A proximidade da Páscoa reacende não apenas o consumo de ovos de chocolate, mas também um intenso movimento no comércio exterior envolvendo o principal insumo da data: o cacau. Embora o Brasil seja reconhecido como produtor e exportador da commodity, os dados mostram que o país ainda depende de importações para atender à demanda interna — especialmente em períodos sazonais como este.
De acordo com dados do comércio exterior, o Brasil exporta cacau e seus derivados, como manteiga e pó, para mercados como Estados Unidos, Argentina e países europeus, movimentando milhões de dólares todos os anos. Entre 2021 e 2025, as exportações brasileiras de cacau, chocolate e derivados cresceram mais de 86%, chegando perto de US$ 1 bilhão, impulsionadas pela valorização internacional e pela melhora da qualidade do produto nacional.
Por outro lado, o país ainda não é autossuficiente. Em 2024, o Brasil importou cerca de 41 mil toneladas de cacau (entre manteiga, pó e pasta), com investimento superior a US$ 160 milhões. Os principais fornecedores foram países como Costa do Marfim, Gana e Malásia .
Essa dinâmica revela um cenário dual: o Brasil exporta parte da produção, mas precisa importar para suprir a indústria, especialmente em momentos de maior consumo, como a Páscoa.
E os ovos de chocolate?
Quando o assunto é o produto final, como os tradicionais ovos de chocolate, o fluxo internacional também é relevante. O Brasil tanto importa quanto exporta chocolates prontos. Em 2024, mais de 20 mil toneladas de chocolates foram importadas, vindas principalmente de países europeus e da Argentina.
Ao mesmo tempo, a exportação de chocolates brasileiros tem crescido significativamente, com destaque para produtos de maior valor agregado e qualidade, incluindo chocolates premium e derivados industrializados.
Cadeia global e impacto logístico
Para especialistas, a Páscoa escancara a complexidade da cadeia global do cacau e do chocolate, que envolve produção agrícola, industrialização e logística internacional.
Segundo a CEO da Accrom Consultoria em Logística Internacional, Cristiane Fais, o cenário exige planejamento estratégico por parte das empresas.
“A cadeia do cacau é altamente globalizada. O Brasil exporta derivados, mas ainda depende da importação para equilibrar a produção interna. Em datas como a Páscoa, essa logística precisa ser ainda mais eficiente para evitar rupturas no abastecimento e aumento de custos”, afirma.
Ela destaca ainda que fatores como câmbio, custos de frete e instabilidades climáticas em países produtores impactam diretamente o preço final ao consumidor.
“Qualquer oscilação na produção internacional ou no transporte pode refletir rapidamente nas prateleiras. Por isso, empresas que atuam com importação e exportação precisam estar preparadas para cenários voláteis”, completa Cristiane.
Brasil no mapa global do chocolate
Apesar dos desafios, o Brasil tem ampliado sua presença no mercado internacional, tanto como fornecedor de cacau quanto como exportador de chocolates industrializados. A tendência é de crescimento, impulsionada por nichos como o cacau fino e produtos sustentáveis.
Neste contexto, a Páscoa deixa de ser apenas uma data comercial e se consolida como um retrato do papel estratégico do Brasil no comércio global — ao mesmo tempo produtor, importador e exportador de um dos insumos mais desejados do mundo.



