Começa como diversão. Um palpite no jogo do time do coração, uma aposta de poucos reais ou a expectativa de ganhar algum dinheiro rapidamente. O problema aparece quando apostar deixa de ser algo ocasional e passa a ocupar cada vez mais espaço na rotina, no orçamento e nas relações familiares.
Em meio à crescente discussão no Brasil sobre os impactos das bets, o médico obstetra e escritor Albino Bonomi chama a atenção para uma dimensão que ultrapassa quem está diante da tela fazendo a aposta: as consequências que determinadas escolhas individuais podem provocar dentro de casa.
“Quando um comportamento começa a comprometer o orçamento, provocar conflitos, gerar mentiras ou interferir na relação com o companheiro, com os filhos e com outras pessoas próximas, ele deixou de produzir consequências apenas para quem o pratica. A família também passa a viver os efeitos daquela escolha”, afirma Bonomi.
A família também sente
A preocupação ganhou espaço no debate público brasileiro. Além das discussões sobre publicidade, patrocínios e formas de proteção aos consumidores, autoridades de saúde têm chamado a atenção para os impactos que o uso problemático das plataformas pode provocar na vida financeira, emocional, familiar e social.
Para Bonomi, um dos perigos está justamente na dificuldade humana de perceber quando um comportamento ultrapassou determinados limites.
“Nem sempre reconhecemos imediatamente aquilo que está nos fazendo mal. E isso não acontece apenas com apostas. Pode ocorrer nos relacionamentos, no trabalho, no consumo e em diversos comportamentos repetitivos. Às vezes, as pessoas que convivem conosco percebem as consequências antes de nós mesmos”, explica.
No caso das apostas, há ainda um componente capaz de alimentar a repetição: a expectativa de que a próxima tentativa poderá compensar aquilo que já foi perdido.
“Quando alguém começa a acreditar que precisa continuar porque poderá recuperar uma perda, existe o risco de entrar em um ciclo muito perigoso. A pessoa deixa de olhar para aquilo que já aconteceu e passa a viver na expectativa de que a próxima escolha resolverá o problema criado pelas anteriores”, analisa.
Quando o dinheiro deixa de ser apenas dinheiro
Os impactos financeiros também podem transformar a dinâmica de uma família. Recursos destinados às despesas da casa, projetos do casal ou necessidades dos filhos podem se tornar motivo de conflito quando passam a ser comprometidos.
Mas Bonomi ressalta que o problema não deve ser analisado exclusivamente pelo valor perdido.
“O dinheiro pode ser apenas a parte mais visível. Por trás dele podem surgir quebra de confiança, afastamento, discussões, ansiedade e sofrimento. Uma família não é formada apenas por pessoas que moram na mesma casa. Existe uma rede de confiança e responsabilidade. Quando essa estrutura é atingida, todos podem sofrer”, afirma.
Por que insistimos em comportamentos que nos prejudicam?
A discussão também se conecta a uma questão mais ampla abordada pelo médico e escritor: por que o ser humano continua repetindo determinados comportamentos mesmo quando percebe suas consequências?
Em seu livro O Ciclo Gestatório de um Homem, Bonomi percorre diferentes momentos da existência humana e utiliza experiências pessoais para refletir sobre formação emocional, relações familiares, escolhas, comportamento e busca pelo autoconhecimento.
Para o autor, compreender a própria história pode ajudar a identificar padrões que, muitas vezes, são reproduzidos quase automaticamente.
“Autoconhecimento não significa encontrar justificativas para tudo aquilo que fazemos. É justamente o contrário. Significa compreender melhor nossas motivações para assumir responsabilidade pelas nossas escolhas. Quando conseguimos reconhecer nossos padrões, aumentamos a possibilidade de interromper aqueles que estão nos prejudicando”, explica.
Apostar não pode ser apresentado como solução financeira
Outro ponto que preocupa no debate sobre as bets é a possibilidade de que a aposta seja encarada como alternativa para resolver problemas financeiros.
Para Bonomi, a promessa de uma solução rápida pode se tornar especialmente sedutora quando alguém atravessa dificuldades.
“Todos desejamos encontrar caminhos para resolver nossos problemas. O perigo aparece quando uma expectativa começa a substituir a realidade. Quanto maior a dificuldade, maior pode ser a tentação de acreditar em uma solução imediata. É justamente nesses momentos que precisamos recuperar a capacidade de refletir antes de agir”, afirma.
O médico destaca ainda a importância de familiares não ignorarem mudanças importantes de comportamento.
“Quando a família percebe que alguém perdeu o controle sobre determinado comportamento, apenas julgar ou condenar pode não resolver. É preciso conversar, estabelecer limites e, quando necessário, buscar ajuda profissional. Reconhecer que existe um problema não é sinal de fraqueza. Muitas vezes, é o primeiro passo para começar a enfrentá-lo”, acrescenta.
Para Bonomi, a discussão provocada pelas bets pode servir também para uma reflexão mais ampla sobre as escolhas cotidianas.
“Talvez uma das perguntas mais difíceis que podemos fazer a nós mesmos seja: eu ainda estou escolhendo esse comportamento ou já não consigo mais interrompê-lo? Quando aquilo que parecia diversão começa a trazer sofrimento para você e para quem está ao seu redor, essa pergunta precisa ser levada a sério”, conclui.
Sobre o livro
O Ciclo Gestatório de um Homem, de Albino Bonomi, é uma obra autobiográfica que percorre diferentes fases da existência humana, abordando experiências da infância à vida adulta, relações familiares, casamento, educação dos filhos, psicoterapia e a busca pelo autoconhecimento. A obra propõe uma reflexão sobre como a trajetória de cada indivíduo participa da construção de seus comportamentos, relações e escolhas.
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