Um veterano com a quilometragem política de Luiz Inácio Lula da Silva não trocaria sua elegibilidade por alguns minutos de glória na Marquês de Sapucaí por mero amadorismo. Pela primeira vez na crônica política nacional, a passarela do samba flerta com a possibilidade de se tornar o palco de uma condenação eleitoral.
Que o Carnaval e o poder sempre dividiram o mesmo camarote, não é segredo para ninguém. Seja pelo financiamento público de escolas de samba via subvenções — aquele “apoio” financeiro em troca de fidelidade das agremiações — ou pelas críticas sociais que desfilam em carros alegóricos, a política é o enredo invisível da festa. O Rio já satirizou Dilma, Collor, Temer e muitos outros políticos, mas nunca havia tentado transformar o desfile das escolas de samba em um comitê de campanha banhado a serpentina.
Os políticos brasileiros estão tão habituados a “sambar na cara do povo” que a manobra quase passou despercebida pelo grande público. Contudo, vivemos tempos em que o óbvio precisa ser dito. João Santana, ex-marqueteiro do PT e profundo conhecedor das sombras estratégicas do partido, foi cirúrgico: “Carnaval presta-se mais à demolição do que à construção de imagens”. Chegou a publicar um vídeo, onde não poupou críticas ao casal presidencial, antecipando que o tiro de marketing sairia direto pela culatra.
A oposição, naturalmente, correu ao Judiciário. Embora o pedido de interrupção do desfile tenha sido rejeitado sob o manto da liberdade de expressão cultural, o recado do TSE foi dado: entre a manifestação artística e a propaganda eleitoral antecipada, a linha é tênue, podendo configurar abuso de poder econômico.
Tamanha era a vontade do ex-sindicalista de desfilar na avenida, que ignorou os alertas.
A escola não economizou no simbolismo: estrelas vermelhas, fazendo clara referência à logo do partido, as alas traziam nome de de supostas realizações das gestões de Lula. Poderia ser uma estratégia de campanha se estivéssemos falando de um leigo, mas ao colocar a figura do palhaço “Bozo” usando tornozeleira eletrônica, o PT confrontou todos os bolsonaristas, perdendo qualquer chance de angariar votos dos eleitores menos convictos. O tiro de misericórdia foi a ala que atacou a família tradicional brasileira, o que fora entendido como uma afronta a todas as religiões cristãs, gerando reação em massa nas redes sociais. Eleitores que ele tem maior dificuldade de captação de votos, sendo obrigado a fazer amplas alianças para atraí-los.
Estamos falando de um político que é presidente de um dos maiores partidos políticos do Brasil, incitou greves durante a década de 80 e ditadura militar, participou de grande movimentos de mudança na história política, está em seu terceiro mandato na presidência, foi deputado federal, foi candidato por oito vezes, preso por corrupção e lavagem de dinheiro na Operação Lava Jato, teve todos os bens bloqueados e ficou inelegível.
Lula e Janja provavelmente saíram com calos e bolhas nos pés, enquanto a Acadêmicos de Niterói foi rebaixada sem nenhuma piedade, provando que João Santana estava certo, carnaval e política podem até caminhar juntos, mas não devem se misturar.
Ingênuo quem acredita que ele se arriscaria a aparecer em horário nobre de rede nacional, atraindo todos os holofotes para si apenas para mostrar seu gingado, ele está fazendo tudo de caso muito bem pensado. Não foi à toa que João Santana, seu fiel escudeiro, se mostrou tão revoltado e quebrou a confiança do “companheiro” de longa data com ácidas críticas.
A primeira dama poderia até estar encantada com o brilho dos paetês e toda atenção recebida, mas Lula sabe exatamente qual é o jogo. A dúvida que fica para nós brasileiros é: porque ele anteciparia sua saída da presidência?
Colunista Marcela Barros
* esta é uma coluna de opinião cujo conteúdo não reflete necessariamente o pensamento, posicionamento ou linha editorial deste meio de comunicação.



