Há quatro décadas, a rotina de uma gestante era muito diferente da atual. O acesso limitado à informação fazia com que as orientações médicas fossem praticamente a única fonte de conhecimento durante a gravidez. Hoje, a realidade é oposta: aplicativos, redes sociais, vídeos e influenciadores digitais oferecem uma avalanche de conteúdos sobre gestação, parto e maternidade. Ao mesmo tempo, a maternidade passou a acontecer mais tarde, as mulheres acumulam múltiplas funções e a ansiedade tornou-se uma das principais companheiras da gravidez.
Para o médico ginecologista, obstetra e escritor Dr. Albino Bonomi, que dedicou décadas à assistência de gestantes e ao acompanhamento de milhares de partos, essas mudanças refletem uma profunda transformação da sociedade.
“Quando iniciei minha carreira, a gestante chegava ao consultório com poucas informações e muita confiança no médico. Hoje, ela chega extremamente bem informada, mas também muito mais ansiosa. O desafio deixou de ser apenas orientar; passou a ser ajudar essa mulher a filtrar tantas informações, muitas vezes contraditórias.”
Segundo Bonomi, a evolução da Medicina trouxe ganhos incontestáveis para a saúde materna e fetal, reduzindo riscos e ampliando a segurança durante a gestação. No entanto, ele observa que as transformações sociais também alteraram profundamente a forma como as mulheres vivenciam esse período.
“A mulher de hoje trabalha, estuda, administra a casa, planeja a carreira e muitas vezes adia a maternidade para conquistar estabilidade profissional e financeira. É uma realidade legítima, mas que faz com que a gravidez aconteça em um contexto muito mais complexo do que há 40 anos.”
De acordo com o obstetra, a maternidade mais tardia é uma das mudanças mais marcantes observadas ao longo de sua carreira.
“Antes era comum acompanhar gestantes na faixa dos 20 anos. Hoje, vemos um número crescente de mulheres engravidando aos 35, 40 anos ou mais. A Medicina evoluiu para acompanhar essa realidade, mas ela exige cuidados específicos e um olhar ainda mais individualizado.”
Outro aspecto que chama a atenção do médico é o impacto das redes sociais sobre a experiência da gravidez. Para ele, embora democratizem o acesso à informação, elas também criam expectativas muitas vezes inalcançáveis.
“As redes sociais mostram uma gestação perfeita, um parto perfeito e uma maternidade perfeita. Mas a vida real não funciona assim. Cada gravidez é única. Quando a mulher passa a comparar sua experiência com padrões idealizados, corre o risco de viver esse momento com culpa, insegurança e frustração.”
Essa visão está presente em “Pré-Natal Humanizado – Gerando Crianças Felizes”, obra em que Albino Bonomi defende que o acompanhamento da gestante deve contemplar não apenas exames e procedimentos, mas também os aspectos emocionais, familiares e afetivos da gravidez.
“O pré-natal não pode cuidar apenas do corpo. Ele precisa acolher as emoções, os medos, as expectativas e fortalecer o vínculo entre mãe, bebê e família. Gestação é um processo biológico, mas também profundamente humano.”
As reflexões do autor também aparecem em “O Ciclo Gestatório de um Homem”, livro em que amplia o debate sobre formação emocional, relações familiares e desenvolvimento da personalidade, mostrando como as experiências vividas desde o início da vida influenciam toda a trajetória do indivíduo.
Para o médico, apesar das inúmeras transformações ocorridas nas últimas décadas, existe um aspecto que permanece inalterado.
“A tecnologia evoluiu, os exames evoluíram, os tratamentos evoluíram. Mas a emoção de ouvir o primeiro batimento cardíaco do bebê continua sendo exatamente a mesma. O amor, a esperança e a expectativa que envolvem uma gestação atravessam gerações e permanecem como a essência da maternidade.”
Albino Bonomi acredita que o grande desafio da Obstetrícia contemporânea é unir ciência e sensibilidade.
“Precisamos aproveitar todos os avanços da Medicina sem perder aquilo que faz diferença na vida da gestante: o acolhimento, a escuta e o cuidado individualizado. A melhor tecnologia continua sendo aquela que aproxima pessoas. A gravidez não é apenas a formação de um bebê; é também a construção de uma família e de uma nova história de vida.”
Mais informações sobre as obras:
https://clubedeautores.com.br/livro/o-ciclo-gestatorio-de-um-homem



