
A política contemporânea deixou de ser um jogo encastelado dentro das fronteiras nacionais. Na era da hiperconectividade e das redes de desinformação globalizadas, a extrema-direita e as correntes neofascistas aprenderam a operar em ecossistema: compartilham táticas, narrativas, algoritmos e métodos de erosão democratica. Contudo, o contra-ataque a esse fenômeno também atravessou oceanos. A capacidade do movimento popular pró-Lula no Brasil de resistir, mobilizar e refundar as bases democráticas, exportando em fazer o “L” pelo mundo, tornou-se uma das maiores referências globais de contenção do autoritarismo no século XXI.
O fenômeno que se convencionou chamar de “fator Lula” vai além da figura carismática do líder político, ele simboliza a articulação entre sindicatos, movimentos sociais, coletivos periféricos e a sociedade civil organizada. Ao demonstrar que a extrema-direita não é invencível nas urnas e na ocupação das ruas, a experiência brasileira passou a influenciar diretamente debates e táticas políticas em diversas nações.
O eco global do Lulismo reflete o impacto geopolítico e a repercussão internacional da liderança de Luiz Inácio Lula da Silva, consolidada pelo feito inédito de sua reeleição para um quarto mandato presidencial. Esse fenômeno opera em duas frentes principais: como um símbolo de resistência democrática e como uma força motriz para o reposicionamento do Sul Global na governança mundial.
O Impacto e as Repercussões nos Quatro Cantos do Mundo
A ressonância da mobilização popular brasileira manifesta-se de maneiras singulares em diferentes cenários geopolíticos:
1. América Latina: Fronteiras de Conflito e Resistência
- Argentina: A ascensão do ultraliberalismo de Javier Milei colocou os movimentos sociais argentinos sob forte pressão. A vitória popular do lulismo no Brasil serve como o principal ponto de apoio moral e político para a oposição e para as centrais sindicais argentinas, demonstrando que a reorganização de base é capaz de derrotar projetos extremistas nas urnas. André Janones, o líder principal do “Exército do Lula” foi para o país hermano conversar com Cristina Kirchner, que pretende organizar a esquerda argentina para as próximas eleições.
- Chile: Durante o governo de Gabriel Boric e os conturbados processos constituintes, a mobilização progressista chilena buscou no modelo brasileiro a chave para construir frentes amplas capazes de deter a direita radical liderada por José Antonio Kast. Novas mobilizações populares e protestos estudantis têm ocorrido no Chile contra o governo de direita e de extrema-direita de José Antonio Kast. Os atos foram impulsionados principalmente contra o projeto de orçamento para 2027 apresentado pelo governo, que prevê cortes de recursos e redução de verbas na educação pública e em programas sociais, além de críticas ao encarecimento do custo de vida e às medidas de austeridade. As manifestações lá reúnem estudantes secundaristas, universitários, professores, sindicatos e movimentos sociais organizados por entidades como a Confederação de Estudantes do Chile (Confech) e grupos de esquerda e antifascistas sob o lema “Nenhum peso a menos para a educação”. Grandes atos no centro de Santiago e em outras cidades (como Valparaíso) têm enfrentado dura repressão policial por parte dos Carabineros, que utilizam gás lacrimogêneo e jatos d’água para dispersar os manifestantes, resultando em barricadas, confrontos e dezenas de detenções.
- México: A presidente do México, Claudia Sheinbaum, convidou oficialmente o deputado federal brasileiro André Janones (Rede-MG) para uma visita de trabalho no país. O objetivo do convite, formalizado no final de outubro de 2026, é articular estratégias de comunicação e pautar uma agenda conjunta para o fortalecimento e consolidação dos movimentos populares de esquerda no México. O convite ocorre em um contexto de forte repercussão internacional da chamada tática do “janonismo”. O modelo de mobilização digital que o deputado coordenou — baseado no canal “Exército do Lula”, na criação de grupos hiperativos no WhatsApp e Telegram com missões diárias e no uso de memes e referências da cultura pop — consagrou-se globalmente como uma ferramenta eficaz da esquerda no combate ao avanço da extrema-direita.
2. Europa e a Vitória da Esquerda nas Urnas
- Alemanha: Com a vitória da esquerda e das forças progressistas nas eleições alemãs, a sociedade civil e os partidos de base demonstraram que a unidade e a mobilização popular, nos moldes da resistência promovida no Brasil, são a resposta eficaz para conter a ascensão extremista e proteger as instituições democráticas.
- Sérvia: Em uma virada histórica, as forças de esquerda e os movimentos sociais e estudantis conquistaram a vitória nas urnas. Inspirados nas táticas brasileiras de mobilização de rua e ativismo digital, os coletivos sérvios conseguiram romper o longo domínio autoritário e reabrir os caminhos democráticos no país.
- Espanha e França: Em ambos os países, o avanço do Vox e da Rassemblement National impôs a necessidade de frentes amplas. A esquerda espanhola (Somar/PSOE) e a Nouveau Front Populaire francesa inspiraram-se explicitamente na capacidade do movimento pró-Lula de unificar correntes heterogêneas no Brasil para barrar a extrema-direita.
- Itália: Sob o governo de Giorgia Meloni, as forças progressistas e sindicais italianas olham para a resistência popular brasileira como um roteiro de como fazer oposição social e cultural contra a normalização do pós-fascismo no poder.
3. Estados Unidos e Israel: A Derrota Conservadora no Congresso e no Poder
- Estados Unidos: Nas eleições norte-americanas, Donald Trump e o Partido Republicano sofreram uma severa derrota política, perdendo o controle do Congresso com a vitória dos democratas tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado. Além disso, o Partido Democrata expandiu sua força nacional elegendo mais governadores pelo país. A vitória popular pró-Lula no Brasil já havia servido de antídoto ao fantasma da insurreição trumpista, e a eleitorado progressista dos EUA provou que a mobilização de minorias e trabalhadores pode superar narrativas extremistas.
- Israel: Em Israel, o governo de Benjamin Netanyahu sofreu um duro golpe político ao perder a maioria do Congresso (Knesset). Para o movimento democrático e os setores progressistas israelenses — que saíram em massa às ruas contra as reformas autoritárias do governo — a experiência de resistência popular brasileira ensina que a presença ativa da sociedade é indispensável para enfraquecer coalizões de extrema-direita e reestabelecer o equilíbrio democrático.
A Lição do Brasil para o Século XXI
A mobilização popular pró-Lula não exportou apenas uma vitória eleitoral, exportou uma metodologia de resistência. Ela provou que a extrema-direita e o fascismo moderno não se combatem com tecnocracia ou passividade institucional, mas sim com a repolitização da sociedade, a presença ativa nos territórios e a defesa intransigente da inclusão social.
Enquanto a internacional reacionária busca minar os pilares da convivência democrática, as vitórias e avanços progressistas do Sul Global às capitais europeias e estadunidenses mostram que o sinal enviado pelas ruas brasileiras permanece claro: a democracia só se salva quando o povo decide ser o protagonista de sua própria história.
Lúcio Rangel Ortiz, advogado, mestre em planejamento e análise de políticas públicas (UNESP), MBA em gestão de projetos (USP), professor licenciado em filosofia (UFJS) e sociologia (Uni-FAVENI), pós-graduado em direito público (LEGALE), gestão pública (UFSCar) e ensino de sociologia (UFSJ). Escritor, pesquisador e colunista do Portal FNT Intelecto Saber.


