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Muito se fala hoje em “crise dos intelectuais”, do esvaziamento das ciências humanas e o enaltecimento do conhecimento técnico, tecnológico e das ciências exatas para o mercado de trabalho. Mas talvez a pergunta mais correta e necessária seja outra: quem decidiu que pensar profundamente deixou de ser relevante?
O artigo “Intelectuais em Declínio” de Álvaro Machado Dias acerta ao apontar um fenômeno concreto e preocupante. Universidades de referência mundial como Harvard, Brown e Chicago reduziram vagas e suspenderam cursos nas áreas de Artes e Humanidades, sobretudo em nível de pós-graduação. O recado institucional é claro: refletir criticamente sobre a existência, a sociedade, a cultura e a ética passou a ser visto como custo e, não como investimento.
Em nome da eficiência, da inovação tecnológica e da lógica de mercado, o pensamento crítico virou um luxo dispensável, o que, obviamente, tal premissa é questionável e até equivocada. O intelectual, figura historicamente responsável por tensionar consensos, interpreta o mundo e realidade que conhecemos, e isso incomodar o poder, a elite e o status quo da sociedade, pois a retórica falaciosa expressa que o “pensamento crítico é pouco produtivo” em planilhas administrativas.
Mas aqui está a contradição que desmonta o discurso do declínio total.
Nos últimos anos, consolidou-se uma verdadeira indústria da motivação. Infoprodutos, livros e palestras de autoajuda e coaching multiplicam-se nas redes sociais e nos palcos, e prometem sucesso, felicidade e realização pessoal por meio de métodos rápidos, frases de efeito e fórmulas universais. À primeira vista, o discurso parece inofensivo. Mas, quando observado com mais atenção, revela um problema sério: a proliferação de falsas autoridades falando sobre o que não dominam. É a cultura e literatura da “autoajuda”, dos “coaching”, que superficializam os problemas, que engana as pessoas com fórmulas simplistas e enaltecem a mentalidade de mediocridade e das desinformações (fakenews) com imposições de narrativas e falsas promessas.
Não se trata de desqualificar o desejo humano de melhorar a própria vida. O ponto crítico está no fato de que muitas dessas vozes não possuem formação em psicologia, psicoterapia ou psicanálise, mas ainda assim abordam sofrimento psíquico, ansiedade, depressão, luto e frustrações existenciais como se fossem simples falhas de atitude ou de pensamento positivo. Ao reduzir a complexidade da experiência humana a slogans motivacionais, ignora-se tudo aquilo que a ciência e a prática clínica já demonstraram: o sofrimento não é escolha, nem fraqueza moral. Criaram a chamada positividade tóxica, que é motivar as pessoas com pensamentos positivos e encobertam ou negam a realidade emocional que se vive, e assim não resolve problemas emocionais e existenciais das pessoas, com sistema de autocobrança e culpa, romantiza o sofrimento e nega a possibilidade de a pessoa buscar ajuda profissional com seus problemas. É a exigência da felicidade constante e do perfeccionismo sem enfrentar a realidade externa e interna de si.
E essas lógicas geram um efeito perverso. Quem não alcança o “resultado prometido” passa a se sentir culpado, inadequado ou incapaz. A responsabilidade pelo fracasso recai sempre sobre o indivíduo, nunca sobre a superficialidade do método, ou do sistema ou da estrutura que a pessoa se encontra. O resultado é a intensificação do sofrimento emocional, agora travestido de fracasso pessoal.
O mesmo raciocínio se aplica ao universo profissional e empresarial. É cada vez mais comum ver “especialistas em sucesso” sem formação consistente em administração, gestão ou economia, que oferece soluções genéricas para problemas complexos das organizações. Empresas não quebram por falta de motivação, mas por falhas estruturais de planejamento, governança, estratégia e gestão de pessoas. Tratar esses desafios como simples bloqueios mentais é ignorar a realidade concreta do mundo do trabalho.
Há ainda uma dimensão ética que não pode ser ignorada. Muitos desses conteúdos são comercializados como produtos de consumo rápido, embalados por marketing emocional e promessas exageradas. Nesse contexto, o desenvolvimento humano deixa de ser o objetivo central e dá lugar à monetização da esperança, que explora vulnerabilidades emocionais e profissionais.
Nada disso significa negar o valor da inspiração, da reflexão ou da educação informal. O problema surge quando há invasão de campos profissionais, desprezo pelo conhecimento científico e ausência de responsabilidade sobre os efeitos produzidos na vida das pessoas. Desenvolvimento pessoal sério exige estudo, método, limites e compromisso ético e não, apenas carisma, retórica e boa performance digital.
Diante disso, torna-se urgente distinguir orientação responsável de charlatanismo emocional. Crescimento humano e profissional não se constroem com atalhos milagrosos. Constroem-se com conhecimento qualificado, acompanhamento adequado e, sobretudo, respeito à complexidade da condição humana.
