
As Eleições Gerais de 2026 não podem ser reduzidas à disputa entre nomes, partidos, alianças, ideologias e pesquisas eleitorais. O que estará verdadeiramente em jogo no Brasil é algo muito mais profundo: qual projeto de sociedade queremos construir, que modelo de desenvolvimento pretendemos defender e, sobretudo, que tipo de democracia estamos dispostos a preservar e aperfeiçoar?

(Frei Betto – autor do livro “Batismo de Sangue”, vencedor do Prêmio Jabuti em 1982, do livro “Típicos Tipos – perfis literários”, vencedor do Prêmio Jabuti em 2005 e do livro “Um homem chamado Jesus”, vencedor do Prêmio Jabuti em 2014 pela categoria Reportagem)
Essa reflexão ganha especial relevância diante das recentes manifestações do escritor, jornalista e religioso dominicano Frei Betto sobre o cenário político brasileiro. Frei Betto tem defendido a importância da eleição presidencial, mas também chama atenção para a necessidade de modificar a composição do Congresso Nacional, considerando que as dificuldades de implementação de determinadas políticas públicas não podem ser analisadas apenas pela perspectiva do Poder Executivo. A observação é importante porque revela uma característica essencial da democracia brasileira: o presidente da República não governa sozinho. Suas propostas dependem, em grande medida, da relação construída com deputados e senadores. Lembrando: cada eleitor poderá votar para um Presidente da República, dois Senadores da República, um Deputado Federal, um Governador de Estado membro e um Deputado Estadual.
E é justamente nesse ponto que a eleição de 2026 precisa ser compreendida com maior maturidade política. Cada voto terá consequências para a formação das maiorias parlamentares, para a aprovação de leis, para o orçamento público e para a própria capacidade de implementação de um determinado projeto de governo.
Por isso, talvez seja necessário inverter uma tradição eleitoral brasileira. Em vez de perguntar somente quem será o próximo presidente, deveríamos perguntar também que Congresso queremos construir. Afinal, não adianta depositar todas as esperanças em um chefe do Executivo e ignorar aqueles que terão a responsabilidade de elaborar leis, aprovar o orçamento, fiscalizar o governo e representar diferentes setores da sociedade.
A política, entretanto, não pode ser compreendida apenas como uma disputa pela ocupação das instituições. A própria trajetória de cidadania que podemos amadurecer oferece uma reflexão importante sobre os limites da política eleitoral. A conquista do poder institucional, por si só, não produz automaticamente transformação social. Uma democracia verdadeiramente viva depende da participação permanente da sociedade, da organização popular, da atuação dos movimentos sociais, dos sindicatos, das universidades, das entidades civis e de cidadãos capazes de acompanhar criticamente aqueles que receberam seus votos.
Ganhar uma eleição não significa, portanto, transformar automaticamente o país. A vitória eleitoral pode abrir caminhos para mudanças, mas a transformação depende de políticas públicas, participação social, capacidade administrativa e, sobretudo, de uma sociedade disposta a acompanhar e cobrar seus representantes.
Esse aspecto se torna ainda mais importante diante da crescente polarização política. As redes sociais transformaram parte significativa do debate público em uma espécie de torcida organizada. De um lado estão os “nossos”; do outro, os “inimigos”. O adversário político deixa de ser alguém que pensa diferente e passa a ser tratado como uma ameaça que precisa ser destruída.
Esse fenômeno representa um risco para a própria democracia. Uma sociedade democrática não precisa eliminar suas divergências. Ao contrário, precisa aprender a conviver com elas. Democracia significa reconhecer que diferentes grupos possuem diferentes concepções sobre economia, Estado, segurança pública, educação, saúde, meio ambiente e desenvolvimento. O conflito de ideias faz parte da democracia. A transformação do adversário em inimigo, não.
As Eleições 2026 serão, nesse sentido, também um teste de maturidade democrática. A pergunta não deveria ser apenas “quem vai ganhar?”, mas “que Brasil será fortalecido pela nossa escolha?” Precisamos superar a lógica segundo a qual uma candidatura deve ser apoiada simplesmente porque pertence ao nosso campo político. O eleitor precisa analisar propostas, trajetórias, compromissos e capacidade de realização.
