Há uma regra básica no xadrez: quanto mais importante a peça, maior a responsabilidade de protegê-la da realidade. Na política brasileira, porém, algumas lideranças descobriram um método alternativo. Em vez de proteger o rei, tentam redesenhar o tabuleiro.
Recentemente, o cenário eleitoral de Franca e região foi movimentado pelo anúncio da desistência da pré-candidatura de Sérgio Granero a deputado estadual. Na narrativa oficial — convenientemente replicada pela imprensa concorrente — o recuo teria sido motivado por um suposto cenário desfavorável em pesquisas de opinião. Uma justificativa nobre, técnica e que poupa a imagem do agente político. No entanto, as engrenagens que de fato trituraram essa candidatura são muito mais complexas e ruidosas. Fontes de alta fidelidade que transitam pelos corredores da legenda revelaram à nossa coluna que o pretexto da “pesquisa” é apenas uma cortina de fumaça para estancar crises que vinham se acumulando nos bastidores.
Afinal pesquisas são frequentemente utilizadas como bússolas quando apontam para o destino desejado e como cortinas quando se pretende esconder o restante da paisagem. O eleitor, naturalmente, nunca viu os números. Não conhece a metodologia utilizada. Não sabe quem contratou. Não sabe quem foi entrevistado. Não sabe sequer se a pesquisa existiu formalmente. Mas é obrigado a acreditar. E acreditar, convenhamos, tem sido um dos esportes favoritos do eleitor brasileiro.
Durante anos, muitos políticos aprenderam que repetir uma informação produz mais efeito do que comprová-la. A estratégia é simples: repita uma narrativa inúmeras vezes e espere que ela se transforme em verdade por aclamação. O problema é que documentos públicos possuem um defeito terrível: eles costumam existir. Enquanto discursos circulam em grupos de WhatsApp, os portais de transparência permanecem silenciosamente disponíveis para consulta.
O primeiro e mais pesado fator contra Granero, que atua como Coordenador Regional do Republicanos, partiu de dentro da própria casa. Informações de bastidores apontam que o político enfrentava forte desgaste com a ala feminina da sigla. Candidatas relataram que o coordenador criava barreiras sistemáticas para o desenvolvimento de suas campanhas, negligenciando inclusive a distribuição igualitária de verbas partidárias — um tema extremamente sensível na legislação eleitoral vigente. Para piorar o front interno, pesam sobre ele acusações ainda mais graves de ordem prática: relatos de que Granero estaria coagindo candidatos a direcionar verbas públicas de campanha para fornecedores específicos de material eleitoral, praticando preços inflacionados.
Outro mito diz respeito ao verdadeiro cargo político ocupado por Sérgio. No ecossistema local, ele costuma se apresentar com pompa como assessor direto do influente e reconhecido deputado federal Marcos Pereira. Trata-se de uma estratégia de marketing político. Na realidade, o vínculo de Granero com Pereira resume-se à mera articulação política. Porém sua trajetória real na máquina pública é diferente. Em 2014 atuou no gabinete de Gilson de Souza e desde 2017 ocupa cargo comissionado de assistente parlamentar do deputado estadual Sebastião Santos na ALESP, o que pode explicar o fato de o assessor estar constantemente em Franca ao invés de Brasília.
Aqui reside o pragmatismo da sobrevivência política: para levar a candidatura adiante, Granero seria obrigado por lei a se exonerar do cargo. Fontes ligadas ao articulador confirmam que o medo real de ficar sem o salário comissionado a partir de 2027 — caso as urnas falhassem, o que era o cenário mais provável — falou mais alto do que a coragem de arriscar a sorte no pleito. Para completar o combo de erros jurídicos e estratégicos, ele ainda acumulava o desgaste de ter iniciado uma campanha antecipada ilegal, distribuindo adesivos e pedindo votos a amigos em redes sociais ainda no ano passado (2025).
A tese de que Granero possuía a liderança da região desmorona quando confrontada com os números e com os fatos recentes. O eleitorado tem memória, e a matemática é implacável: a liderança de Marcos Pereira — que Granero alega representar — angariou minguados 1.156 votos em Franca e 3.741 em toda a região na última eleição. Um termômetro congelante para quem pretendia se viabilizar ao Legislativo Paulista.
Se os números já desenhavam o isolamento, a política real tratou de desenhá-lo ao vivo. Na recente inauguração oficial do Hospital Três Colinas, em Franca, a temperatura política de Granero foi medida visualmente. Enquanto prefeitos, vereadores e lideranças regionais se aglomeravam em torno do poder real, o articulador foi flagrado em absoluto isolamento, num canto da foto oficial que ilustra esta edição. O registro — mais que mil palavras — traduz o esvaziamento do seu capital político.

Enquanto uns recuam sob o peso de denúncias e isolamento, o Republicanos na região de Franca já tem um norte claro. O ex-jogador de basquete Chuí consolida-se hoje como a maior e mais legítima liderança do partido na região. Diferente do pragmatismo desgastado dos bastidores de gabinete, Chuí carrega consigo uma trajetória limpa, moldada pelo esporte, pela experiência política madura e por uma sólida entrega em projetos sociais de forte impacto comunitário. Sua aceitação popular é uma rara unanimidade em tempos de polarização, oferecendo ao partido exatamente o oposto do que a pré-candidatura de Granero representava: renovação com credibilidade, carisma orgânico e trânsito livre entre os prefeitos da região.
A saída de Sérgio Granero do páreo não foi uma escolha estratégica baseada em estatísticas de intenção de voto; foi o desfecho inevitável de um isolamento político provocado por excessos internos, falta de base real e o temor da planície sem cargo público. A política de Franca agradece pela claridade dos fatos.
Franca e região não precisam de reis autoproclamados.
No fim das contas, o xadrez político é menos complexo do que parece. Precisam de representantes que transformem influência em investimentos, articulação em conquistas e relacionamento político em benefícios para a população. Precisam de lideranças capazes de abrir portas em São Paulo e Brasília.
Quem realmente controla o jogo? Porque, na política como no xadrez, existe uma diferença gigantesca entre parecer uma peça central e efetivamente ser uma. E às vezes o que parecia um rei descobre, tarde demais, que era apenas um peão promovido pelo próprio marketing.
Xeque. O mate, como sempre, pertence aos fatos.
Sociedade Organizada
Jornalista Marcela Barros
Fundadora da Sociedade Organizada
Advogada especializada em Direito Público
Membro da Comissão de Direito Eleitoral da OAB/SP
Membro da Comissão de Direito Administrativo da OAB/SP
Membro da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente da OAB/SP
Membro da Comissão de Direito Eleitoral da OAB/SP
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