E diante de tudo que foi apresentado e apesar do esvaziamento institucional de variados problemas da sociedade, a redução das disciplinas de ciências humanas nas escolas, nas faculdades e nas universidades, as pessoas continuam buscando reflexão, conhecimento crítico e compreensão do sentido das coisas, da realidade e da vida.
É interessante que livros de filosofia, ética e pensamento crítico figuram entre os mais vendidos no Brasil, apesar dos livros de autoajuda, dos influencers e do coaching também serem. Autores como Mário Sérgio Cortella, Luís Felipe Pondé, Leandro Karnal, Clóvis de Barros Filho, entre outros, vendem milhares de exemplares e lotam teatros, auditórios e centros de convenções. Suas palestras reúnem públicos que desejam algo raro hoje: tempo para pensar.
Isso revela uma verdade incômoda para as universidades: o problema não é a falta de interesse das pessoas pelo pensamento, mas a incapacidade das instituições de acompanharem as novas formas de circulação das ideias.
Enquanto as universidades se fecham em métricas produtivistas, o pensamento crítico migra para fora dos muros. Ocupa livrarias, plataformas digitais, rádios, podcasts, lives, ciclos de debates, rodas de conversa e de leitura e espaços culturais. O intelectual não desapareceu — ele foi empurrado para outros palcos.
O erro está em imaginar que universidade é apenas sala de aula, artigo indexado e banca avaliadora. Se quiserem continuar relevantes, as universidades precisam se reinventar radicalmente. As universidade e faculdades precisam voltar a ser:
- oficinas de comunicação do pensamento, não apenas fábricas de títulos;
- espaços de rodas de leitura, leitura crítica e debate público;
- promotoras de fóruns, simpósios, seminários e congressos vivos, conectados com os dilemas reais da sociedade;
- produtoras de podcasts, lives e programas de rádio de longa duração, onde seja possível aprofundar — não apenas opinar;
- lugares onde se discuta, sem pressa, a sociedade, a existência, a ciência, o sistema econômico e o futuro comum.
Pensar exige tempo, reflexão e capacidade diálogo, empatia, escuta ativa, buscar consensos e respeitar as diversidades e a pluralidade de pensamentos e visões. E tempo, hoje, é um ato político, como também o pensar crítico é ato político.
A inteligência artificial, atualmente, responde rápido, é eficaz, mas não reflexiva e crítica, a não ser que seja comandada, programada e determinada por prompts. As redes sociais reagem rápido. O mercado financeiro, o mercado de trabalho, a economia e o mundo globalizado decidem rápido. Mas nenhuma dessas instâncias compreende o sentido da vida coletiva, a complexidade do sofrimento humano ou as contradições da democracia. Isso ainda exige leitura, silêncio, escuta e reflexão. Ou seja, isso exige que o ser humano pense, reflexivamente e criticamente, o mundo e a realidade que vive.
Se há um declínio dos intelectuais, tal declínio não está no pensamento, mas no reconhecimento institucional do valor de pensar devagar para ruminar ideias a fim de absorver insights e novas compreensões da realidade e da existência que vivemos e percebemos.

(Fonte da Imagem: https://dilemmasofhumanity.org)
Recuperar o lugar do intelectual não é nostalgia acadêmica. É uma exigência civilizatória. E uma sociedade que despreza quem pensa profundamente acaba sendo governada por quem grita mais alto, para quem impõe narrativas ideológicas equivocadas, como o movimento da “anticiência”, “terraplanista” e “antivacina”. E isso, definitivamente, não é progresso.
Em última instância, o debate sobre o suposto declínio dos intelectuais revela menos uma crise do pensamento e mais uma crise de reconhecimento do seu valor. Pensar nunca deixou de ser necessário, tornou-se, isso sim, inconveniente em um mundo que exige respostas rápidas, soluções simplistas e adesão acrítica a narrativas fáceis.
O que está em jogo não é apenas o futuro das ciências humanas ou das universidades, mas a própria capacidade da sociedade de compreender a si mesma e enfrentar suas contradições e construir caminhos coletivos mais justos e conscientes.
Recuperar o lugar do pensamento crítico é recuperar a dignidade do ser humano em meio à velocidade das máquinas, ao ruído das redes e à lógica do mercado. Pensar devagar, dialogar, escutar e refletir não é atraso: é resistência, é responsabilidade e é condição para que o progresso não se transforme em barbárie travestida de eficiência.
Pense nisso, reflita, interprete e reinterprete…
Lúcio Rangel Ortiz, professor licenciado em Filosofia (UFSJ), em Sociologia (Uni-FAVENI) e em Pedagogia (UNIUBE). É advogado, mestre em planejamento e análise de políticas públicas pela UNESP, MBA em gestão de projetos pela USP, Escritor, Palestrante e Colunista do Portal FNT – Intelecto Saber.