É necessário perguntar o que cada candidatura pretende fazer na prática. Qual será a prioridade para a educação? Como serão enfrentados os problemas da saúde pública? Que política será adotada para segurança pública? Como gerar empregos e renda? Qual será o papel do Estado no desenvolvimento econômico? Como enfrentar a desigualdade social? Que estratégias serão utilizadas diante dos desafios ambientais e das mudanças climáticas? Como o Brasil pretende lidar com inteligência artificial, transformação digital e soberania tecnológica? Essas questões não podem ser substituídas por slogans eleitorais.
Um vídeo viral não é uma política pública. Uma promessa de campanha não é planejamento. Uma frase de efeito não substitui orçamento, gestão e responsabilidade administrativa. A política contemporânea corre o risco de transformar a comunicação em substituta da realidade, especialmente quando as redes sociais favorecem mensagens rápidas, emocionais e simplificadas.
O eleitor precisa recuperar o protagonismo intelectual diante desse cenário. Não significa transformar cada cidadão em especialista em política ou economia, mas desenvolver a capacidade de perguntar, investigar, comparar e desconfiar de soluções fáceis para problemas complexos.
Também será necessário observar o compromisso de cada candidatura com a democracia constitucional. A disputa eleitoral pode apresentar diferentes concepções sobre economia, políticas sociais, segurança pública, privatizações, tamanho do Estado e desenvolvimento. Essa diversidade é legítima e necessária. O que não pode ser relativizado são os fundamentos democráticos que permitem a própria existência dessa disputa: respeito às eleições, às instituições, aos direitos fundamentais, à liberdade de expressão, à imprensa livre e ao resultado soberano das urnas.
Democracia não pode ser apenas um instrumento para conquistar o poder. Deve ser também o princípio que orienta o exercício do poder. Talvez seja essa uma das maiores questões colocadas diante do Brasil em 2026. Precisamos não apenas escolher governantes, mas reconstruir nossa relação com a política. Precisamos abandonar a idolatria de personalidades, a demonização automática dos adversários e a ideia de que o voto representa uma autorização para que o eleito faça o que quiser durante quatro anos. O voto não é um cheque em branco. Ele é uma delegação temporária de poder. E todo poder delegado precisa ser acompanhado, fiscalizado e questionado pela sociedade.
Por isso, a reflexão proposta nesta edição da Intelecto Saber parte da provocação de Frei Betto, mas procura ampliá-la. A questão não é apenas saber se o próximo governo terá ou não condições de governar diante do Congresso. É compreender que tipo de representação parlamentar queremos e que relação pretendemos estabelecer entre sociedade e Estado.
As eleições não terminam quando as urnas são fechadas. Na verdade, é naquele momento que começa outra etapa da democracia: a fiscalização dos eleitos, o acompanhamento das políticas públicas, a cobrança das promessas e a participação cidadã. Em 2026, o Brasil estará novamente diante de uma escolha histórica. Poderemos transformar a eleição em mais um capítulo da polarização política ou aproveitar o processo eleitoral para discutir seriamente o futuro do país.
Poderemos votar movidos apenas pelo medo, pela raiva e pela identificação com determinado grupo ou poderemos votar com consciência, analisando propostas, trajetórias e projetos de sociedade. A diferença parece pequena, mas não é.
Porque uma democracia forte não depende apenas de bons governantes. Depende de cidadãos conscientes de que a democracia não termina na urna. Por isso, a pergunta fundamental para 2026 talvez não seja simplesmente quem vencerá as eleições. A verdadeira pergunta é: que Brasil queremos construir depois que as urnas forem abertas? Essa resposta, mais do que nas mãos dos candidatos, estará nas mãos de cada eleitor. Pense nisso!!
Lúcio Rangel Ortiz, mestre em planejamento e análise de políticas públicas e pesquisador (UNESP), MBA em gestão de projetos (USP), advogado, bacharel em Administração Pública, licenciado em Filosofia e pós-graduado especialista em Ensino de Sociologia pela Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ), pós-graduado especialista em Gestão Pública (UFSCar), gestor público educacional com curso em Ciências Políticas pela parceria VEDUCA/USP.


