Nunca foi tão fácil encontrar informações sobre gravidez. Basta uma busca nas redes sociais para uma gestante ter acesso a vídeos sobre parto, sintomas, alimentação, desenvolvimento do bebê, possíveis complicações, experiências de outras mães e uma infinidade de recomendações sobre o que fazer — ou não fazer — durante os nove meses.
Mas será que tanta informação está deixando as mulheres mais preparadas ou mais inseguras?
Para o médico obstetra e escritor Albino Bonomi, o acesso ao conhecimento trouxe benefícios importantes, mas criou também um novo desafio: aprender a separar informação de qualidade de opiniões, experiências individuais e conteúdos que podem provocar medo desnecessário.
“Informação é importante e a gestante deve participar ativamente das decisões relacionadas à sua gravidez. O problema começa quando ela recebe dezenas de informações diferentes todos os dias e tenta interpretar tudo sozinha. Aquilo que deveria trazer segurança pode acabar produzindo exatamente o contrário”, afirma Bonomi.
Um sintoma e dezenas de respostas
Segundo o obstetra, uma situação aparentemente simples pode ilustrar o problema. A gestante percebe uma alteração no corpo, pesquisa na internet e, em poucos minutos, encontra desde explicações absolutamente comuns até relatos envolvendo complicações graves.
Nas redes sociais, o cenário se torna ainda mais complexo. Algoritmos podem fazer com que, depois de assistir a um vídeo sobre determinada complicação ou experiência traumática, a mulher passe a receber vários outros conteúdos semelhantes.
“Uma experiência relatada na internet pertence àquela mulher, àquela gestação e àquelas circunstâncias. Ela não pode ser automaticamente transportada para todas as outras gestantes. O acompanhamento médico existe justamente para individualizar a avaliação”, explica.
Quando o relato de outra mãe se transforma em medo
Relatos de parto também ocupam espaço significativo nas redes sociais. Experiências positivas podem ajudar mulheres a se prepararem para a maternidade, mas histórias traumáticas, quando consumidas repetidamente e sem contextualização, também podem aumentar a apreensão em relação ao nascimento.
Bonomi destaca que não se trata de defender que as gestantes deixem de pesquisar ou de compartilhar experiências.
“Não devemos demonizar a internet. Ela democratizou o acesso à informação e permitiu que as mulheres conhecessem mais sobre o próprio corpo, sobre seus direitos e sobre possibilidades relacionadas à gestação e ao parto. O cuidado está em não transformar a experiência de outra pessoa em uma previsão sobre aquilo que acontecerá com você”, diz.
A busca pelo “pré-natal perfeito”
Outro fenômeno observado na era das redes sociais é a comparação. Rotinas de exercícios, alimentação impecável, enxovais, quartos planejados, ensaios fotográficos e relatos de uma gravidez aparentemente tranquila podem criar uma imagem idealizada da gestação.
Na prática, cada mulher atravessa esse período de maneira diferente.
“Não existe uma competição para saber quem terá a gravidez mais perfeita. Há mulheres que passam muito bem e outras que enfrentam desconfortos, inseguranças e dificuldades. Comparar permanentemente a própria gestação com aquilo que aparece nas redes sociais pode gerar uma cobrança absolutamente desnecessária”, afirma Bonomi.
Humanizar também é saber ouvir
Autor de Pré-Natal Humanizado – Gerando Crianças Felizes, Albino Bonomi defende uma assistência que considere a gestante para além dos exames e aspectos biológicos da gravidez.
Nesse processo, a consulta também deve funcionar como espaço para perguntas, medos e dúvidas.
“O médico precisa ouvir. Quando uma gestante chega ao consultório preocupada porque viu alguma coisa na internet, simplesmente dizer que aquilo é bobagem não resolve. É necessário explicar, contextualizar e ajudá-la a compreender por que aquela informação pode ou não se aplicar ao caso dela. Isso também é humanizar o pré-natal”, ressalta.
Para Bonomi, a tecnologia e o acesso à informação devem funcionar como aliados, sem substituir o diálogo entre a gestante e os profissionais que acompanham sua gravidez.
“A mulher bem informada participa das decisões e compreende melhor o que está acontecendo com seu corpo. Mas informação precisa vir acompanhada de discernimento. Em uma fase tão importante da vida, acumular centenas de respostas pode ser menos importante do que ter profissionais de confiança com quem seja possível fazer as perguntas certas”, conclui.
Mais informações sobre o livro:
Pré-Natal Humanizado – Gerando Crianças Felizes –



