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    Início » Balança comercial positiva expõe força do interior paulista e do Centro-Sul na potência exportadora brasileira
    Economia

    Balança comercial positiva expõe força do interior paulista e do Centro-Sul na potência exportadora brasileira

    David FlorimBy David Florim9 de setembro de 2026

    Os números mais recentes do comércio exterior brasileiro reforçam uma característica que muitas vezes passa despercebida quando se olha apenas para os resultados nacionais: uma parcela importante da força exportadora do país está diretamente ligada ao interior paulista e à força do cinturão produtivo do Centro-Sul. Dados consolidados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que o Brasil exportou US$ 250,86 bilhões entre janeiro e agosto de 2026, alta de 10,3% em relação ao mesmo período de 2025. O saldo da balança comercial chegou a US$ 55,32 bilhões, crescimento de 28,2%. Somente em agosto, as exportações somaram US$ 33,16 bilhões, com superávit de US$ 7,39 bilhões.

    Para Cristiane Fais, CEO da Accrom e coordenadora do Núcleo de Comércio Exterior do CIESP, os números precisam ser analisados também a partir dos territórios que produzem, industrializam e movimentam as mercadorias que chegam aos mercados internacionais. Nesse mapa, o interior de São Paulo e os estados que compõem o macrobloco do Centro-Sul ocupam uma posição estratégica, especialmente pela força do complexo sucroenergético.

    “Quando olhamos para a balança comercial brasileira, é importante entender que o resultado não acontece apenas nos portos ou nos grandes centros financeiros. Existe uma cadeia produtiva inteira por trás de cada dólar exportado, e uma parte muito significativa dela está no interior paulista e se estende por todo o Centro-Sul brasileiro. É nessa grande região que concentramos produção agrícola de ponta, usinas, indústria de máquinas, fornecedores de tecnologia, armazenagem e uma extensa rede de serviços que conecta o campo ao mercado internacional”, afirma Cristiane.

    São Paulo lidera produção no coração do Centro-Sul

    O setor sucroenergético é um dos exemplos mais claros dessa integração regional. Na safra 2025/26, a região Centro-Sul respondeu por mais de 616 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, tendo o estado de São Paulo como seu grande motor produtivo, responsável por aproximadamente 50,5% do volume nacional, com 347,9 milhões de toneladas, segundo dados da Conab.

    A relevância da região também se reflete diretamente na pauta exportadora. Segundo o Instituto de Economia Agrícola (IEA), o complexo sucroalcooleiro representou 59,4% das exportações do agronegócio paulista em 2025, atuando como o principal vetor das vendas externas do setor na região.

    Na safra 2026/27, a liderança do bloco permanece consolidada. A estimativa da Conab aponta para uma produção nacional de 705,2 milhões de toneladas de cana (alta de 4,7%), impulsionada pelo desempenho do Centro-Sul. O estado de São Paulo projeta colher 362,8 milhões de toneladas, um crescimento de 4,3% em relação ao ciclo anterior.

    “O dado mais interessante é que estamos falando de uma cadeia transregional que não termina na propriedade rural. A cana movimenta uma estrutura industrial, energética, tecnológica e logística gigantesca que integra São Paulo a estados vizinhos do Centro-Sul. Quando uma usina exporta açúcar ou participa de uma cadeia de biocombustíveis, o impacto econômico se espalha por transportadoras, armazéns, fornecedores de equipamentos, oficinas e empresas de tecnologia de toda a região”, explica Cristiane.

    Açúcar continua estratégico, mesmo com cenário mais desafiador

    A perspectiva para a safra 2026/27 mostra, porém, que crescimento de produção de cana não significa necessariamente aumento proporcional da produção de açúcar.

    A Conab estima 42,9 milhões de toneladas de açúcar na atual safra, redução de 2,9% em relação às 44,2 milhões de toneladas do ciclo anterior. Ao mesmo tempo, a produção de etanol de cana deve crescer 9,7%, para aproximadamente 30 bilhões de litros, indicando uma safra com maior direcionamento para o biocombustível.

    Para Cristiane, essa mudança reforça a necessidade de olhar o setor sucroenergético como uma cadeia dinâmica, e não apenas como uma atividade exportadora de açúcar.

