A transformação dos sistemas de saúde tem ampliado o conjunto de competências exigidas dos profissionais do setor. Publicações recentes do European Observatory on Health Systems and Policies apontam que mudanças nos modelos de cuidado, a incorporação de tecnologias e as novas demandas dos serviços têm gerado lacunas de competências e reforçado a necessidade de formação contínua da força de trabalho.
Para o administrador e especialista em Excelência Operacional e Lean Six Sigma, Carlos Eduardo Gomes da Silva, conhecido como Kadu Gomes, que também é assessor executivo na Associação de Gestão, Inovação e Resultados em Saúde (Agir), a capacitação em áreas como liderança e gestão tem se tornado uma exigência crescente para profissionais que assumem novas responsabilidades dentro das organizações de saúde.
"À medida que avançam na carreira, médicos, enfermeiros e outros profissionais passam a assumir responsabilidades que vão além do cuidado direto ao paciente. Nesse momento, a excelência técnica continua sendo fundamental, mas já não é suficiente", ressalta.
Professor do Ensino Agir nas áreas de Análise e Viabilidade de Negócios e Gestão Estratégica em Saúde, Kadu Gomes destaca que a formação gerencial contribui para ampliar a compreensão dos profissionais sobre o funcionamento das organizações.
"Os resultados assistenciais também dependem da qualidade da liderança, da organização dos processos, da utilização eficiente dos recursos e da capacidade de desenvolver pessoas. Essa formação amplia o campo de atuação e prepara o profissional para assumir posições de gestão e liderança", explica.
Mercado amplia exigências para profissionais da saúde
A mudança acompanha a expansão e a crescente complexidade do próprio setor. A cadeia produtiva da saúde encerrou 2025 com 5,28 milhões de vínculos formais no Brasil, segundo o Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS).
Uma revisão de escopo publicada no Journal of Nursing Management, que analisou 57 publicações sobre competências de gestores hospitalares, identificou liderança, adaptabilidade, comunicação, trabalho em equipe e tomada de decisão entre os principais requisitos para o exercício dessas funções. O estudo também aponta a educação formal e o treinamento como estratégias para o desenvolvimento dessas competências.
No Brasil, um estudo com 76 enfermeiros que conciliavam atividades assistenciais e gerenciais identificou comunicação, trabalho em equipe, educação continuada, liderança e gestão de pessoas entre as competências mobilizadas para implementar ações inovadoras na atenção primária.
Da referência técnica à liderança de equipes
De acordo com Kadu Gomes, a mudança ocorre quando profissionais reconhecidos pela capacidade técnica passam a assumir funções de liderança. "O resultado deixa de depender apenas daquilo que o profissional consegue executar. Ele passa a responder também pelo desempenho de outras pessoas, pelos processos e pelos resultados da equipe", afirma.
Conforme o assessor executivo, a transição exige uma mudança de perspectiva. "Um excelente médico ou enfermeiro não se transforma automaticamente em um excelente gestor quando recebe um cargo de liderança. Muitos profissionais chegam a essas posições sem terem sido preparados para desafios como delegação, comunicação, gestão de conflitos, feedback, acompanhamento de desempenho, priorização e tomada de decisão", assinala Kadu Gomes.
Formação aproxima gestão e desafios da assistência
Diante dessa transformação nas carreiras, formações voltadas à gestão em saúde ganham espaço. O Ensino Agir oferece diversas especializações na área da saúde, entre elas o MBA em Administração Hospitalar: Pessoas, Processos e Tecnologias em Saúde, com conteúdos relacionados à infraestrutura hospitalar, operações, gestão de pessoas, liderança, mercado da saúde, sustentabilidade e tecnologias.
De acordo com Kadu Gomes, que possui experiência executiva nas áreas de gestão, finanças e saúde, além de atuar no desenvolvimento de líderes e equipes, a proposta das formações do Ensino Agir é aproximar os conceitos e ferramentas de gestão das situações enfrentadas no cotidiano das organizações de saúde. "Buscamos discutir a gestão a partir de situações concretas, conectando conceitos, ferramentas e experiências. A vivência prática dos professores e dos próprios alunos permite aproximar o conteúdo da realidade dos serviços", reforça o professor.
Aluno do MBA em Administração Hospitalar e diretor administrativo e financeiro do Hospital de Dermatologia Sanitária Colônia Santa Marta (HDS), em Goiás, Paulo César Alves Pereira destaca a possibilidade de relacionar os conteúdos à rotina profissional. "Temos trabalhado temas como infraestrutura hospitalar, gestão de operações, gestão de pessoas, liderança, mercado da saúde, outsourcing e sustentabilidade sob a visão ESG. Foi um divisor de águas na minha carreira", destaca.
Conforme Paulo César, a experiência dos docentes contribui para estabelecer essa conexão entre conhecimento e prática. "Por meio dos professores, que trazem, para além da teoria e dos conceitos, tenho conseguido uma aplicabilidade real no dia a dia, conectando uma visão estratégica com a prática", completa.
Gestão como parte do cuidado
Para o professor do Ensino Agir, desenvolver competências gerenciais não significa se afastar da essência assistencial. A preparação para liderar pessoas, organizar processos e tomar decisões pode contribuir para melhorar as condições em que o cuidado é realizado. "O desafio é fazer essa transição sem perder a essência do cuidado. Ao assumir uma posição de liderança, uma das formas mais relevantes de cuidar passa a ser melhorar o ambiente, os processos e as condições em que esse cuidado é realizado", finaliza Kadu Gomes.



