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    Como a escola ajuda jovens a sair da bolha digital

    DINOBy DINO18 de agosto de 2026
    Como a escola ajuda jovens a sair da bolha digital
    Como a escola ajuda jovens a sair da bolha digital

    Em tempos de algoritmos que moldam identidades e redes sociais que incentivam a superexposição, educadores têm observado um comportamento recorrente entre adolescentes: jovens que acreditam ter "inventado" expressões populares, tendências de moda ou comportamentos amplamente difundidos na cultura há décadas. O fenômeno abre um debate urgente sobre identidade, pertencimento e o papel insubstituível da escola na construção do chamado "eu coletivo".

    Ao personalizar conteúdos a partir do comportamento anterior do usuário, os aplicativos constroem experiências individualizadas que fragmentam referências históricas e culturais. Uma música antiga, uma gíria ou uma estética de outra época reaparecem sem contexto, como se pertencessem exclusivamente à geração que as redescobriu.

    Esse fenômeno se relaciona ao que o pesquisador Eli Pariser chamou de ‘bolha de filtro’: a tendência das plataformas de reduzir o contato com perspectivas divergentes. Como consequência, o estudante pode acreditar que sua visão de mundo é mais abrangente do que realmente é. Para Lilian Amaral, gerente pedagógica do Grupo Salta Educação, a escola rompe essa lógica quando amplia o repertório do estudante. "Ela apresenta outros tempos, outras culturas, outras vozes e outras formas de pensar. Ajuda a criança e o adolescente a compreenderem que a realidade não começa nem termina no próprio feed e a perceber que aquilo que ele fala, consome, compartilha e reproduz faz parte de uma construção social e cultural mais ampla", afirma.

    Nesse contexto, a escola passa a ocupar uma função ainda mais importante: ser um espaço de distanciamento da lógica algorítmica. Um ambiente em que crianças e adolescentes entram em contato com referências que não foram escolhidas pela lógica da personalização, mas pela construção histórica, cultural e social da humanidade.

    Segundo um relatório da OECD, habilidades socioemocionais como empatia, colaboração, senso de pertencimento e abertura ao outro, estão diretamente ligadas ao desempenho acadêmico, ao bem-estar e à formação cidadã. A pesquisa "Survey on Social and Emotional Skills 2023" reforça que as escolas têm papel decisivo no desenvolvimento dessas competências.

    "A escola ainda é um dos poucos espaços capazes de oferecer à criança aquilo que as redes sociais tendem a limitar: a formação de sujeitos capazes de dizer ‘eu’, sem esquecer do ‘nós’. O maior risco da geração que cresce olhando apenas para o próprio reflexo é a perda de referência. Quando um estudante descobre que o funk que ouve tem raízes no soul norte-americano ou que a língua que fala carrega séculos de civilização, ele entende que a vivência humana parte de referências anteriores coletivas. Ensinar isso é ensinar humildade intelectual, pensamento crítico e convivência social", afirma Amaral.

    Isso acontece, na prática, em diferentes dimensões da rotina escolar. Ao estudar literatura clássica, por exemplo, o estudante compreende que emoções, conflitos e dilemas humanos atravessam séculos. Em projetos colaborativos, aprende a negociar, ouvir e construir coletivamente. Em debates, descobre que existem visões de mundo diferentes da sua bolha digital. A escola convida o jovem a lidar com diferenças, esperar o tempo do outro, trabalhar em grupo, construir amizades e enfrentar conflitos fora da lógica performática das redes.

    Projetos interdisciplinares, assembleias de turma, práticas restaurativas, grêmios estudantis, tutoria entre pares e atividades de cultura digital crítica estão entre as experiências que mais contribuem para a formação do "eu coletivo", segundo a especialista. O elemento comum a todas elas é colocar os estudantes em situações reais de cooperação, escuta e responsabilidade compartilhada.

    Contudo, a escola não deve competir com as redes sociais, mas mostrar que, fora das telas, existe um contexto histórico de profundidade, convivência humana e senso de continuidade cultural. A restrição bem conduzida, segundo Lilian, pode devolver tempo e presença às relações. "O próprio letramento digital também deve fazer parte desse processo. Explicar como funcionam os algoritmos, discutir bolhas de informação, cultura viral e consumo acelerado de conteúdo ajuda os estudantes a desenvolver uma relação mais crítica com as plataformas", completa a especialista.

    Enquanto as redes tendem a repetir padrões de interesse e reforçar preferências já existentes, a educação amplia horizontes, apresenta novas referências e cria conexões entre passado, presente e futuro, formando sujeitos capazes de reconhecer a própria individualidade sem perder a conexão com a coletividade.

    "A formação humana não pode se encerrar na afirmação individual. É preciso que o sujeito compreenda que sua vida está ligada à vida dos outros", conclui Lilian.

    Arte Educação ENTRETENIMENTO SAÚDE E BEM-ESTAR SOCIEDADE

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