    “O mercado internacional não é estático. Preços, câmbio, demanda, estoques globais, políticas energéticas e decisões de cada país interferem diretamente na rentabilidade das nossas exportações. Por isso, a competitividade do setor sucroenergético brasileiro está justamente na capacidade de combinar produção, tecnologia, energia, diversificação, inteligência comercial, logística terrestre ou ferroviária e estratégia portuária.”

    O cenário também mostra que o Brasil segue ocupando uma posição central no mercado mundial de açúcar. Na safra 2026/27, a própria Conab mantém o país como principal produtor global, enquanto a região Sudeste e o Centro-Sul continuam respondendo por mais de 70% da produção nacional do adoçante, com São Paulo mantendo participação superior à metade do total do país.

    O produto nasce no interior, mas precisa vencer a “última milha” até o mundo

    É justamente nesse ponto que a logística ganha protagonismo para escoar a produção paulista e dos estados vizinhos.

    O Porto de Santos é a principal porta de saída da produção do Centro-Sul para o exterior e tem conexão direta com as cadeias produtivas do interior. Em 2025, Santos movimentou 186,4 milhões de toneladas, recorde histórico, sendo responsável por 29,6% da corrente comercial brasileira com o exterior em valor. O açúcar está entre as principais cargas movimentadas pelo complexo portuário.

    No primeiro semestre de 2026, Santos movimentou 92,8 milhões de toneladas, crescimento de 5,05% sobre o mesmo período de 2025, mantendo sua posição como principal complexo portuário da América Latina.

    Na avaliação de Cristiane, a infraestrutura logística precisa ser entendida como parte da própria estratégia de comércio exterior.

    “Não adianta termos uma produção competitiva dentro da porteira e uma indústria eficiente se o produto perde competitividade no caminho até o comprador internacional. Frete, disponibilidade de caminhões, ferrovias, armazenagem, terminais, capacidade portuária, tempo de espera e previsibilidade logística entram diretamente na formação do preço final.”

    Ela destaca que essa discussão é especialmente importante para polos produtivos do interior paulista e do Centro-Sul que estão distantes do litoral, mas integrados ao sistema exportador por rodovias e ferrovias.

    “Ribeirão Preto, Sertãozinho e demais polos do interior e do Centro-Sul não precisam estar à beira-mar para serem protagonistas do comércio exterior. A nossa importância está justamente na capacidade de produzir, transformar e conectar mercadorias aos grandes corredores logísticos. O desafio agora é garantir que essa infraestrutura acompanhe o crescimento da produção e preserve a competitividade brasileira.”

    O que a balança comercial revela sobre o interior e as regiões produtoras

    Os dados do MDIC mostram ainda que a força exportadora brasileira está distribuída entre diferentes setores. Entre janeiro e agosto, a agropecuária exportou US$ 57,85 bilhões, alta de 9,5%; a indústria extrativa alcançou US$ 62,14 bilhões, crescimento de 19,6%; e a indústria de transformação chegou a US$ 129,41 bilhões, avanço de 6,6%.

    Para Cristiane, a leitura desses números deve ir além do resultado financeiro da balança.

    “Cada superávit comercial carrega uma história de produção e de logística. No caso do sucroenergético, essa história passa fortemente pelo interior paulista e pelas usinas espalhadas pelo Centro-Sul. É uma cadeia que reúne agro, indústria, energia, tecnologia, comércio exterior e transporte. Por isso, discutir exportações também é discutir desenvolvimento regional.”

    Segundo ela, o próximo passo é fazer com que essa potência exportadora seja acompanhada por investimentos contínuos em infraestrutura e por uma estratégia de internacionalização cada vez mais sofisticada.

    “O Brasil já demonstrou que tem capacidade de produzir em escala e competir internacionalmente. O que precisamos é transformar essa vantagem produtiva em vantagem logística e comercial permanente. Para o interior paulista e os polos produtivos do Centro-Sul, isso significa fortalecer os corredores de exportação, ampliar alternativas de transporte, melhorar a previsibilidade e, principalmente, agregar cada vez mais valor ao que produzimos.”

    A combinação entre uma balança comercial robusta, uma safra de cana em recuperação e a liderança do Centro-Sul no setor sucroenergético coloca a região em uma posição estratégica para a próxima etapa do comércio exterior brasileiro: não apenas produzir para o mundo, mas tornar cada vez mais eficiente o caminho entre a produção regional e os mercados globais.

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