que proporciona o pensamento crítico e sistemático, habilidades argumentativas e interpretativas, análise de dilemas éticos
Pensar nunca foi tão urgente e nunca foi tão prático, um ato intrínseco do ser humano para compreender sua existência e razão no mundo que vive.

Filosofia Clínica: um campo inédito
Um espaço filosófico em expansão é o da Filosofia Clínica, que se apresenta como uma proposta distinta da psicanálise e de outras terapias psicológicas tradicionais. Desenvolvida no Brasil a partir dos anos 1990, essa abordagem aplica diretamente os métodos filosóficos ao acompanhamento individual, ajudando pessoas a compreenderem sua própria existência, valores e escolhas a partir de estruturas filosóficas e não de modelos clínico-psicológicos.
Enquanto a psicanálise busca interpretar o inconsciente e outras terapias trabalham aspectos comportamentais ou emocionais, a filosofia clínica parte da singularidade do indivíduo, tratando-o como portador de uma história única e irrepetível, que busca não só racionalizar a sua autorreflexão existencial, mas compreender e refletir a própria existência. É um espaço em que categorias como ética, lógica, estética e linguagem são utilizadas como ferramentas para enfrentar crises pessoais, tomar decisões e encontrar sentido.
Essa vertente mostra que a filosofia não é apenas formadora de pensadores ou reguladora de debates acadêmicos, mas também um recurso terapêutico e existencial, capaz de oferecer suporte direto à vida cotidiana.
Lúcio Rangel Ortiz – professor licenciado de Filosofia pela UFSJ (Universidade Federal de São João Del Rei), advogado, escritor, pesquisador, mestre em planejamento e análise de políticas públicas pela UNESP, MBA em gestão de projetos pela USP. É, também, colunista do Portal Fato no Ato e palestrante.


