
Vivemos uma época paradoxal. Nunca houve tantos discursos sobre liderança, inteligência emocional, maturidade institucional e responsabilidade coletiva. E ao mesmo tempo, talvez jamais tenhamos presenciado uma sociedade tão emocionalmente fragilizada diante da ausência de reconhecimento.
A modernidade criou uma geração de adultos que envelheceram biologicamente, mas permaneceram emocionalmente dependentes de aplausos ou reconhecimento. Em muitos ambientes institucionais, políticos, acadêmicos, jurídicos e corporativos, o cargo deixou de representar apenas responsabilidade para se tornar instrumento de validação pessoal. E o espaço público se converteu em palco psicológico. A função já não basta, é preciso ser visto e exercê-la. Não basta contribuir, é necessário ser percebido como protagonista da contribuição.
Essa lógica foi profundamente analisada pelo filósofo Byung-Chul Han no seu livro A Sociedade do Cansaço. Segundo Han, deixamos para trás a antiga sociedade disciplinar, fundada na repressão do “não pode”, para ingressarmos na sociedade do desempenho, estruturada pela positividade de que “você consegue”, “você pode”, “você deve performar”.
O problema é que, nesse novo modelo, a exploração deixou de ser apenas externa. O indivíduo transforma-se simultaneamente em patrão e escravo de si mesmo. Passa a se cobrar incessantemente por produtividade, reconhecimento, visibilidade e relevância. Exemplo prático são pessoas de classe C, D e até E, que aspiram ser empreendedoras como se sentissem vencedoras, com sonho ou ilusão de alcançarem o patamar de Elon Musk, Luciano Hang, Luiza Trajano, Jeff Bezzos, mas a vida realista nos mostra as dificuldades, quando se auto exige produtividade, reconhecimento e relevância, o que adoece as pessoas, ou as aliena da própria realidade ou reclamam como vitimistas do sistema.
A consequência é devastadora: uma epidemia silenciosa de exaustão emocional, ansiedade, frustração e competição simbólica. O ego contemporâneo não quer apenas existir. Ele deseja ser constantemente confirmado. E é exatamente nesse ponto que surge a diferença entre o ego infantilizado e o ego madurecido. E o que são esses egos: ego infantilizado e ego madurecido?
O ego infantilizado vive da necessidade permanente de validação externa. Precisa de destaque, de centralidade, de reconhecimento contínuo. Alimenta-se de convites, fotografias, menções públicas, mesas de honra, curtidas, aplausos e sinais simbólicos de prestígio. Quando recebe atenção, sente-se fortalecido. Quando ignorado, sente-se diminuído. Sua lógica emocional é semelhante à da infância: “olhem para mim”, “reconheçam-me”, “confirmem meu valor”. Por isso, qualquer ausência de protagonismo pode ser interpretada como agressão simbólica. Não ser o centro da cena passa a produzir ressentimento. E o ressentimento, quase sempre, busca um culpado. É nesse momento que surgem as críticas personalizadas, as ironias, os ataques indiretos, os julgamentos emocionais e as tentativas de desqualificação. O debate abandona o campo das ideias e desliza para o território das pessoas. Muitas vezes, aquilo que se apresenta como crítica institucional é apenas frustração emocional disfarçada de racionalidade.
O mecanismo psicológico da projeção torna-se então frequente. Em vez de enfrentar a própria insegurança, transfere-se ao outro a origem do desconforto. O outro passa a ser arrogante, difícil, inadequado ou ameaçador, quando, na verdade, talvez apenas não esteja disposto a participar do jogo invisível das disputas por validação. O ego infantilizado não suporta o silêncio. Precisa constantemente produzir-se.
Curiosamente, indivíduos mais autônomos costumam provocar incômodo exatamente porque não dependem tanto da aprovação coletiva. Quem pensa por conta própria, quem observa antes de aderir e quem não se curva facilmente às dinâmicas de grupo frequentemente acaba sendo interpretado como ameaça simbólica. Não porque represente perigo real, mas porque expõe silenciosamente a fragilidade emocional daqueles que necessitam continuamente da aceitação do ambiente.
E aqui a análise de Han torna-se ainda mais atual. O filósofo lembra que produzir, historicamente, também significa “entrar em cena”. Na sociedade contemporânea, existir tornou-se sinônimo de aparecer. As redes sociais transformaram todos em mercadorias simbólicas circulando numa vitrine permanente. Vivemos numa cultura da hiperexposição.
As pessoas não apenas trabalham: precisam demonstrar que trabalham. Não apenas participam: precisam registrar que participaram. Não apenas produzem: precisam tornar pública a própria produção. A visibilidade converteu-se em capital emocional.
Nesse cenário, até ambientes institucionais passam a reproduzir comportamentos típicos das redes sociais. Pequenos gestos simbólicos ganham proporções gigantescas. Convites tornam-se certificados de pertencimento. Fotografias tornam-se instrumentos de status. Lugares à mesa tornam-se hierarquias afetivas. E assim, adultos passam a disputar atenção como crianças disputam aprovação. Portanto, a maturidade emocional, porém, segue caminho oposto.
O ego madurecido (diferente do amadurecido, porque este está em processo de amadurecer) compreende que reconhecimento pode ser consequência, mas jamais fundamento da existência. Pessoas emocionalmente maduras não precisam transformar cada espaço em palco nem cada interação em competição. Elas compreendem algo raro na sociedade atual: nem toda ausência de aplauso significa ausência de valor.
O ego madurecido suporta o anonimato sem adoecer. Tolera o silêncio sem sentir-se destruído. Consegue discordar sem transformar divergência em guerra pessoal. Não depende integralmente da validação do grupo para sustentar sua identidade. Enquanto o ego infantilizado busca vencer simbolicamente os outros, o ego madurecido busca apenas não perder a si mesmo.
Essa talvez seja uma das maiores crises contemporâneas das instituições: não uma crise apenas técnica, jurídica ou administrativa, mas uma crise de maturidade emocional coletiva. E acontece numa empresa, no mundo corporativo, nas instituições, em igrejas e até em partidos, sindicatos e entidades filantrópicas.
A advogada Maria Eduarda Magalhães Matos analisa criticamente a sociedade contemporânea e destaca que nas redes sociais e na cultura da visibilidade, a exposição se transforma em capital simbólico. E como contraponto, o texto defende a maturidade emocional, a autonomia intelectual e a integridade pessoal. A autora conclui que a verdadeira liderança não depende de aplausos nem de protagonismo performático, mas da capacidade de permanecer íntegro, consciente e equilibrado mesmo longe do centro das atenções.
Como construir ambientes verdadeiramente adultos em uma sociedade que recompensa o espetáculo? Como preservar a ética da contribuição em uma cultura baseada na performance? Como distinguir liderança legítima de protagonismo performático?
Talvez a resposta esteja justamente na capacidade de abandonar certas disputas. Nem todo palco merece presença. Nem toda visibilidade merece ser perseguida. Nem toda aprovação merece ser conquistada. Em tempos de hiperexposição, talvez a verdadeira coragem não esteja em aparecer mais, mas em permanecer íntegro mesmo quando ninguém aplaude. Porque o verdadeiro teste da maturidade não acontece quando os aplausos chegam. Acontece exatamente quando eles vão embora.

Ora, o ego infantilizado implora reconhecimento e o ego madurecido encontra equilíbrio até no silêncio. E talvez a maior revolução contemporânea seja justamente esta: aprender a existir sem transformar a própria necessidade de validação em projeto de poder.
Lúcio Rangel Ortiz é advogado, gestor público educacional, pesquisador, professor e escritor. É mestre em planejamento e análise de políticas públicas pela UNESP, MBA em gestão de projetos pela USP e colunista do Portal FNT – Intelecto Saber.


